1

1705 Words
DAPHNE BRANDÃO Há duas semanas atrás eu soube que a minha irmã mais velha morreu. Ela não era a pessoa mais próxima a mim, pois ela era alguns anos mais velha que eu e já vivia muito longe de mim, mas quando perdemos nossa mãe tudo mudou. Nossa mãe era a última pessoa que tínhamos de parente, além de uma a outra é claro, e quando eu digo última é porque a gente só tem agora uma tia que mora em outro estado e não temos contato nenhum com ela. Então eu e Petra nos reaproximamos. Eu conheci a minha sobrinha e seu marido e me dava muito bem com eles. Nos víamos 1 vez por ano, quando eu saía de férias da faculdade, a qual ela me ajudou muito também. Mesmo assim não posso dizer que éramos grudadas, pois não conversávamos como converso com minhas amigas, mas a gente se amava e ambas sabíamos disso. Sabíamos que tínhamos uma a outra para qualquer coisa, independente da distância. Eu fiquei muito triste, sofri muito nesse últimos dias. Era a última semana de aulas do semestre e eu m*l consegui me concentrar nas provas, mas passei em tudo para poder fazer o que era preciso. A única coisa que poderia fazer pela minha irmã e meu cunhado: cuidar da Antonella, minha sobrinha de 5 anos. Por isso que viajei até uma cidade, que eu nunca visitei, chamada Belo Monte, para encontrar a minha sobrinha, que segundo a justiça ficará com o seu tio, Arthur Molina. O único irmão de meu cunhado. Eu sei que a justiça fez isso porque eu não tenho condições financeiras de ficar com a minha sobrinha. Eu vivo do dinheiro da faculdade e de trabalhos que faço para os outros na própria faculdade, mas o meu namorado, Murilo, me assegurou que tenho chances de ficar com a guarda da Tontom se nós tivermos uma casa e uma renda. Ele acha que é uma boa ideia a gente casar e eu ir morar com ele. Ele é policial e ganha bem. Não nos casamos antes porque eu ainda estudo e achamos melhor ir devagar, mas agora temos um motivo, um bom motivo para agilizar isso e se o Murilo fizesse algo assim pela minha sobrinha seria a maior prova de amor que ele poderia me dar. Mas enquanto isso, que leva um tempo, para garantir a segurança da minha sobrinha eu vou ficar com ela na casa desse tio o qual eu nunca vi na vida. Eu não posso deixar a minha sobrinha nas mãos desse cara! Me lembro bem o que meu cunhado dizia sobre ele: "Arthur é um Gangster. Ele não faz nada certo e agora que ficou com as terras dos nossos pais não durará muito, ele acabará com tudo. Ele é um caos. Só se mete em problemas". Eu, em pleno juízo, vou deixar a minha sobrinha nas mãos de um Gangster? Óbvio que não. Faço o que for preciso para vê-la bem. A minha sobrinha já está sofrendo o bastante com a perda dos pais. Ela só tem 5 anos. Fico me perguntando quem cuidou dela nesses últimos dias. Meu coração dói só de pensar. Fui de busão. 3 dias de viajem. Eita lugar longe da poxa. Dormi o que pude. Tinha dois moleques pequenos no ônibus que choravam que só, também tinha duas pessoas que de 4 em 4 horas vomitavam. Eu tenho que me lembrar de trazer um pregador de roupa na volta, para colocar no meu nariz e me poupar dessas coisas. Enfim, chegamos. Eu estava tão ansiosa que fui a primeira a descer do busão e também fui a distraída que meteu os tênis brancos dentro de uma poça de lama. Eu estava olhando a cidade. A poça estava bem onde o busão parou. Eu comprei esse tênis na C&A e usei umas 3 vezes. Agora ele está marrom e minha calça está toda respingada de lama. Quando saltei de dentro da poça, o motorista viu e colocou o carro mais para frente, para que os próximos não se sujasse igual a mim. Também tenho que me lembrar de não ser a primeira na próxima vez. Peguei minhas malas e as arrastei pela rodoviária. Uma de cada lado. Estava procurando um táxi, mas como em toda cidade do interior, o táxi não tem a placa. É qualquer carro de uma pessoa que resolveu pegar uma grana de taxista. Eu não sabia quem era parente esperando alguém e quem era taxista. Eu não tenho o contato do gangster, então estou chegando de surpresa e terei que me virar sozinha para chegar na fazenda dele. Saí perguntando a um monte de gente, até que parou um carro na minha frente. - Está indo para o onde, moça? Eu me curvei para ver seu rosto. - Tô indo pra fazenda Molina. O senhor conhece? É taxista? - Conheço. Sou taxista sim. - ele saiu do carro. - Quanto fica a viagem até lá? É longe? Ele abriu o porta-malas. - É um pouco distante. 30 paga. - ele pegou as minhas malas e levou para dentro. Eu vou falir antes de chegar lá. 30 paus! - Tá bom. - aceitei ao ver que não tinha outra alternativa. Depois que ele colocou as malas no fundo do carro, eu entrei no automóvel e ele também e pegamos a estrada rumo a fazenda Molina. Logo mais a frente, ainda na cidade, vi uma placa enorme com uma propaganda do gado da fazenda Molina. Ele estava meio desgastado. Como se estivesse há muito tempo ali. Mesmo assim, não tinha como não perceber o modelo lindo e gostoso que colocaram como garoto propaganda da fazenda. Nossa, que homem lindo! Meu namorado que me perdoe, mas não é crime nem traição admirar homens bonitos, ainda mais modelos. Meu namorado é lindo, mas esse homem ali da propaganda deve ter passado umas 5 vezes pela fila da beleza e ainda foi derramada essa benção pelo balde maior. Por isso tem tanto homem feio no mundo, porque maior parte da beleza foi pra ele. Bem esperto esse irmão do meu cunhado. Colocou um cara bonito pra chamar atenção, porque quando eu imagino o Arthur Molina já me vem um homem fumante, barrigudo, com manchas de sol no rosto, barba bem feia mesmo, vestido com roupas que dividem a barriga em duas ou que deixa o pé da barriga caído, alguns dentes em falta ou com dente de ouro no lugar, muito m*l educado e nojento. Eu não pesquisei sobre ele antes de vir pra cá. Acho que a referência de seu irmão já valia mais que tudo, já que ele era o irmão e irmãos são irmãos né, não existe parente mais sincero. Aposto que quando a Antonella o ver vai chorar de medo. Tadinha. Será que ela já está na fazenda? Nós pegamos uma estrada de terra péssima. Nossa. Eu tinha que me segurar na porta do carro para não cair encima do motorista. - A senhora é de fora, não é? - Sou sim. - O que veio fazer na terra da fortuna? - Vim ficar com a minha sobrinha. Ela é uma Molina. - Humm... interessante. Você não sabe nada da cidade, não é? - Não. - É uma boa cidade. - ele falava de um jeito amigável. - Sim. Parece bem pacata. - As pessoas estão nas fazendas. - Ah... - balancei a cabeça. - Não tem muitos táxis também não, né? Foi muito difícil conseguir. - Não. As autoridades pediram para as pessoas não andarem de táxi. - Por que não? - juntei as sobrancelhas. -Porque tem um homem perigoso que tá se passando por taxista. Creindeuspai! - Perigoso? Como assim? - fiquei apreensiva. - Ladrão. Parece que também gosta de... você sabe. Misericórdia. Eu fiquei até com dor de barriga. - E por que o senhor continua dirigindo se não tem ninguém pegando táxi por causa dessa ordem? Eu deveria ter visto as notícias da cidade antes de vir! - Porque eu preciso trabalha e tem gente desavisada que vem de outras cidades... - ele deu um sorriso olhando a estrada. Agora estou com mais medo. Se ninguém pega táxi, se ordem é essa, então não tem taxista. Se tem um cara se passando de taxista... Ai meu pai... Pode ser ele! Eu tô no carro do cara perigoso! E agora? O que eu vou fazer? - Já está chegando? - minha voz estava trêmula. - Ainda não. Falta um bocado. Mas se você quiser parar... - É que eu tô com dor de barriga. Comi uma feijoada num restaurante de beira de pista que não me caiu bem. Tem como o senhor parar antes que eu me cague? Eu estava mentindo sobre me cagar, mas o frio na barriga eu tinha. De medo. De muito medo. - Vou parar ali na mata. - ele falou com um sorriso olhando pra frente. Daphne, já sabe o que fazer. Fuja. Fuja! Quando chegou perto da mata, que estava logo ali na frente, ele parou. Eu saí do carro com aquele sorriso amigável, de quem não demonstrava que tentaria nada. - Volto em no máximo 5 minutos. - fechei a porta e quando cheguei no fundo abri o porta-malas sem pensar duas vezes. Peguei a mala mais leve e segurei em sua alça. - Aonde você pensa que vai?! - ele saiu do carro e eu esperei. Quando ele apareceu e abaixou o capô do porta-malas, eu levantei a mala e arremessei na cabeça dele. Ele cambaleou para trás e caiu encima de umas pedras na beira da estrada. Desmaiou. Não olhei muito pra ele, peguei a outra mala e subi pela mata. Eu não sei dirigir, então não adianta roubar o carro. Entrei mata a dentro que seria mais difícil me encontrar e corri o quanto pude com as duas malas. Eu ficava olhando para trás para ver se ele estava me seguindo. Eu não serei roubada, muito menos sofrerei coisa pior. Vou andar até achar essa fazenda ou qualquer outra com alguém para me ajudar. E agora a minha calça e o tênis estavam sujos de lama e cheios de carrapicho. É meu dia de sorte. Só pode.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD