Esta vai limpa. As virgens da nobreza valem o triplo no Império de Obsidian.
A opulência do Reino de Valoria não era feita de pedras polidas ou ouro reluzente, mas de carne, veludo e do excesso indolente que precedia a ruína. Antes que os tambores de guerra dos reinos vizinhos retumbassem pelas montanhas, Valoria era um ninho de vícios dourados. E no centro desse palácio de luxúria reprimida e banquetes intermináveis, Alonda crescia como um segredo perigoso que seus pais tentavam desesperadamente esconder.
Aos dezoito anos, Alonda não possuía a futilidade das damas de honra que preenchiam os salões. Sua beleza era algo bruto, quase profano em sua perfeição. Os cabelos castanho-mel caíam em ondas espessas até a curva das ancas, e a pele, intocada por qualquer homem, parecia emitir um calor doce e embriagador. Havia algo no ar ao seu redor — uma fragrância natural de flores esmagadas e sangue quente — que fazia os guardas da guarda real tropeçarem nas próprias lanças quando ela passava pelas galerias de mármore.
— Não olhe para eles, Alonda — murmurava sua irmã mais nova, Isolda, agarrando-se à sua manga com dedos trêmulos. Isolda, com seus olhos amendoados e natureza assustada, percebia antes de qualquer um a cobiça que cercava a irmã. — Os nobres olham para ti como se fosses o banquete principal, não a filha do rei.
— Deixe que olhem, Isolda — respondera Alonda naquela tarde quentíssima de verão, encostada ao parapeito da varanda real, observando os jardins de rosas brancas. O sol poente banhava o seu vestido de seda fina, tornando o tecido quase transparente contra as suas curvas recém-formadas. — O olhar deles não pode me tocar. E o rei nosso pai já deixou claro: o meu corpo pertence apenas ao contrato de casamento que trouxer o maior exército para Valoria.
Essa era a realidade sem filtros da corte. Em Valoria, as mulheres da linhagem real eram criadas para duas coisas: enfeitar os salões e servir de moeda de troca na cama de reis e lordes estrangeiros. O Rei, pai de Alonda, era um homem severo e ganancioso, que vigiava a pureza da filha mais velha como um dragão guarda o seu tesouro mais valioso. Qualquer servo que ousasse erguer o olhar para o decote de Alonda por tempo demais terminava o dia nos calabouços, açoitado até que as costas ficassem em carne viva.
Alonda sabia disso. Ela conhecia a crueldade do mundo masculino, mas ainda não conhecia o peso de um toque indesejado. A sua castidade não era uma virtude virtuosa; era um troféu guardado a sete chaves, uma mercadoria intacta à espera do melhor comprador.
Naquela última noite, antes que o céu se tingisse de fogo, o castelo celebrava o festival do solstício. O vinho fervia nos cálices de prata, a música de harpas ecoava nos tetos altos e o calor humano nos salões tornava o ar denso e pesado. Alonda fora vestida com um traje de veludo carmesim, cortado fundo no peito, expondo o colarinho delicado e a pele alva dos ombros. Cada passo que dava no salão de baile causava um silêncio sutil. Os nobres mais velhos salivavam discretamente sobre os seus copos; os príncipes visitantes apertavam os punhos sob as mesas, travando os maxilares diante da visão da jovem valoriana.
Havia uma energia estranha naquela noite. Uma tensão palpável. Alonda sentia o seu próprio corpo queimar por dentro, uma inquietação inexplicável na espinha, como se o seu sangue soubesse o que estava por vir.
Ela retirou-se para os jardins privados, buscando o ar frio da noite para acalmar a pele quente. Isolda seguiu-a, como uma sombra leal.
— O teu rosto está corado, minha irmã — disse Isolda, sentando-se na borda da fonte de pedra. — Estás com febre?
— Não é febre — sussurrou Alonda, tocando o próprio pescoço, onde a pulsação batia forte e desordenada. Ao toque dos seus próprios dedos, um arreio elétrico percorreu-lhe a espinha. — Sentiste o ar lá dentro? Parece que os homens estão loucos hoje. O Conde de Oakhaven tentou segurar a minha mão na dança e os seus dedos tremiam tanto que ele quase derrubou a taça. Ele olhava para mim... como se quisesse rasgar o meu vestido ali mesmo.
— Eles são monstros, Alonda — disse Isolda, com a voz embargada pelo medo infantil. — Todos eles. Tenho medo do homem a quem o nosso pai te vai vender.
Alonda olhou para as próprias mãos, macias e perfeitas. Ela não tinha medo de ser vendida. Tinha um orgulho altivo, uma consciência sombria de que a sua beleza não era apenas um adorno, mas uma força corrosiva. Ela vira nobres poderosos gaguejarem diante dela; vira os seus próprios irmãos lutarem com espadas de treino até ao esgotamento apenas para impressioná-la na varanda. Ela sabia que possuía algo que enlouquecia os homens, embora ainda não compreendesse a verdadeira profundeza e a maldição dessa capacidade.
De repente, o vento soprou forte, trazendo consigo um cheiro estranho e acre. Não era o perfume das rosas nem o odor do vinho queimado. Era o cheiro de enxofre, piche e sangue fresco.
Um grito agudo cortou a música que vinha do salão principal. Um grito de mulher, estrangulado e brutal, seguido pelo som inconfundível de metal pesado a colidir contra metal.
— Alonda... — Isolda levantou-se num pulo, a face pálida como a lua. — O que foi isso?
Antes que Alonda pudesse responder, as grandes portas de carvalho dos jardins foram arrombadas. Guardas de Valoria correram para fora, mas não para as proteger. Estavam a fugir. Atrás deles, vultos gigantescos cobertos por armaduras negras e estandartes manchados de lama e sangue avançavam como uma praga. A aliança dos reinos inimigos rompera as muralhas sem qualquer aviso. A traição fora consumada por dentro.
— Pela rainha! Peguem as mulheres! Matem os homens! — bradou uma voz rouca e gutural no meio do caos.
O pânico instalou-se num piscar de olhos. Alonda agarrou a mão de Isolda com toda a força que tinha no corpo. O som da carnificina começou a ecoar por todo o palácio: o estalar de ossos a quebrarem, o som seco de lâminas a degolarem os nobres e os gritos das damas de honra a serem arrastadas pelos cabelos sobre o mármore sangrento.
Alonda viu o seu pai, o Rei, tentar erguer a sua espada cerimonial no meio do corredor. Um machado pesado cortou o ar e a cabeça do soberano rolou pelos degraus antes que ele pudesse pronunciar uma única ordem. Os seus irmãos, os jovens príncipes de Valoria, foram cercados e massacrados sem piedade, os seus corpos perfurados por dezenas de lanças até se tornarem uma massa disforme de carne e metal.
— Não! — gritou Isolda, mas Alonda tapou-lhe a boca com a mão, puxando-a para a sombra de uma coluna de pedra.
O suor frio escorria pelo peito de Alonda, misturando-se com o calor da seda vermelha. A sua vida de luxo, intocabilidade e privilégio ruiu em questão de minutos. O cheiro a sangue encharcava o ar que ela respirava. Ela viu os soldados inimigos rirem enquanto tiravam as jóias dos cadáveres e rasgavam as roupas das mulheres nobres que imploravam por misericórdia no chão do salão.
Um soldado enorme, com o rosto coberto de fuligem e os olhos injetados de sangue, virou a esquina da galeria e fixou os olhos em Alonda. Ele estancou os passos por um segundo, a sua respiração tornando-se pesada ao absorver a visão da jovem princesa de vestida de vermelho, com os cabelos soltos e o peito a arfar de terror.
— Olhem o que temos aqui... — rosnou o soldado, com um sorriso repugnante que revelava dentes podres. Ele soltou a espada manchada de sangue, deixando-a cair no chão, e avançou com as mãos abertas. — A joia de Valoria. Intacta. O capitão vai pagar uma fortuna por esta v***a no mercado de escravos... mas talvez eu possa provar um pouco antes.
O homem avançou como um animal faminto, tomado por um desejo súbito e descontrolado ao aproximar-se de Alonda. Ele não queria apenas prendê-la; a simples presença dela provocava-lhe uma fúria carnal imediata.
Alonda não recuou. O medo congelou-lhe os músculos, mas quando a mão bruta e imunda do soldado segurou o seu ombro, rasgando o tecido de seda e expondo a sua pele nua, algo profundo despertou dentro dela. Um impulso de sobrevivência e uma repulsa violenta.
Antes que o homem pudesse tocá-la no peito, um oficial inimigo de armadura pesada surgiu por trás e cravou uma adaga no pescoço do soldado rebelde. O sangue quente do homem espirrou diretamente no rosto e no colo de Alonda.
— i****a! — gritou o oficial, empurrando o cadáver para o lado. Ele olhou para Alonda, a sua expressão mudando instantaneamente de raiva para um fascínio perturbador ao encarar os olhos dela. Ele piscou, desorientado pelo efeito magnético que a jovem exercia, mas segurou a sua disciplina militar. — Esta vai limpa. As virgens da nobreza valem o triplo no Império de Obsidian. Acorrentem-na! Acorrentem a irmã dela também!
As correntes de ferro frio foram ajustadas firmemente em volta dos pulsos delicados de Alonda e Isolda. A pele macia de Alonda foi marcada pela primeira vez pela bruteza do metal.
Enquanto era arrastada para fora do palácio em chamas, pisando nos corpos decapitados dos seus familiares e ouvindo os lamentos das mulheres do seu povo, Alonda olhou para trás uma última vez. Valoria estava a queimar. A sua inocência, a sua posição e o seu futuro como nobre tinham sido destruídos pelas chamas.
Ela já não era uma princesa. Era uma escrava, acorrentada e destinada ao leilão do império mais c***l do continente. Mas, enquanto o ferro lhe queimava os pulsos, Alonda sentiu a única coisa que os invasores não tinham conseguido tirar-lhe: a estranha e perigosa obsessão que o seu corpo despertava nos homens. Uma arma que ela aprenderia a usar até que cada um dos seus captores estivesse sangrando aos seus pés.