Neco:
Um dia depois.
Acordei cedo. No meu mundo, não existe margem para erro. Peguei o celular e liguei para o Tonho. Ele atendeu com a voz pastosa, ainda entregue ao sono. Sinceramente, não sei como ele consegue gerenciar o movimento de um morro se não consegue sequer gerenciar o próprio despertar.
— Fala... essas são horas de ligar? — ele resmungou do outro lado.
— Conseguiu o menino? — perguntei seco, enquanto colocava um pão na chapa.
— Consegui. A mulher é viciada, o garoto tem só um mês a mais que o Doruk. Ela vai dar em adoção ou vender, tanto faz.
O silêncio caiu pesado na cozinha. Eu sabia o peso do que estávamos fazendo.
— A braseira... — Tonho bocejou, indiferente.
— Entendo. Manda a cifra.
Desliguei. Eu precisava conseguir um herdeiro para o meu cliente. Tudo o que eu estava fazendo, cada manobra suja, cada laudo falso, era por ela e para ela. Eu não sabia se a Keila, depois de descobrir toda a verdade, ainda ia me querer por perto. Mas eu esperava por esse perdão desde "aquele dia".
Bateram na porta.
— Entre! — gritei.
Minha mãe passou pela sala. Moramos em um condomínio fechado onde só vive a família. Construí aquilo com muito custo, um refúgio que planejei para ela e para a Keila — se um dia ela me perdoar e aceitar viver sob o meu teto.
— Mãe?
— Filho, acordou cedo.
— Tenho que ir ao fórum — menti com a facilidade de quem respira.
— Hum... soube algo do meu neto?
Sorri de canto. Ela é a única pessoa que sabe a verdade e não me julga. Para o mundo, o Doruk é um mistério; para ela, é o sangue que falta nesta casa.
— Ele está bem.
— É, mas tu podia trazer ele para cá, né? Já passou da hora.
— Calma, mãe. Tudo no seu tempo.
— Tá bom — ela disse, roubando um pedaço do meu pão antes de sair.
Olhei a porta se fechar e deixei a máscara cair por um segundo. Minha próxima jogada era a mais arriscada. O "chefe" do morro tinha caído; eu e o Tonho planejamos isso por um ano, e finalmente o cara tinha caído. Há meses ele passava mais tempo na solitária, o que dificultava a execução. O monstro nunca soube que Tonho era meu irmão — e nunca saberia.
meu irmão, o desfalquei e ainda juntou provas do abuso de poder dele.mas o i****a não sabe de nada. Ele caiu fácil na minha conversa, mas agora eu precisava de um herdeiro que enganasse o "monstro" por trás de tudo.
O tabuleiro estava montado. Só faltava a peça principal.
O infeliz não se arrependia de nada do que tinha feito; ao contrário, ele sorria ao lembrar como tinha matado a Keila para salvar o herdeiro dele. Para ele, o que importava era o filho homem. m*l sabia ele…
Respirei fundo, tentando manter a calma. A frieza era necessária. Eu ia me vingar.