O Jogo do Herdeiro

528 Words
Neco: ​Um dia depois. ​Acordei cedo. No meu mundo, não existe margem para erro. Peguei o celular e liguei para o Tonho. Ele atendeu com a voz pastosa, ainda entregue ao sono. Sinceramente, não sei como ele consegue gerenciar o movimento de um morro se não consegue sequer gerenciar o próprio despertar. ​— Fala... essas são horas de ligar? — ele resmungou do outro lado. ​— Conseguiu o menino? — perguntei seco, enquanto colocava um pão na chapa. ​— Consegui. A mulher é viciada, o garoto tem só um mês a mais que o Doruk. Ela vai dar em adoção ou vender, tanto faz. ​O silêncio caiu pesado na cozinha. Eu sabia o peso do que estávamos fazendo. ​— A braseira... — Tonho bocejou, indiferente. ​— Entendo. Manda a cifra. ​Desliguei. Eu precisava conseguir um herdeiro para o meu cliente. Tudo o que eu estava fazendo, cada manobra suja, cada laudo falso, era por ela e para ela. Eu não sabia se a Keila, depois de descobrir toda a verdade, ainda ia me querer por perto. Mas eu esperava por esse perdão desde "aquele dia". ​Bateram na porta. ​— Entre! — gritei. ​Minha mãe passou pela sala. Moramos em um condomínio fechado onde só vive a família. Construí aquilo com muito custo, um refúgio que planejei para ela e para a Keila — se um dia ela me perdoar e aceitar viver sob o meu teto. ​— Mãe? ​— Filho, acordou cedo. ​— Tenho que ir ao fórum — menti com a facilidade de quem respira. ​— Hum... soube algo do meu neto? ​Sorri de canto. Ela é a única pessoa que sabe a verdade e não me julga. Para o mundo, o Doruk é um mistério; para ela, é o sangue que falta nesta casa. ​— Ele está bem. ​— É, mas tu podia trazer ele para cá, né? Já passou da hora. ​— Calma, mãe. Tudo no seu tempo. ​— Tá bom — ela disse, roubando um pedaço do meu pão antes de sair. ​Olhei a porta se fechar e deixei a máscara cair por um segundo. Minha próxima jogada era a mais arriscada. O "chefe" do morro tinha caído; eu e o Tonho planejamos isso por um ano, e finalmente o cara tinha caído. Há meses ele passava mais tempo na solitária, o que dificultava a execução. O monstro nunca soube que Tonho era meu irmão — e nunca saberia. meu irmão, o desfalquei e ainda juntou provas do abuso de poder dele.mas o i****a não sabe de nada. Ele caiu fácil na minha conversa, mas agora eu precisava de um herdeiro que enganasse o "monstro" por trás de tudo. ​O tabuleiro estava montado. Só faltava a peça principal. O infeliz não se arrependia de nada do que tinha feito; ao contrário, ele sorria ao lembrar como tinha matado a Keila para salvar o herdeiro dele. Para ele, o que importava era o filho homem. m*l sabia ele… Respirei fundo, tentando manter a calma. A frieza era necessária. Eu ia me vingar.
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