Eram cinco da tarde quando finalmente deram o sinal de que as pessoas podiam circular. O clima ainda era pesado, mas eu precisava sair daquelas quatro paredes. Coloquei uma roupa boa no Doruk e escolhi para mim um vestido vermelho que estava guardado há tempos. Coloquei minhas argolas de lei, um anel e, como tinha feito a chapinha hoje, finalmente pude andar com o cabelo solto, sentindo o vento. Fiz as unhas, passei um batom e rímel. Eu não era apenas uma vendedora exausta; hoje, eu queria ser mulher.
Saí de casa com um plano simples: levar o Doruk para tomar um sorvete na praça. Fazia tempo que a gente não tinha esse tipo de saída. O medo ainda circulava pelas ruelas, mas eu me recusava a deixar que ele roubasse meu momento.
Ao descer as escadarias, dei de cara com o Tonho.
— Aí, morena. Tudo certo? — ele perguntou, avaliando o movimento.
— Sim. E tu?
— Também. Não teve grande estrago dessa vez — ele respondeu, com aquela calma de quem já viu de tudo.
— Oi! — o Doruk gritou, puxando a bermuda do Tonho.
— Oi, moleque! Vai sair?
— Sim! Sorvete! — meu filho respondeu, radiante.
Tonho riu, mas logo o rádio na cintura dele chiou. O "chefe" o chamava. Me despedi ali mesmo e segui caminho. No meio do beco, a Lina passou por mim. O rosto dela tinha uma mancha roxa que me fez parar na hora.
— Que foi, amiga? — perguntei, preocupada.
— Ai, tu não sabe... o Chefe. — Ela fez um sinal para cima, e eu entendi na hora. O dono do morro. — Fui fazer um serviço lá e olha aqui. Ele é grosso, arrogante, não aceita um "não".
— Ai, amiga... tu também não muda de profissão — comentei, com o coração apertado por ela.
— Como se fosse fácil, né, Keila?
— É... não é fácil não — suspirei, voltando a andar.
O Doruk já começava a perder a paciência. Nesse ponto, ele era igualzinho ao pai dele, aquele traste: não tinha um pingo de paciência para esperar nada. Chegamos na sorveteria da esquina da praça. Paguei o sorvete e nos sentamos em uma das mesinhas de plástico.
— Toma, filho. Devagar para não congelar o cérebro.
Enquanto ele se lambuzava, meus ouvidos captaram a conversa de dois caras do movimento na mesa ao lado. Eles falavam baixo, mas o tom era de pavor.
— O Chefe tá possesso. Diz que bateu em três de uma vez só porque não baixaram a cabeça na hora certa.
Enguli em seco. O sorvete pareceu perder o sabor por um segundo. Aquele homem era um monstro, um animal sem alma. Olhei para o Doruk, tão pequeno e inocente, e senti um calafrio.
— Espero nunca ter que cruzar com esse homem na minha vida otra vez— sussurrei para mim mesma, enquanto limpava o rosto do meu filho