Capítulo 01: A chegada a Bellgrave
O silêncio da floresta de Bellgrave nunca era pacífico, mas naquela noite parecia guardar fôlego, esperando o momento certo para atacar. Mag corria desesperada, com os pulmões ardendo e o coração batendo descompensado contra as costelas. O feixe trêmulo da lanterna do celular cortava a escuridão densa, revelando apenas troncos retorcidos de pinheiros centenários que pareciam dançar e fechar caminho à sua frente.
O som seco de um galho quebrando logo atrás fez o sangue de Mag congelar. Ela não ousou olhar para trás. Sabia que alguém estava atrás dela e estava ganhando terreno.
As árvores daquela parte da floresta pareciam absorver a luz da lua. O vento cessou de repente, substituído por um silêncio perturbador que durou apenas um segundo antes de ser quebrado por um som impossível: um sussurro múltiplo, como dezenas de vozes sobrepostas falando seu nome em uníssono, ecoando discretamente dentro de sua mente.
- Mag... Querida... Venha para a névoa...
Uma rajada de ar gelado passou raspando por seu pescoço, trazendo um cheiro inconfundível de terra molhada e folhas. De súbito, uma silhueta colossal projetou-se à sua frente, bloqueando a única trilha de saída.
Não havia olhos, nem rosto definido. Era apenas uma massa disforme de sombras trêmulas e longos membros articulados que se estendiam como galhos secos, deslizando pelo chão sem fazer o menor ruído. A criatura ergueu-se, bloqueando o céu estrelado.
Mag tropeçou nas raízes expostas e caiu com força no chão lamacento. O celular voou de sua mão, apagando na escuridão. Naquele breu absoluto, enquanto o som dos passos arrastados e garras raspando na casca das árvores se aproximava cada vez mais, Mag percebeu que a escuridão já não era apenas a noite; era a própria criatura, envolvendo-a por completo.
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Três dias depois...
O motor do carro engasgou antes de morrer de vez, o som metálico ecoando e quebrando o silêncio opressor da cidade de Bellgrave. Adrian puxou o freio de mão com força, soltando um suspiro longo que condensou no ar frio do crepúsculo. No banco de trás, a algazarra da viagem deu lugar a um silêncio tenso.
- Chegamos! - Anunciou Adrian, forçando um tom animado que não convencia nem a si mesmo.
À esquerda, os dois filhos pequenos, Anthony e Aurora, de 8 anos. Gêmeos não idênticos, espremiam os rostos contra a janela embaçada, enquanto os sobrinhos adolescentes, Noah e Isabella, de 16 e 17 anos, desviavam os olhos de seus celulares para encarar a paisagem através do para-brisa.
Diante deles estava a nova residência, localizada no bairro de Northwood. Uma casa classe média de dois andares rodeada por algumas árvores e por outras casas com o mesmo padrão.
- Nada m*l para uma cidade caipira. - Isabella comentou descendo do carro.
- Não é uma cidade caipira, Bella. - Adrian falou, abrindo a porta e descendo do carro também.
O cheiro de terra molhada chegou até seu nariz, ele respirou fundo e soltou o ar.
- Acho que chove muito por aqui. - Noah comentou.
Enquanto Adrian e Noah tiravam as malas do carro, Isabella cruzou os braços, tremendo de frio, ela não usava nada mais do que uma blusa fina nem um pouco aquecida.
Ela olhou ao redor da vizinhança. Não havia ninguém na rua, tudo estava estranhamente silencioso, mas as luzes das casas estavam acesas revelando que os moradores estavam dentro de suas residências.
Ela sentiu um arrepio subir pelo corpo e uma estranha sensação de estar sendo observada. Aquilo a incomodou e ela começou a sentir medo. Quando ia falar algo para o tio sobre o que passava pela sua mente, um corvo disparou em cima do telhado da casa, rasgando o ar com um grito estridente.
- Filho da p**a! - Isabella se assustou.
Os pequenos começaram a rir da prima arrancando um olhar de raiva dela.
- Estão rindo do quê, seus pirralhos?
- Estamos rindo de você, sua medrosa, se assustou com um pássaro.
- A é, Tony? E você que tem medo do escuro.
O sorriso dele morreu.
- E você Aurora, tem medo do bicho papão.
- Mentira. - Deu língua.
- Mentira nada. - Deu língua de volta.
Os três iniciaram uma briga infantil inútil, um acusando o outro de sentir medo de algo. Adrian interviu e pediu ajuda para colocar as coisas dentro de casa, pondo um fim temporário naquela discussão.
Mesmo depois daquele momento de descontração com os primos, Isabella não conseguiu deixar de sentir aquela sensação inquietante que aquela cidade trazia. Tinha alguma coisa muito errada com aquele lugar.
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O nevoeiro daquele fim de tarde custava a se dissipar entre os pinheiros centenários de Bellgrave, grudando no asfalto e à terra úmida. A fita amarela de isolamento balançava levemente com o vento gélido, demarcando o perímetro onde a tragédia aconteceu.
Atrás dos arbustos espinhosos, os feixes das lanternas dos policiais ainda competiam com a luz da lua cheia que já apontava no céu. Foi ali que o corpo da jovem Mag foi encontrado, estendido sobre um monte de folhas secas.
O cenário era de uma desolação macabra. Os cabelos castanhos da adolescente estavam emaranhados em folhas e terra seca, emoldurando um rosto pálido e gélido, com os olhos arregalados em um eco eterno de puro pavor.
Suas roupas estavam rasgadas nas mangas e na barra, revelando arranhões profundos e simétricos em seus braços, como se garras de lâminas finas tivessem testado a resistência de sua pele.
Mas o detalhe mais perturbador não eram os ferimentos físicos, e sim a ausência total de sangue ao redor do corpo, como se ela tivesse sido drenada por algo.
O murmúrio tenso dos peritos cessou de repente quando um par de botas de couro engraxadas pisou na lama com passos deliberados e silenciosos.
O Xerife Jonathan Vance se aproximou da cena sem pressa, ajustando o chapéu de aba larga que projetava uma sombra profunda sobre o topo do seu rosto. Jonathan não usava o casaco pesado que os outros policiais vestiam para combater o frio da floresta; ele parecia imune à temperatura congelante.
Vestia um sobretudo impecável, escuro, que contrastava bizarramente com o ambiente.
Enquanto se abaixava para examinar o corpo de Mag, a luz da lanterna do colega incidiu brevemente sobre o seu rosto. Jonathan ergueu os olhos para inspecionar os galhos quebrados acima deles, um ângulo de visão impossível para qualquer predador comum.
Quando ele virou o rosto na direção dos subordinados, seus olhos faiscaram por uma fração de segundos com um brilho âmbar predatório que fez os outros policiais desviarem o olhar instintivamente, engolindo em seco.
Jonathan suspirou, um som quase imperceptível, e um leve sorriso frio desenhou-se no canto de sua boca.
- Tem dois cheiros aqui. Alguém matou e outro bebeu o sangue.
O Xerife murmurou, enquanto suas presas reluziam sutilmente sob a penumbra da floresta.
- Como sabe que a mesma que matou não drenou o sangue dela? - Um dos policiais perguntou.
- Como eu disse, tem dois cheiros, um é de vampiro e o outro não consegui identificar. - Apontou para Mag. - Olhem as marcas no corpo dela, um vampiro não faria isso, tem que ter sido outra criatura.
- Mas qual, Xerife?
- É isso que temos que descobrir. - Levantou. - Cuidem de tudo por aqui, eu vou para a casa da família dar a notícia que encontramos o corpo.
🍂
A penumbra do quarto de teto alto e vigas de madeira abraçava Isabella enquanto ela terminava de desencaixotar os últimos livros que trouxe na viagem.
Cansada, ela caminhou até a janela que dava para a rua da frente, empurrando o vidro pesado para respirar um pouco de ar fresco. O vento soprava lá fora, fazendo os galhos de uma árvore próxima arranharem o telhado como unhas longas.
Ela odiou aquele som.
A rua estava deserta, mergulhada em silêncio inquietante e iluminada pelas luzes dos postes. Seus olhos se desviaram para a casa da frente com curiosidade, então no segundo andar da casa, a janela de um dos quartos estava aberta, apenas uma cortina branca impedia que Isabella visse o interior do quarto.
Ela continuou olhando e de repente alguém afastou a cortina para o lado. Era uma silhueta masculina de um garoto que aparentava ter a sua idade. Ele estava parado, imóvel, com o rosto parcialmente iluminado por uma luz azulada que vinha de uma tela de televisão.
Seus olhos fitavam diretamente o quarto de Isabella, sem piscar.
Ela travou, não sabia o que fazer. O olhar dele lhe deu medo e aflição ao mesmo tempo e imediatamente algo dentro dela começou a gritar, alertando que ele era problema.
- Bella, o jantar está pronto.
Noah entrou de repente assustando Isabella que deu um grito fino que incomodou o irmão.
- Quer me matar de susto, Noah? Como você entra assim?
- Desculpa, a minha intenção não foi te assustar e fazer você dar esse grito que quase me deixou surdo.
Ela revirou os olhos e olhou novamente pela janela, porém para o seu alívio o seu vizinho estranho e misterioso já não estava mais na janela dele.
- Que coisa mais estranha.
Isabella comentou baixinho antes de fechar a janela e descer com o irmão. Novamente ela teve a sensação de que as coisas ali não iam bem.