TENTANDO CALAR OS CÉUS

1676 Words
Um outro grito dos céus soou e fez com que a Vânia saísse do quarto a correr em direção do quarto dos pais e sem pensar duas vezes se jogou na cama deles. – Olha, precisamos fazer algo diferente. – disse Belfácia ao ver a filha se encolhendo na cama com o seu medo sendo palpável. – E não o que você decidiu sozinho fazer. – disse na ausência de uma resposta do marido – Calma filha nós estamos aqui, vai ficar tudo bem. Ezildo em silêncio saiu do quarto assim deixando as duas sozinhas. Ele não era um homem de muitas palavras e quando zangasse ficava na sua, com o silêncio sendo o ingrediente principal e desde mais novo ele quando zangasse recorria ao álcool e cigarro para matar a sua zanga. Agora estava do mesmo estado, pois não gostava de ser contrariado pela sua própria esposa, mesmo que fosse uma situação que ele visse que a razão morava na sua companheira. Foi sempre um homem que gostou de consultar assuntos da sua vida nos curandeiros e feiticeiros e fizera vários pactos que acabou os abandonando por conta das consequências dos mesmos quando conheceu a religião da sua amada, no entanto tempo depois acabou voltando para o mesmo mundo e assim abandonando a igreja no desconhecimento da sua esposa, então ele fazendo isso as escondidas. Era praticamente um vício que havia se instalado nele, sendo um vício bem forte, não conseguia mais sair dela para uma boa vida que a sua esposa lhe mostrara desde o início do relacionamento dos dois. – Estou com medo mãe. Será que um dia vou deixar de sentir este medo? – disse Vânia a mãe, ainda na cama coberta pela pesada manta. Belfácia, deu escassos passos e sentou na cama ao lado da sua filha mostrando-se aberta para uma conversa bem profunda, coisa que Vânia precisava constantemente para pelo menos se acalmar e deixar a ideia de a morte estar prestes e vindo dos céus juntamente com o seu rugido bem forte. – Filha, estou aqui. – Belfácia, simplesmente disse tentando descobrir a sua filha. – Eu sei mãe, mas não consigo parar o medo que sinto. – Eu sei, não tente o parar, apenas não pense em nada. Respire fundo e escuta a minha voz, eu estou sempre aqui contigo, mas tens que saber que não estarei pela eternidade contigo, apenas me ajude a te ajudar. Amanhã depois das aulas podemos ir ter com a psicóloga Nelma novamente para nos ajudar, que tal? O que achas? – Tens razão, mãe. – ela disse saindo da manta, porém ainda apresentando uma cara assustada. – Acho uma boa ideia. – Que bom! Agora vamos, dormir. – Aqui? – Claro que não, vamos ao seu quarto. – E pai, não vai zangar contigo? – Não te preocupes, vou cuidar dele. No bairro, Vânia era conhecida como a menina medrosa quando mais nova, mas as coisas foram mudando quando ela foi crescendo ficando pouco tempo pela vizinhança por ter conquistado novas amizades, novos lugares e uma vida diferente. Na verdade ela cresceu mimada e a sua fobia era vista como algo mesquinho, mas ficou algo preocupante quando chegou a vez de perder noites em todas as vezes que trovejou. As vezes só de ver as nuvens ficando negras anunciando a vinda da chuva, isso já era suficiente para lhe colocar em uma grande alerta e o pavor começar a invadir o seu corpo assim ficando trêmulo e para piorar deste modo germinando na sua mente a ideia de morrer vítima de um raio vindo dos céus. As duas foram dormir. Ezildo na sala de estar com o seu copo de uísque nas mãos e a sua mente voltando para o passando onde vira todas piores formas de morrer e assim deixando uma questão maldita ecoar na sua mente: como é que saí de lá com vida? Ele teve o pior trabalho que um ser humano pode ter na vida que consistia em matar o outro para poder viver a sua própria vida, e assim matar passou a ser uma coisa extremamente normal para ele e a compaixão acabou por abandonar o seu interior e assim passando a ser um humano frio. Não somente voltou do seu trabalho com uma mente inconstante, mas também muitos colegas do mesmo que até tiveram sequelas piores que mesmo com a terapia é muito difícil superar por completo e o ritmo para a superação é mais lenta que o passo do camaleão, este que chega a ser muito rápido como a velocidade da luz comparado com a miséria que as guerras provocaram na mente dos soldados. O homem reformado ingeria o líquido e as vezes tentava ignorar os seus pensamentos que sempre o mandavam para o passado enquanto ele queria resolver outros assuntos do seu presente. Por fim, já um pouco alterado por conta do líquido ele voltou ao quarto e mesmo percebendo a ausência da sua esposa na cama, não tardou para que ele dormisse ao som da trovoada e a chuva intensa que estava furiosa depois de vários meses sem cair por culpa de alguns indivíduos que praticavam a magia n***a pelo distrito assim, prejudicando aos outros, na verdade a maioria. A chuva e os seus gritos passou e agora era madrugada. Vânia já havia caído no sono profundo e respirava profundamente, mas Belfácia acabava de acordar para abandonar a filha e voltar ao quarto dela e do marido. A adolescente ficou descansando sozinha. A chuva havia cessado e tudo estava num total silêncio. De repente o alarme tocou ao lado da cama na mesinha, marcava 04:30, hora de acordar e se preparar para ir a escola para mais uma lição. Os seus pais ainda não haviam acordado e nem o seu irmão, no entanto a empregada havia acordado antes de todos para preparar a filha dos patrões, menos o Grizy que perdera o ano por conta de ter se envolvido numa situação que lhe fez ficar preso por alguns dias antes de ser tirado pelo pai que teve que pagar para a sua soltura. Era recorrente coisa do gênero acontecer, passando a ser algo considerado normal por todos os moradores daquele bairro. Vânia se levantou, cuidou do seu quarto, pois não gostava que a senhora Carlota fizesse isso por ela, assim colocando tudo no devido lugar e depois foi ao banheiro tomar banho, vestir e ir a mesa onde tudo já estava pronto para ser enviado ao estômago. – Bom dia, Vânia! Como é que está? – com um enorme sorriso no rosto Carlota disse logo que viu a Vânia na mesa prestes a ter o seu pequeno almoço antes de ir a escola. Carlota era sempre assim, uma pessoa com sorriso bem perto e com um coração tão meigo como de uma criança antes de ser contaminada pelas pessoas já toxicas e cruéis do mundo. Sabia como lidar com todos que se dirigiam a ela e sem a ausência do seu sorriso que escondia um grande problema que ela tinha. Ela sabia, com muitas dificuldades, lidar com todas as situações adversas da vida e sempre com um sorriso na montra do seu rosto. – Estou muito bem. – com entusiasmo Vânia respondeu também com um sorriso na boca como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Carlota sabia sobre a fobia da filha do seu patrão e com isso imaginava que a noite não fora tão agradável assim como as feições da Vânia. – Isso é muito bom. – ela disse indo com uma tigela para deixar na mesa. – Vejo que hoje acordou muito cedo. Algo de especial que te aguarda na escola? Bem, era bem estranho quando Vânia acordava muito cedo para ir para escola e sempre que isso acontecia significava que ela ia fazer uma coisa muito importante nas primeiras horas como fazer prova e apresentação da sua turma na concentração onde cada turma entretinha as restantes turmas lhes brindando com dança, canto, poesia ou teatro. A Escola Secundária de Khedie era uma escola de qualidade, uma das melhores a nível da cidade com o mesmo nome que era a capital da província de Zrogan. – Hoje é a minha turma que vai apresentar. – ela disse cortando uma fatia de bolo para o seu prato. – vem, senta comigo para comer. – Eu já imaginava. – Carlota deu uma pausa na sua fala e depois disse. – Não posso, você sabe que o senhor Ezildo não gosta que eu faça isso. – Senta vai! – pediu a adolescente. – Sou eu que estou pedindo e não o senhor Ezildo. Ainda parada ela olhou para a Vânia com o medo presente nas suas feições. – Não tenha medo, tia, senta comigo. Você sabe que lhe considero uma segunda mãe, por favor senta. – a adolescente implora a Carlota. Carlota trabalhara em várias casas como uma empregada, mas nunca se apegara tanto a uma criança como havia se apegado a Vânia que a considerava a sua própria filha que infelizmente a perdera para um acidente de aviação que nunca mais conseguiu superar. Trabalhara por muitos anos com a mesma profissão e tinha sempre sorte de ser bem remunerado por conta do seu trabalho de qualidade que arrancava vários comentários positivos pelos lugares por onde passou trabalhando com toda fibra. Começou a trabalhar na família Kingson quando Vânia só tinha 4 anos de idade. Cuidara e cuidou da menina com todo carinho assim passando a exercer o papel de mãe por conta da constante ausência da Belfácia que viajava em muitos convites de sucesso depois do lançamento da sua grande obra intitulada “As remadas da safada”. – Está bem, mas isso não vale. – ela disse brincando e sentando virada para frente da estudante. – Deixe disso. – Vany, – era assim que a Carlota chamava a Vânia – havia me esquecido, mas veio aquele menino ontem e queria muito conversar contigo. – Quem? O Edson? – Sim ele. – Carlota respondeu. Os olhos da Vânia ficaram arregalados. Continua...
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