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2003 Words
ARTHUR MOLINA "Parabéns, Arthur Molina, o Sr. É o vencedor do prêmio fazenda sustentável de 2021/2022 da cidade de Belo Monte. Venha receber as honras no dia 19 de Junho de 2022, no evento beneficente, onde a entrada é um 1kg de alimento por pessoa. Esperamos você e a sua família neste lindo evento. Desde já agradecemos a sua contribuição ao meio ambiente". Atenciosamente: Equipe do evento. Havia 3 cartões para os assentos do convidado e família. Encarei esse convite como mais uma vitória. Quem me viu há 20 anos atrás não diria que chegaria aonde cheguei e administrando tudo com meus punhos e os ótimos peões e outros empregados que tenho. Com uma fazenda tão grande como a minha, aliás, a maior de todas da região, não tem como chegar ao sucesso e dizer que conseguiu tudo sozinho, mas sem dúvidas eu sou um ótimo fazendeiro. Posso não cuidar do meu gado sozinho, mas cuido de um monte de funcionários que sem a minha orientação não realizariam tudo que é preciso para chegar ao sucesso da minha fazenda. A fazenda Molina. Adoraria esfregar isso na cara do meu irmão Roger. Ele achou que além de ganhar a mulher, também ganharia o mundo sozinho e eu fiquei para trás com tudo o que ele não queria. Levou sua parte da herança, mas o filho até hoje não foi pródigo. Otário. Quem tá na merda agora? Não sou eu. Ele disse que eu acabaria com tudo que a família construiu por, na época, eu ser um pouco diferente de hoje. Vamos dizer que eu era bem radical e não me importava tanto com certas coisas. Vivia viajando e curtindo, mas agora eu tenho outros objetivos. Eu fiz diferente do que ele esperava. Já recebi tantos prêmios e a cada premiação é uma festa. O meu braço direito, César Ávila, acabou de entrar na minha sala de estar. - Bom dia. - Bom dia. César, olha o que eu recebi. - estiquei o meu braço com o convite e ele pegou. - Grande prêmio. Vamos fazer uma festa. Escolher um boi pro abate. Você acha que 1 boi dá? Talvez 2, os peões daqui comem muito. Ou 3. A festa pode durar mais de um dia ou duas refeições. - eu fiquei fazendo os cálculos na cabeça. - Meus parabéns.- ele devolveu o convite não muito animado. - Quem morreu pra tá com essa cara de enterro? - logo perguntei, visto que ele não parecia tão empolgado quanto eu nessa história de prêmio. Guardei o convite no embrulho. - O seu irmão e a sua cunhada. - O que?! - o encarei novamente. - Você perguntou quem morreu. O seu irmão e a sua cunhada morreram. Meu coração disparou. - Você tá falando sério? - Quando eu não falo sério, Arthur? - ele questionou. Foi um choque para mim. Um grande choque. - Nossa. Eu não esperava ouvir isso hoje. Que péssima notícia. Mortos. Eles estão mortos. Não estão mais aqui. Eu nunca mais os verei. Acabou pra eles. Não existem mais. - Na verdade, eles não morreram hoje. Hoje faz uma semana. - O que? - levantei do sofá mais assustado ainda. - Uma semana que o meu irmão morreu e vocês me avisaram hoje? O que aconteceu? Só encontraram os corpos hoje? Eu estava até tremendo com essa notícia. - Não. Nós soubemos há uma semana atrás. - E por que eu não soube? - coloquei as mãos no quadril furioso. Ele apontou para o quadro na parede. - As regras. Quando tomou posse da fazenda você deixou bem claro que seu irmão não poderia entrar aqui nunca mais e que se ele morresse só era pra te contar 1 semana depois. Caso contrário você demitiria quem contou. Está pendurada na parede. - Regras estúpidas. Eu não imaginei que ele morreria mesmo! E foi de quê? - Acidente de carro. Ninguém sabe ao certo, mas parece que eles estavam em alta velocidade e saíram da pista. - Caramba. - fiquei perplexo. - Eles? Os dois? - Sim. Os dois. A Petra morreu. A única mulher que amei na vida agora está morta. "- Arthur, eu não posso ficar mais com você". "- É com o meu irmão que você quer ficar? É isso, Petra? Você está me trocando pelo meu irmão?". "- Eu... Arthur... Eu não sei como aconteceu. Talvez tenha sido o destino. Ele queria assim". Destino... O Roger vivia debaixo das asas de nossos pais, como filho cuidadoso que dizia ser. E quando eu apareci com a Petra, ele logo colocou os olhos nela e jogou a lábia de bom moço. Depois veio com essa história de que ficou muito tempo cuidando dos nossos pais enquanto eu curtia a vida e agora que eles estavam mortos não iria ficar mais aqui e iria viver o que ainda não tinha vivido. Com quem? Com a minha namorada. A Petra me trocou pelo meu irmão. Eu nunca vou esquecer isso. Nunca. Agora eles estão mortos e no fim ninguém ficou feliz. - Arthur, eles tinham uma criança. - César ainda contou. - Uma criança? Um fruto do amor deles? - ri infeliz. Até filho eles tiveram. - E a justiça decidiu que ficará com você. - Oi? - sentei no sofá após perder a força das minhas pernas. - A família materna não tem condições financeiras. A justiça decidiu que o lado paterno está mais apto a cuidar dela. - Eu? Cuidar do filho do meu irmão com a minha ex, César? Olha bem pra mim! Quem disse pra justiça que eu existia? - Todo mundo sabe quem é a sua família, Arthur, e não é filho, é uma filha. Eu dei uma gargalhada. - Uma filha... uma filha! Ah, meu Deus. Só pode ser pegadinha. Você sabe das regras? - apontei para o quadro. - Ou preciso clarear a sua mente? Mulher nenhuma entra na minha casa. Nem mulher, nem projeto de mulher. - levantei do sofá furioso. - A justiça não se importa com isso, Arthur. - Mas eu me importo! A filha de traidores e ainda mulher? Tá de palhaçada comigo! Só pode ser uma grande pegadinha! O que mais você tem pra contar e destruir mais ainda o meu dia? - andei de um lado para o outro. - Vai dizer que o nome dela é Arthura em minha homenagem? Ele ficou sério, mas depois deu uma risadinha. Só rindo mesmo de uma desgraça dessas. - Desculpa. - Sério. Parece que estão fazendo isso pra terminar de me matar! Como pode, César? Filho deles pra eu cuidar? Depois de tudo? - Olha, se te consola, logo em breve o outro lado da família deve fazer alguma coisa pra ter a menina. Eles procuraram a justiça para saber sobre ela. Parece que eles querem a criança. Você só precisa cuidar dela até que ela seja tirada daqui. - Quem vai cuidar dessa menina? Eu não vou. Eu vou deixar ela largada aí. Me diz que ela come sozinha, se veste sozinha... quantos anos tem? Será que deu tempo de ter uma adolescente? Só se passaram... Comecei a fazer as contas. - 5 anos. - ele respondeu. - 5 anos? Eles fizeram uma filha logo que ficaram juntos! Eu passei 2 anos com Petra e ela nem se quer falava sobre construir uma família! - Eu preciso sair. Tomar um ar depois dessa conversa toda. Vamos caçar? - Pode ser. Eu tô com tempo livre. - ele deu de ombros. - Vamos então. - saí pela sala. Sempre que eu preciso pensar em algo importante, sempre que tem alguma coisa me incomodando, quando estou tenso, com raiva ou até mesmo feliz eu saio pra caçar. É um hobby. Mato coelhos e pássaros como as rolinhas, que depois o cozinheiro faz pra gente comer. No momento eu preciso disso. É muita informação nova pra digerir. Pegamos as espingardas no quartinho de ferramentas. Colocamos o chumbo e as balinhas, vesti uma roupa própria para isso e saímos. Eu, César e mais um dos meus caçadores. Nos fundos da minha fazenda tem uma floresta. Eu gosto de caçar nela. Mas só eu e quem eu autorizo. Nada de vizinhos ou outros caçadores de fora. Se entrar, cai na bala. Quando entramos na mata, cada um foi para um canto. O complicado de caçar é que depois de um tiro temos que esperar um tempo para que os pássaros se acalmem novamente. Então nos separamos para um não atrapalhar a caça do outro. Eu andava com a espingarda pronta e apontada para cima, para as árvores. O silêncio era grande na mata. Ainda era dia e a luz entrava pelos espaços entre as árvores ou passava atravéz das folhas, então a luz era agradável aos olhos, principalmente para quem estava olhando pra cima. Ouvi um barulho de folhas amassadas e abaixei a espingarda imediatamente. Tinha alguma coisa no solo e eu sabia que não era César ou o caçador. Eles estavam bem longe de onde eu estava. Só poderia ser animal grande ou alguém que entrou na minha mata pra caçar também. Nenhuma das duas alternativas era boa para mim. Tanto faz, quando eu encontrar vou atirar. Andei devagar, tomando cuidado para não fazer muito barulho, então olhei para todos os lados procurando o que quer que esteja nas minhas terras. Vi uma coisa se mexendo atrás de um arbusto. Não demorei, atirei. - p**a merda! p**a merda! Sangue. - ouvi uma voz feminina e logo depois o barulho de muitas folhas amassadas. Então eu corri até lá para ver. O que é isso? Meu coração disparou de um jeito que eu nunca mais tinha sentido. Minha respiração ficou curta e rápida. Eu estava vendo quase que uma cópia da Petra ali no chão. Uma versão com muitas diferenças mas ainda sim, se parecia muito com a Petra. O que é isso? Só pode ser coisa do inimigo me perseguindo. Como pode? E estava inconsciente, com o tiro na perna e um pouco de sangue. Tinha uma mala caída atrás dela e mais outra lá atrás. Quem é essa mulher? - Arthur? Conseguiu alguma coisa? - César veio correndo na minha direção. Eu não sei o que fazer. - O que é isso? - ele parou do meu lado. - É uma mulher. - Eu sei que é uma mulher. Mas o que aconteceu com ela? Por que ela está caída? - Acho que eu a matei. - fiquei preocupado. Ele mexeu na garota com o pé. - Eu só tô vendo um tiro na perna e sangra pouco. Só se matou de susto. - O que vamos fazer com essa coisa? - cocei a cabeça agoniado. - Precisamos cuidar dela, ué! Ela tá machucada. Daqui a pouco a noite cai e pode aparecer outros bichos. - ele colocou a espingarda dele nas costas e mexeu nela. Me chamou de bicho então. - Eu não vou levar pra minha casa. Jogue em outra fazenda, sei lá. - Você tá se ouvindo, Arthur? - ele me encarou como se eu fosse um louco. - Eu não vou levar uma mulher pra minha casa! - Você vai deixá-la morrer? - Eu não ligo. Nem sei quem ela é. - dei de ombros. - Até você chegar eu achei que era uma miragem. Ele a pegou nos braços. - Eu não vou deixa-la aqui. - E você vai levar pra onde, Superman? - me apoiei na árvore curioso. - Aquela casa é aqui perto. - A antiga casa? - fiz careta. - Isso. Coloca na sua cabeça, Arthur, se ela morrer nas suas terras e alguém encontra significa que você será preso pro resto da vida. - Eu acuso um dos vizinhos. - Sem provas? - ele indagou. Ninguém merece isso. Eu não vou perder nada. Eu revirei os olhos. - Vai. Leva pra casa da mata. Eu não quero mesmo coisa morta apodrecendo a floresta. Quem é essa mulher e o que ela faz na minha floresta?
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