Brandon
Essa mulher é estranha.
Chegou ontem na porta da minha casa e depois sumiu quando entrei para pegar uns lenços para ajudá-la. Ela também não desvia do meu olhar quando estamos tão perto um do outro... e Nicolas que até ontem à noite se mostrava avesso a qualquer contato humano que não o meu, ficou mais de cinco minutos segurando a mão dela.
Maddison. Uma moça muito peculiar e estranha e que roubou minha atenção.
— Vamos levar as formigas para casa, filho? — pergunto após ajudar Maddison a limpar o chão e colocar açúcar e formigas dentro de uma pequena caixa.
Nicolas faz que sim e segura bem firme em minha perna ao me ver pegar a caixa.
— Ela — ele aponta para Maddison.
— Você quer que a Maddison leve as formigas de volta para nosso jardim? — me agacho e fico bem perto do rosto dele.
— Maddison — ele diz.
— Estou feliz que agora ele fala até o meu nome! — Ela acena para Nicolas que a assiste, sem emitir emoção alguma, e assim que eu entrego a caixa nas mãos dela, ele sai na frente.
A cada passo ele se curva, examina o chão com a lupa e diz para as formigas:
— Casa! — e aponta para fora.
E assim, em marcha lenta e contando os passos, retornamos para a mansão. O que me dá mais tempo para conversar com a vizinha.
— Você está bem mesmo? Não se machucou sério ontem? — a pergunto.
— Ontem não. Mas hoje... — ela diz bem humorada e mostra o dedo que cortou, pelo visto, há pouco.
— Não deve ser tão grave — paramos e eu seguro em seu dedo. — Assim que chegarmos em minha casa eu higienizo e coloco um curativo.
— Não precisa se preocupar.
— É o mínimo que eu posso fazer.
Maddison e eu novamente não paramos de nos encarar. Ela parece querer dizer algo e eu estou bastante ansioso do que pode sair da mulher que enfeitiçou meu filho e até segurou na mão dele por mais de cinco minutos. Nem eu mesmo consigo tal proeza quando ele está acordado, dois minutos é o meu recorde.
— Casa! — Nicolas puxa minha calça e aponta ferozmente para onde deveríamos ir.
— Desculpa aí, campeão, paramos só por um segundo, já íamos te alcançar! — respondo de bom humor.
Nicolas vai na frente, a cada três passos ele olha para trás para garantir que o estamos seguindo.
— Se quer poderia imaginar que você teria um filho... — Maddie se diverte.
— E eu não poderia imaginar que teria uma vizinha tão encantadora — retruco. — Mas, por que a surpresa?
Ela fica ruborizada e abaixa o rosto.
— Você é tão... jovem, para ser pai...
— Ah, tem uma idade mínima agora? — devolvo, com bom humor.
— É, você está certo. Na vida é assim, as coisas acontecem e a gente precisa se virar. — Sorri.
— Você é das minhas — concordo com tudo o que ela diz.
— E como é ter um filho autista?
Em outra época eu pensaria por minutos para poder responder aquela pergunta. Mas a verdade era só uma:
— Incrível.
A reação de Maddison foi impagável. E diferente da de todas as outras pessoas que me ouviram dar essa resposta. Afinal de contas, não é todo dia que um promissor CEO que dirige a empresa bilionária da família decide largar absolutamente tudo para não perder um segundo sequer do filho, dos primeiros passos e primeiras palavras, até vê-lo segurar a mão de uma completa estranha em tempo recorde.
— Que lindo! Você é uma caixinha de surpresas, Brandon.
— Eu sou? — Tive de rir. — Devo ser, sim... mas é realmente incrível. A mãe do Nicolas morreu no parto e eu sou tudo o que ele tem. Então decidi que ele também seria tudo o que eu tenho. E assim vivemos bem, os dois juntos.
A reação de Maddie me surpreendeu de fato. Ouvi sermões, cansei de ser repreendido porque estava “jogando fora minha vida e carreira. E a Forbes? E o meu nome nos 100 nomes mais influentes dos Estados Unidos da América? E o meu legado?”
Estava ali, ó, o meu legado. E depois de estar no topo, sentar com os grandes e conhecer as grandes maravilhas do mundo, posso dizer sem pestanejar: não há nada mais precioso do que aquele garotinho. Ele significa o mundo para mim.
— Casa — Nicolas nos vigia passar pela cerca e nos indica onde devemos deixar a caixa.
Maddison cuidadosamente a coloca no chão e o meu pequeno encara a vizinha com os olhos bem grandes e chamativos, não diz absolutamente nada, não sorri, não acena. Mas a olha sem piscar por cinco segundos inteiros, porque ela se tornou digna de sua atenção.
E devo confessar, se tornou digna da minha atenção também.
Então ele se senta e devolve as formigas para o lugar certo: o formigueiro. Ah, ele também tem um aquário realmente grande de formigas no quarto, na sala de brinquedos e biblioteca. Mas o jardim é a sua parte favorita. Ele não gosta muito de se sujar, detesta areia, lama, a grama ..., mas pelas formigas, esse herói faz qualquer coisa.
— Eu não vou tirar os olhos dele, vai lá cuidar da vizinha — Matt diz.
Até havia esquecido que ele estava ali. Viro-me em sua direção e com o dedo indicador e do meio abertos, aponto-os para os meus olhos e direciono-os para o meu filho.
— Não deixa ele sair daí — rosno.
— Confia em mim, irmão. Qual foi a última vez que falhei contigo?
— Você quer em ordem alfabética ou por ordem de ódio mesmo? — volto a rosnar.
Matheus não trancou a porta e por isso Nicolas saiu, não tem outra explicação. E ele ainda iria ouvir bastante por causa disso!
— Deixa eu ver esse dedo — seguro na mão de Maddie e a direciono para dentro de casa. — Não parece ter sido nada, mas vamos limpar isso.
(...)
Maddison
Entramos na mansão de Brandon e sinceramente? Nada desses móveis caros ou a arrumação impecável me interessou. Só ele com a mão forte segurando na minha e examinando o meu dedo com atenção.
Tê-lo assim, tão perto de mim, foi uma sensação acalentadora e me senti bem especial. Até parece que o muro de desconhecidos ou apenas vizinhos foi derrubado e agora podíamos até nos dar apelidos.
Levei um susto quando percebi que ele ia quase me pegando no colo e me sentando no balcão da cozinha. Me encolhi e me afastei, um tão surpresa.
— Força do hábito — ele balançou os ombros. — Nicolas se machuca bastante e toda vez que pego a mala de primeiros socorros, em seguida o pego no colo e o sento no balcão. Foi m*l.
— Ah, tudo bem — foi o que eu disse. Mas o que eu queria dizer mesmo era: pois o que está esperando para me pegar no colo e me sentar no...
Após higienizar e fazer o curativo em meu dedo, Brandon escorou os cotovelos no balcão e levantou os olhos penetrantes em direção aos meus.
— Vai me dizer o motivo de ter vindo aqui ontem?
— Hum... não sei... estou um tanto apreensiva e tensa a respeito disso. E ontem eu caí em cima do seu lixo e fiquei cheirando muito m*l — espremi os olhos e pedi a Deus que um buraco se abrisse no chão para eu entrar, de tanta vergonha.
Ao abrir os olhos, quase dei um salto para trás. Brandon estava novamente a poucos centímetros de mim. Seu nariz subiu do meu tronco até meus cabelos.
— Está cheirando muito bem agora — ele concluiu e sorriu. Aqueles malditos dentes brancos enfileirados, caninos afiados, um sorriso que certamente chamaria a atenção em capa de revista.
Aliás, Brandon me parecia muito familiar, mas eu não conseguia imaginar de onde eu o conhecia... ou se era só coisa da minha imaginação mesmo...
— Você também cheira bem — balancei a cabeça positivamente.
O cretino não apenas sorriu. Ele não apenas fez a cara de “eu sei que você me quer”. Ele veio para cima de mim e deixou o pescoço à minha mercê para que eu sentisse seu cheiro. Que maldito!
O que ele estava achando? Que eu era alguma garota barata? Que cairia nesses truquezinhos idiotas? Que eu não me daria ao respeito e iria cheirá-lo?
— Meu Deus, qual é esse perfume? — funguei bem forte no pescoço dele e ainda passei os dedos pela pele. Uma pele macia, quente, tão firme e...
— Não foge do assunto — ele virou o rosto de supetão, o que parecia ser um hábito que ele gostava.
Nossos narizes novamente se tocaram e trocamos um pouco do ar dos nossos pulmões. Agora acho que somos íntimos o suficiente para tomarmos um banho. Será que ele tira minha roupa ou eu mesma faço?
— Você vai me achar estúpida e vai ter medo de mim — comprimi o lábio.
Tive até a impressão de que ele fez um bico para deixar aquela boca carnuda um pouco mais próxima da minha.
É sério, esse homem está fazendo um jogo comigo...
— Eu gosto das malucas. Me conta.
Ah, ele gosta das malucas? Então ele vai me a-m-a-r!
— Quero te convidar para um casamento — fui curta e direta.
— Nossa, mas nem me pagou um drink primeiro — ele franziu a sobrancelha, mostrando-se espantado e ofendido.
— Não, é que eu preciso de você para... — já fui logo me explicando.
Brandon sorriu daquele jeito malandro e deu um passo em minha direção. Sem me tocar com as mãos, apenas guiando-me pelo corpo, ele me pressionou contra o balcão da cozinha e eu tive aquela sensação deliciosa... em que por um segundo você se esquece da língua e fica ofegante a ponto de só saber se comunicar através do toque, gemidos e se Deus quiser e o boy colaborar, uns espasmos.
— Você precisa de mim? — ele murmurou, praticamente em cima de mim.
— Preciso. Pro casamento. Mas não vai ser o nosso. Mas se você quiser eu quero — desatei a falar. Alguém por favor me pare.
Brandon riu e encostou o braço no balcão e continuou me olhando bem de perto.
— Me conte sobre esse casamento.
— Resumidamente, Brandon, é o seguinte... er... você pode se afastar só um pouquinho? Eu estou começando a suar...
— É, o dia hoje está mais quente que o comum.
— Sim... bem... Tem esse cara b****a e o nome dele é Paco.
— Paco.
Porra! Até dizendo o nome do meu ex (do canalha que fingia me namorar, na verdade) ele consegue ser mais sexy e me deixar molhada e ainda me dá a ilusão de que estou prestes a ter um o*****o. Eu nem me lembrava como era ter um, mas agora, eu lembro. Ô se eu lembro!
— Sim. Ele é um i*****l e brincou com os meus sentimentos. E ainda por cima me convidou para fazer o buffet da festa dele.
— O cara tem culhões — ele riu e ergueu uma sobrancelha.
— Tinha, porque eu vou lá cortar eu mesma, com os dentes se for preciso.
— Que carnívora você... — subiu a mão em meu pescoço e lentamente começou a pressionar o polegar em minha boca.
Ok, eu realmente preciso parar de falar. Estou desconcertada, o peito não para de subir e descer e o coração... bem, alguém traga logo os paramédicos, porque eu vou precisar de socorro. Esse homem é o d***o e ele sabe disso! E ele está brincando comigo!
— Se você quiser, porque eu quero, vou te levar para essa festa e estragar o momento mais importante da vida dele com essa mulher, que se chama Sabrina.
Brandon novamente levantou a sobrancelha, mas não parou de se divertir e seus dedos começaram a subir pelo meu rosto. Fechei os olhos e senti sua respiração se aproximando bem devagar.
— Continua... — ele pediu.
Como não obedecer a um homem desses murmurando tão perto da sua boca?
— Ela não tem culpa, só quero destruir o psicológico desse b****a e talvez arruinar esse casamento de m***a e destruir o meu nome no mundo dos poderosos e nunca mais fazer eventos nem mesmo para formandos.
Silêncio. Ele está aqui ainda, diante de mim, meus olhos estão fechados, mas sinto sua respiração, sua mão e algo bem grande firme lá embaixo roçando em mim.
— Você planejou tudo isso antes de saber que eu tinha filho, não é? — ele murmura, a voz bem séria.
— Sim... mas não mudei de ideia. Eu posso te pagar e prometo que você e seu filho ficarão em um bom hotel — eu já joguei todas as fichas logo de cara.
E agora era torcer para ele não me cobrar o valor da cara para entrar nessa loucura comigo. Se é que ele aceitaria uma doideira dessas.
— Não precisa me pagar, Maddie — sua voz voltou a preencher meus ouvidos e ecoar pelo meu corpo. Os pelos que eu não tinha se arrepiando só podia significar isso.
E o meu nome. O meu bendito nome saindo da boca dele, tão próxima da minha... esse cara pode me chamar de Maddie, Maddison, enfim, o que ele quiser. Eu estou muito na dele, não vou mentir.
— Você é muito estranha. E sua proposta é a coisa mais louca que eu ouvi, desde que eu mesmo disse que largaria tudo só para cuidar do meu filho...
— Acho que somos dois malucos — pensei alto.
— Eu tenho certeza disso — ele disse e senti seu lábio inferior subir do meu queixo até meus lábios.
Brandon segurou nas laterais do meu rosto e foi se afastando lentamente. Nada de respiração em meu rosto, nada do seu cheiro invadindo minhas narinas tão de perto, nada de sua voz murmurando para mim e em mim.
Abri os olhos, atônita e levei as mãos para trás para segurar no balcão enquanto o assistia, de braços cruzados diante de mim, sorrir maliciosamente.
— Eu topo.