Meu nome é Sofia Ricci. Tenho 20 anos e vivo em dois mundos que me salvam do terceiro, aquele que me destruiu: o passado. É difícil carregar o peso de ser uma Ricci, um sobrenome que outrora abria portas, mas hoje é uma maldição. Meu pai, Lorenzo Ricci, foi um homem brilhante, persuasivo... e c***l. Ele destruiu vidas com um golpe em uma multinacional, deixando um rastro de famílias despedaçadas. A nossa foi uma delas.
Minha mãe, Cláudia, não suportou a vergonha, as acusações e a quebra de confiança. Pediu o divórcio há cinco anos, e eu a admirei por isso. Lorenzo foi além: mergulhou nas profundezas do crime e, agora, é um homem procurado, uma sombra que prefiro manter distante. Sua ausência é um alívio, uma ferida que não quero reabrir.
Minha fuga está no balé e na faculdade de computação gráfica. No estúdio, encontro liberdade, uma versão de mim que é só arte e movimento. Na faculdade, construo um futuro que não depende do peso do meu nome.
— Sofia, você está me ouvindo? — a voz de Enrico me trouxe de volta à sala de estar. Ele estava ao meu lado, com uma taça de vinho equilibrada nos dedos.
Enrico é meu melhor amigo desde sempre, meu refúgio em meio ao caos. Quando todos me abandonaram, ele ficou. Mas, ultimamente, nossas conversas vêm se tornando um campo minado.
— Desculpa, o que disse? — perguntei, desviando os olhos.
— Você sabe o que eu quero, Sofia. — Seus olhos castanhos me encararam com uma intensidade que quase me fez desviar o olhar. — Não quero ser só seu amigo.
Meu coração apertou. Já tivemos essa conversa antes. Várias vezes.
— Enrico... — comecei, mas ele me interrompeu.
— Por que você nunca me dá uma chance? Estou aqui, sempre estive.
Suspirei. Ele era tudo para mim, mas não daquele jeito. Não podia ser.
— Porque não quero estragar o que temos. Você é meu amigo, Enrico. Meu único amigo verdadeiro.
— E se eu disser que já está estragado? — Sua voz estava carregada de dor. — Fingir que sou só seu amigo está me matando.
Olhei para ele, tentando encontrar palavras, mas nada parecia suficiente. Finalmente, murmurei:
— Acho melhor você ir embora.
— É assim? — ele se levantou, os olhos ardendo de mágoa. — Você prefere me afastar a enfrentar o que sente?
— Eu não posso... — As palavras morreram nos meus lábios. Ele balançou a cabeça, pegou suas coisas e saiu, batendo a porta.
O silêncio que ficou para trás era ensurdecedor. Meus olhos ardiam, mas eu não chorei. Não podia. A dor que sentia era familiar, como um velho amigo indesejado.
No dia seguinte, me afundei no balé. O estúdio era meu templo, o único lugar onde o mundo fazia sentido. Madame Bellucci estava particularmente rígida.
— Ricci! — Sua voz cortou o ar. — Mais concentração! Essa pirueta precisa ser impecável.
— Sim, Madame! — Respondi, com determinação.
Mas minha concentração vacilou. No canto do estúdio, Giulia Ferri, minha rival declarada, estava lá, ajustando sua sapatilha com aquele sorriso debochado que eu odiava.
— Sofia, querida, ainda sonhando em ser a estrela? — disse ela, sua voz pingando veneno. — Espero que sua performance seja melhor que o histórico do seu pai.
Minha respiração acelerou. Giulia sabia onde atingir.
— E você, Giulia? — murmurei, sem tirar os olhos do espelho. — Conseguiu pagar as contas com o último “investidor” que conquistou? Deve ser difícil vender a alma.
Seus olhos brilharam de raiva, mas ela manteve a compostura.
— Pelo menos eu não preciso esconder quem sou. Mas você... é só uma impostora fingindo pertencer a este mundo.
Madame Bellucci interrompeu nosso embate com um olhar mortal, nos mandando de volta ao trabalho. Mas as palavras de Giulia ficaram comigo.
Após o ensaio, sentei-me no canto do vestiário, exausta. Meu corpo doía, mas não tanto quanto meu coração. Por que parecia que, não importa o quanto eu lutasse, o passado sempre me puxava de volta?
Antes que pudesse me perder nos pensamentos, Giulia apareceu novamente.
— Por que você insiste? — perguntou, sem o tom usual de deboche.
Levantei o olhar, surpresa. — Porque o balé é tudo o que tenho.
Ela ficou em silêncio, algo em seu rosto que eu não conseguia decifrar. Então, simplesmente virou as costas e foi embora.
Mais tarde, no caminho para casa, meu telefone tocou. Era minha mãe.
— Sofia, como você está, querida?
— Cansada, mas bem.
— E o Enrico? Ele parecia preocupado ontem.
Suspirei. — Ele se foi, mãe. Tive que mandá-lo embora.
Houve uma pausa do outro lado da linha. — Sei que sua vida tem sido difícil, Sofia, mas não afaste as pessoas que te amam. Você merece ser feliz.
Depois que desliguei, as palavras dela ecoaram em minha mente. Será que eu realmente estava me sabotando?
Quando cheguei em casa, me joguei no sofá, exausta. Minha vida era uma constante batalha entre o passado que me assombrava, o presente que me desafiava e o futuro que eu lutava para conquistar.
Mas uma coisa era certa: eu não desistiria. Meu nome podia ser uma maldição, mas também era minha bandeira de resistência. E, por mais pesado que fosse, eu carregaria até transformá-lo em algo que fosse, finalmente, meu.
Era quase impossível não sentir o peso da solidão quando o silêncio de meu apartamento se instalava à noite. As paredes, que antes pareciam acolhedoras, agora só faziam ecoar as minhas inseguranças. Os pensamentos estavam à flor da pele, e cada lembrança do que eu poderia ter sido, mas nunca fui, parecia me sufocar. O balé e a faculdade eram minhas escapatórias, mas nem eles eram suficientes para me livrar da constante sensação de estar presa, tanto ao meu passado quanto ao meu futuro.
A manhã seguinte chegou, fria e sem promessas, como tantas outras. Me arrumei rapidamente, jogando um casaco por cima do uniforme de balé, o cabelo preso em um coque apertado. Ao sair de casa, o ar gelado cortava minha pele, mas não tinha importância. Nada parecia importar, exceto aquele espaço entre o que eu queria e o que eu era capaz de conquistar.
Entrei no estúdio já com a sensação de que aquele dia seria diferente. A atmosfera estava tensa, como se o próprio ar estivesse carregado de expectativas. A Madame Bellucci estava mais rígida do que nunca, o que, por um lado, me motivava a ser melhor, mas também me sufocava. Ela jamais demonstrava simpatia, sua exigência era incansável. Eu já estava acostumada à pressão, mas aquele dia ela estava em todos os detalhes.
— Sofia, o que é isso? — ela gritou, sua voz cortando o espaço. — Acha que vai conseguir ser perfeita assim?
Respirei fundo, tentando recuperar a compostura. Não podia falhar. Era a única coisa que eu sabia fazer com alguma certeza: dançar. O resto? Era um caos.
Continuei o exercício, mais focada do que nunca, mas meu corpo começava a pesar. A carga emocional estava se acumulando em minha mente e, aos poucos, em meus músculos. Estava cansada, cansada de ser forte, cansada de lutar todos os dias para escapar de algo que parecia me acompanhar a cada passo.
E então, ela apareceu de novo. Giulia Ferri. Seu olhar já dizia tudo antes mesmo de ela abrir a boca. Ela se aproximou de mim com a graça de uma predadora, seus movimentos sutis e provocantes, como se quisesse me desafiar.
— Acha que pode escapar do seu nome? — disse ela, com aquele sorriso arrogante.
Não podia mais suportar aquilo. Sabia que minha resposta seria arriscada, mas já não tinha mais forças para manter a calma.
— Não estou fugindo de nada, Giulia. — Olhei diretamente em seus olhos, sem hesitar. — Apenas aceito a realidade, e você deveria fazer o mesmo. Não somos tão diferentes assim.
Ela ficou em silêncio por um momento, como se estivesse digerindo minhas palavras, antes de dar de ombros, indiferente. Era sempre assim. Ela falava e se afastava, mas as palavras dela ainda ecoavam na minha mente.
O ensaio continuou, mas eu estava em outro lugar. O movimento do meu corpo parecia não ter mais ritmo, como se as palavras de Giulia tivessem lançado uma sombra sobre mim. Cada passo, cada giro, cada movimento parecia uma luta contra o que eu realmente sentia, contra a vergonha do meu nome, contra as expectativas que haviam sido impostas a mim desde o momento em que nasci.
Quando o ensaio terminou, eu sabia que algo dentro de mim havia mudado. Havia algo mais forte do que a dor física do treino, mais intenso do que qualquer pressão externa. Era uma força silenciosa, um desejo ardente de não ser apenas um reflexo do que o mundo queria que eu fosse.
Fui para casa em silêncio, a mente girando como uma tempestade. Ao chegar, encontrei uma mensagem de Enrico. O simples fato de ver o nome dele no meu telefone fez meu coração apertar. Ele sempre foi meu porto seguro, mas agora... eu não sabia mais se era possível manter essa amizade sem que ela desmoronasse de vez.
A mensagem dizia: "Podemos conversar amanhã? Eu sinto sua falta."
Senti uma pontada de dor. Eu também sentia a falta dele, mas não da maneira que ele queria. Não podia ser aquela Sofia para ele. Não podia ser a garota que ele via como algo mais. Eu precisava ser mais do que aquilo, mais do que a filha do homem que havia destruído tantas vidas.
Fechei os olhos por um momento, permitindo que a dor de todos esses sentimentos me envolvesse. Não havia escapatória, não havia como fugir. Eu precisava enfrentar o que eu era, o que eu desejava, e encontrar uma maneira de reescrever a história que eu estava condenada a viver.
Porque, no fim, a única pessoa que poderia me libertar dessa prisão era eu mesma.