O álibi perfeito

511 Words
Neco: ​Tudo estava prestes a sair dos eixos, mas eu não ia permitir. Não agora. ​Cheguei ao carro e descarreguei a frustração com um soco no capô. Passei a mão pelo cabelo, me amaldiçoando por ter deixado as coisas chegarem a esse ponto. Respirei fundo, forçando o pânico a recuar. Abri a porta traseira, peguei minha maleta e ajustei o nó da gravata no retrovisor. Era hora do advogado assumir o controle. O homem saía de cena; entrava o profissional. ​Entrei na UPA com passos firmes e fui direto ao balcão. ​— Quem é o médico de plantão hoje? — perguntei a uma das enfermeiras. ​Ela apontou para uma porta no fim do corredor. Agradeci com um aceno seco. Parei diante da madeira clara, respirei fundo pela última vez e dei dois toques precisos. ​— Entre. ​Girei a maçaneta. O doutor nem sequer levantou os olhos do computador. ​— Pois não? O que deseja? ​— Sou o advogado da paciente Keila — anunciei. ​No mesmo instante, ele desgrudou a vista da tela. O olhar dele era sério, avaliador. ​— Por favor, sente-se. ​Assenti e me acomodei. Abri a maleta e saquei a pasta que eu já tinha planejado com antecedência. Entreguei os documentos a ele, mantendo o rosto como uma máscara de mármore. ​— Minha cliente sofreu múltiplas fraturas em um acidente de carro grave há alguns anos — comecei, sem rodeios. — Ela perdeu parte da memória no impacto. Aí está o laudo do psiquiatra comprovando o trauma. — Apontei com o olhar para o papel timbrado que eu mesmo providenciara. — O médico recomendou que as lembranças voltem sozinhas, sem pressão externa. ​O doutor folheava os papéis, o rosto ainda marcado por uma desconfiança latente. Eu continuei, usando meu tom mais convincente de tribunal: ​— Sobre a gravidez... o bebê teve que ser retirado às pressas. As costelas dela estavam fragilizadas pelo acidente e o chute da criança causava dores que a faziam desmaiar. ​O médico parou de ler e me encarou fixamente. ​— Vou lhe ser sincero, doutor. As fraturas são velhas e, visualmente, não parecem ter ocorrido todas no mesmo dia. ​Senti um gosto amargo na boca, mas não desviei o olhar. Assenti calmamente. ​— Eu sei. Mas, como eu disse, minha cliente esqueceu os detalhes do trauma. A memória dela é um quebra-cabeça incompleto. ​— Ela tem marido? Algum familiar próximo? ​— Apenas parentes distantes que não mantêm contato. ​Fiz uma pausa dramática, inclinando-me levemente para a frente. ​— Como o senhor pode ver pelos laudos, ela não sofreu abuso. Foi apenas vítima de um acidente desafortunado e uma recuperação m*l assistida. ​O médico hesitou, mas acabou assentindo. Ele disse que precisaria tirar cópias para anexar ao prontuário. Eu esperei do lado de fora, sentindo o suor frio secar na nuca. Tinha sido por pouco. Por muito pouco. Mas a mentira agora estava documentada. Minha próxima jogada precisava ser ainda mais certeira.
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