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Tamara Santos trabalha em um dos maiores mercados de sua pequena cidade no interior de São Paulo, tendo nada mais do que estresse, cansaço e uma infinidade de boletos para levar para casa. Em um dia qualquer, uma solicitação de amizade aparece em seu f******k, e apesar de não acreditar que um homem como Felix Assumpção pudesse demonstrar qualquer interesse em uma simples operadora de caixa, ela o aceita em sua lista de amigos, acabando por criar um vínculo quase improvável com o atraente corretor de imóveis.

Contra todas as possibilidades, Felix e Tamara se tornam amigos, e, logo, amantes, descobrindo que possuem muito mais em comum do que aparentam, principalmente em suas tentações e fantasias sexuais.

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Capítulo 01
A fila do estabelecimento lotado estava indo do caixa até o setor do hortifrúti, e era bem fácil escutar clientes resmungando da falta de rapidez dos funcionários. Porque eles realmente acreditavam que, trabalhar por 7 horas de pé, num calor característico da iminência do verão — embora ainda estivéssemos em novembro —, em um supermercado lotado, e usando máscaras de tecido contra a boca e o nariz afim de nos precaver da própria aglomeração que eles mesmos provocavam, diante de uma pandemia mundial, fosse a tarefa mais simples e fácil do mundo. O que ninguém podia ver era que trabalhávamos sob uma crescente preocupação do que se sucederia aos meses seguintes da pandemia — muitos cortes de funcionários já haviam sido feitos. Mesmo em serviços que o governo considerava como essencial, até mesmo supermercados e farmácias passavam por uma crise nunca antes vivida. Ninguém sabia se ainda teria um emprego no começo do próximo ano, visto que estávamos muito longe de receber uma vacina contra o vírus que repentinamente apavorou o mundo. Tão pouco alguém saberia dizer se ainda teria como pagar as contas mais básicas, como água, luz e aluguel. E, mesmo assim, ali dentro daquele supermercado, a única coisa que os turistas e moradores da cidade sabiam fazer, era resmungar e nos tratar com total displicência. — Às vezes acho que trabalhar com o público deveria ser matéria obrigatória para formação de caráter — chiou Anderson, esticando o pescoço para falar comigo, enquanto empacotava uma compra. — O pessoal acha que reclamamos sem motivo, mas, falando sério, quem é que gosta de ser tratado que nem cachorro por sete horas todo dia? Pior do que cachorro, aliás, porque o meu fica o dia todo deitado e comendo, enquanto eu fico o dia todo com os olhos tremendo de ódio. — Ele franziu o rosto quando eu dei risada. — É sério, Tamara, eu vou precisar de terapia quando for mandado embora desse lugar. Tem vezes que eu acho que estou a ponto de ter um derrame de estresse. Não era nenhuma novidade que os clientes se tornavam aleijados quando chegavam na parte em que precisavam colocar seus produtos na sacola. Pior ainda era quando se tornavam repentinamente surdos, geralmente quando pedíamos moedas ou notas de valores mais baixos para facilitar o troco. Eles se empenhavam muito bem em acabar com a alegria dos nossos dias com a falta de educação e soberba. E não importava o horário ou o dia da semana, sempre aparecia algum infeliz com a própria vida para atazanar nosso juízo. Nenhum operador de caixa estava livre de passar por situações de estresse absoluto. — Um auxílio psicológico já era de bom tamanho — gritou Ellen de onde ela estava, a um caixa de distância. Ela fez cara f**a quando um cliente que todos nós sabíamos que era uma pedra no sapato se encaminhou até o seu caixa com duas latinhas de cerveja na mão. Ela suspirou profundamente e disse ainda em voz alta: — Tem dias que eu simplesmente me escondo no depósito e choro... Ah, é, boa noite para o senhor também. — Quem vê até pensa que estamos sendo escravizados, gente — repreendeu-nos Rodney, que estava no caixa do lado de Ellen, e de costas para mim, sorrindo com falsa amabilidade em nossas direções. — Isso aqui não é nada. Vocês estão no paraíso. Se eu for parar para contar cada perrengue que passei nos meus locais de trabalho anteriores, vocês ficariam de cabelos em pé. Ellen me olhou no exato instante em que Anderson virava a cabeça, e nós três reviramos os olhos ao mesmo tempo, provocando risadinhas de qualquer um que observasse a cena, menos Rodney que estava apitando sem parar o seu alerta de caixa livre (um recurso que todos os operadores de caixa achavam um absurdo; o cliente nunca esperava ser chamado para jogar suas coisas em nosso balcão), tentando chamar a atenção da gerência que havia se reunido na recepção para observar o movimento alarmante do supermercado lotado. Todo o mundo sabia que Rodney cobiçava a vaga de fiscal de caixa. E todo mundo também sabia que para ocupar a vaga, ou você deveria ter um relacionamento muito íntimo e pessoal com a gerência, ou tinha de ser um verdadeiro puxa-saco. Era nítido que ele se dedicava em cem por cento do seu tempo para contradizer qualquer uma de nossas queixas, de modo que nenhuma reunião semanal trazia qualquer benefício para nós, já que Rodney sempre estava lá para demonstrar a sua gratidão pelo emprego exaustivo e estressante. Rodney era um homem com rosto de menino, e com isso quero dizer que ele aparentava ter menos de dezesseis anos, quando já tinha mais de trinta. Fosse por genética ou por alguma misteriosa forma de juventude infinita, eu jamais saberia. Pois nunca me aprofundei muito na questão de conhecer melhor alguns dos meus colegas de trabalho. Tudo o que eu fazia em cada dia da minha vida era trabalhar e voltar para casa. Os poucos verdadeiros amigos que fiz no processo vieram por coincidências do destino. Rodney não era um deles. — Eu só queria ter terminado minha faculdade — choramingou Jordana, acionando o alerta sonoro de seu caixa para chamar o próximo cliente, porque ela era a única que conseguia ficar com o seu caixa vazio num movimento infernal. Vinha muito do seu dom de fingir que não estava dando a mínima para a presença dos clientes, e eles também se recusavam fortemente a receber um dos seus olhares de desgosto. — Só de pensar que eu poderia estar fina e plena, vindo atazanar vocês, em vez de ser atazanada por cliente pobre e m*l educado... — E, quando o cliente simplesmente colocou a cestinha em seu balcão e ficou esperando ela tirar os produtos para só então começar a passá-los diante do leitor, Jordana suspirou e olhou para o teto conforme suplicava: — Olha, sinceramente, estou cansada de ter que pagar pelos meus pecados desse jeito, misericórdia! Será que o senhor pode tirar da cestinha? — Por quê? — perguntou o homem em voz esganiçada. Todos nós percebemos o erro dele antes que Jordana começasse a ficar vermelha de exasperação. — Por uma questão de empatia — disse ela com uma voz sibilada e extremamente calma. — Você esticar o braço por cinco segundos, não vai dar em nada. Já eu, esticando meu braço por sete horas para clientes s*******o como você, vai me dar uma bela inflamação no ombro. Então, caso o senhor ainda se pergunte porque é que tem que fazer o mínimo, pode evitar usar cestinhas e carregar as coisas na mão. Ou melhor, evite qualquer local onde existam pessoas e não máquinas, porque ninguém é obrigado a ser ter o seu trabalho diminuído por ninguém. Visivelmente constrangido, o cliente começou a tirar os itens diante de Jordana. E ela esperou calmamente, com ambas as mãos numa sacola já aberta, enquanto ele obedecia às instruções de boas maneiras sob o olhar de puro dissabor dela. — Nós demos sorte — argumentei, determinada a tentar aumentar o ânimo do grupo que me cercava. Embora eu sempre evitasse conflitos pessoais de qualquer natureza, ainda havia momentos em que realmente minha paciência era testada. E trabalhar com o público estava me dando a certeza de que eu perderia as estribeiras em algum momento da minha vida. Só esperava que não fosse diante de um surto colérico. — Estamos no caixa rápido... Pior seria estar nos caixas maiores com tantas compras grandes e sem troco. O caixa rápido consistia em seis caixas que eram basicamente a metade dos caixas normais, e se uniam em duplas pelas pontas, de modo que seus ocupantes ficavam de lado um para o outro. O caixa oito e nove ficavam juntos, dez e onze também, e doze e treze fechavam o espaço. Enquanto o caixa oito se posicionava de costas para o caixa dez, o nove e onze ficavam de frente um para o outro, então, sempre se podia ver clientes batendo uns nos outros para tentar alcançar os caixas das pontas, desesperados para sair o mais rapidamente possível do estabelecimento. Chamar os clientes para serem atendidos nos caixas das pontas era a nossa ideia de diversão; ver os clientes agindo feitos bobos e batendo uns nos outros, porque esses eram os típicos clientes que já chegavam até o caixa com a cara amarrada e sem um pingo de vontade de facilitar as nossas vidas. Ironizando minha tentativa de apaziguar os ânimos, Anderson se virou para mim mostrando o pagamento de seu cliente, com um olhar desesperado de quem diria: São 3 reais e 40 centavos da compra, e ele me deu uma maldita nota de 100! E eu fiz a melhor expressão de pena que pude, porque também não tinha qualquer troco para oferecê-lo, e todos os operadores de caixa eram assombrados com a ideia de acender a luz que alertava o fiscal de caixa de algum problema. Porque, no turno da noite, a nossa fiscal de caixa era a pior mulher do mundo para trabalhar num setor daqueles, e pedir troco para ela era o mesmo que fazer um insulto gravíssimo. Como eu disse, trabalhávamos sob uma pressão absurda, e os clientes nem faziam ideia disso. Não era difícil ver que muitos deles suspiravam com exasperação ao nos ouvir pedindo troco. Muitos ainda viviam resmungando que não entendiam a nossa necessidade de mendigar moedas, quando trabalhávamos num supermercado daquele tamanho e não havia a menor possibilidade de o dono não poder nos fornecer moedas. O que nenhum cliente compreendia, era que os donos, os fiscais, os encarregados, e nem ninguém tinham a menor vontade de nos ajudar em nosso trabalho. Eles simplesmente mantinham a ideia de que faziam muito em nos cumprimentar para ainda ter de ajudar com notas de valores menores. Por isso eu concordava com Anderson. Todo mundo deveria passar pelo menos um dia no balcão de um supermercado para aprender a lidar com outras pessoas. Deveria não ser uma matéria obrigatória, mas o primeiro emprego da vida de tudo mundo. E só neste dia é que todos compreenderiam como é terrível necessitar da aprovação de gente m*l-educada para continuar tendo um emprego. Porque a verdade era que trabalhar com o atendimento ao público se resumia na necessidade de agradar pessoas que, em geral, nunca foram nada agradáveis. Muitíssimas vezes eu tive de escutar os fiscais de caixa conduzirem uma reunião acerca das inúmeras reclamações dos clientes. Alguns não gostavam que nossos fios de cabelo estivessem desalinhados. Outros não queriam que os seus produtos de limpeza fossem empacotados com os produtos de higiene pessoal. E ainda havia aqueles que achavam uma tremenda falta de educação quando nós não dávamos a menor atenção para as suas reclamações acerca do tempo frio ou quente demais. Nenhum gerente ou encarregado de qualquer setor era o que eles exigiam que os operadores de caixa fossem. Eles queriam educação, mas agilidade... Inteligência, mas modéstia. E ainda queriam exigir que trabalhássemos sorrindo, mesmo com uma máscara de pano acabando com qualquer chance de se respirar direito, e que jamais reclamássemos diante dos clientes de tudo o que havia de errado dentro da empresa, porque isso acarretaria numa demissão. As ameaças eram constantes. E por mais que todos os setores tivessem suas dificuldades, aquele que chamavam de “frente de caixa” era o pior para se trabalhar quando você não gostava de seguir regras rígidas e até um pouco abusivas. Não podíamos conversar entre nós, e não podíamos deixar que os clientes passassem tanto tempo resmungando sobre suas miseráveis vidas, embora também não pudéssemos cortá-los. Era um trabalho terrível e necessário para o aprendizado humano, porém, infelizmente, nem todo mundo tinha de recorrer a este tipo de trabalho na vida. — Por mim tanto faz! — exclamou Luciana, sentando-se na ponta da cadeira, acreditei que para ser mais fácil levantar ao ver um novo cliente na fila. Aos poucos estávamos conseguindo dar conta de dispersar a multidão que anteriormente esperava para ser atendida, e boa parte desse sucesso cabia à Luciana, que nunca teve preguiça de trabalhar. — Quanto mais movimento mais o tempo passa rápido. Só não quero que aconteça o mesmo de ontem. — O que aconteceu ontem? — perguntei com crescente curiosidade. Eu folgava todas as segundas-feiras, então sempre perdia os primeiros acontecimentos da semana. Era na segunda que a maioria dos funcionários pediam as contas, ou que as confraternizações eram feitas, ou que qualquer novidade muito boa ou fofoca imperdível acontecia. E eu nunca estava lá para saber. Embora fosse o dia em que eu deveria ter o meu merecido descanso, considerando que trabalhava de terça a domingo, das treze horas até as dez horas da noite, eram nas segundas que eu mais me cansava. Isso porque o supermercado não era o meu único emprego. Como todos os brasileiros que se viram diante de uma pandemia repentina, eu precisei recorrer a uma segunda fonte de renda extra, porque não conseguia pagar todas as contas com o salário que recebia no supermercado — mesmo trabalhando seis dias na semana e recebendo adicional noturno. Então eu arranjei um estágio num centro empresarial que oferecia oportunidades para jovens que cursavam qualquer período da faculdade de administração. Eu estava num curso que não amava, e trabalhava num lugar que detestava, porque, pior do que o supermercado, havia apenas ter de ser estagiária num lugar onde somente pessoas ricas e formadas frequentavam. Eu não tinha um setor próprio dentro daquela empresa. Eu era a garota que limpava, servia cafés, levava documentos, e arrumava a bagunça da sala de recreação dos funcionários. Eu sequer era considerada uma funcionária. Todos os dias eu via, com considerável inveja, o quanto aqueles funcionários eram paparicados e mimados pelos seus chefes. Enquanto eu apenas passava de mesa em mesa servindo café, ou lendo documentos para dizer que estava cumprindo com o requisito mínimo e obrigatório do meu estágio. A minha jornada de trabalho começava todo dia às seis horas da manhã, quando eu me levantava ao som de “Braba” e me enfiava num banho demorado para conseguir acordar e realizar todos os mantras que precisaria para aguentar firme o dia. Então eu tomava um café às pressas — nunca fui muito adepta a me alimentar antes das onze horas da manhã — e saía correndo para não perder o ônibus. Geralmente eu chegava uns cinco minutos antes de todo mundo no escritório, e ficava no primeiro andar, fazendo companhia para as garotas da faxina, porque elas eram as únicas que me olhavam com dignidade ali dentro. Então passava quatro horas correndo de um lado para o outro, servindo cafés e lendo apostilas, até que as onze horas chegassem e eu pudesse voltar para casa e tomar um café digno. Logo, quando as trezes horas chegavam, eu novamente me arrumava e partia para o supermercado, onde ficava até as dez horas da noite. Eu não tinha vida social, não tinha amigos que duravam muito tempo, e que não trabalhassem no mesmo local que eu, já que não tinha tempo nem mesmo para ler um livro. Quando chegava em casa, eu fazia a janta enquanto tomava o último banho, e depois de comer ainda precisava ver quarenta minutos de videoaula do terrível curso de administração. No final das contas, eu dormia sem nem perceber, e acordava no dia seguinte para repetir todo o processo do dia anterior. Essa era a minha vida. — Lembra que naquela correria de domingo os fiscais fizeram a retirada dos dinheiros dos caixas, quero dizer, a sangria, faltando cinco minutos para o fechamento do supermercado? — Luciana perguntou, e saindo do meu devaneio eu assenti com a cabeça, e ela continuou. — Então, parece que mais de trezentos reais em notas falsas foram rejeitados no depósito no caixa eletrônico, e aparentemente vão descontar dos nossos salários já que não sabem quem pode ter pego. Eu até achei que seria justo, sabe. Se descontar um pouquinho de todo mundo, ninguém é acusado injustamente. Até porque eu tenho certeza que pode ter sido uma das meninas novas que estão no período de experiência, mas ninguém vai acusar elas. Eles estão morrendo de medo de ficar sem funcionários quando o natal chegar. Olha só como já está lotado! — Pois que tentem descontar um centavo meu e eu já aproveito para processar — rosnou Jordana, sentando-se. A cadeira de rodinhas girou sob o peso dela. — Onde já se viu, minha gente? Eles não oferecem nenhum material de trabalho para a gente, até as canecas e o bloquinho eu tive que comprar! Até parece que agora vou ter que comprar uma caneta detectora de cédulas falsas. E ainda querem descontar por não conseguirmos conferir as notas, se são eles é quem permitem que os clientes aglomerem e nós tenhamos que atender rápido. Isso é ridículo demais. É quase assédio moral. Senti um leve aperto no estômago com isto. Eu sabia muito bem que a justiça não fazia parte dos protocolos daquele supermercado, e sabia mais ainda que muitos funcionários já haviam sido obrigados a pedir suas contas por capricho da hierarquia em meu trabalho. Se algum prejuízo havia sido dado para a empresa, com toda a certeza não seria um fardo que a gerência carregaria. E foi por causa disso que lancei um olhar curioso por cima do meu ombro, vendo que o pequeno grupo de gerentes e encarregados ainda se mantinha diante da recepção, observando o movimento e lançando de vez em quando alguns olhares discretos em nossas direções. Eu não era burra de pensar que eles estavam ali apenas para observar. Com toda a certeza estavam procurando a vítima ideal para se livrar de um problema como aquele. — Isso me deixa p**a da vida — falei num suspiro. E retornei meu olhar para o pequeno grupo ao meu redor. — O fato deles verem o quanto trabalhamos, o quanto aguentamos de humilhação diária, e ainda assim, não fazer nada para nos ajudar. Isso me deixa muito chateada. E acho que ter um psicólogo não ajudaria em nada. Com toda a certeza ele não respeitaria aquela confidencialidade entre médico e paciente e contaria todas as nossas queixas para a gerência. Não podemos contar com ajuda nenhuma vindo daqui. Isso me deixa irritada demais. — E quem não fica, amiga? — Jordana rebateu, ajeitando os fios de cabelos loiros em torno do coque que todas éramos obrigadas a fazer. — Esse trabalho que suga nossas energias e acaba com nossos sonhos... Até minha habilitação me impediram de tirar, sendo que é lei que a empresa libere o funcionário mais cedo para casos assim. Eu queria muito ter terminado minha faculdade de Direito. Botaria todo mundo no p*u nessa espelunca. E ainda ajudaria vocês no processo contra o assédio moral e psicológico que acontece aqui dentro. Tem que ser muito p*u mandado, arrombado, e sem amor próprio, para gostar de trabalhar nesse lugar, né, Rodney? Rodney revirou os olhos, mas teve a sabedoria de parecer incomodado quando reparou que todos nós olhamos em sua direção e esperamos ouvir qualquer queixa de sua parte. Ele simplesmente se afastou do caixa e começou a recolher as cestinhas que os clientes deixavam jogadas em qualquer canto, fazendo o trabalho dos empacotadores, pois, aparentemente, ele não conseguia ficar um segundo sequer sem mostrar aos chefes que podia fazer mais de uma função e sem reclamar. Observei as caretas que Jordana fazia para o seu reflexo, arrumando os impecáveis fios de cabelo dentro da maldita redinha que usávamos para prender os cabelos naquele coque, o que sempre fazia com que nosso cabelo ficasse marcado e até mesmo quebradiço. Ela suspirou ao ajeitar a máscara em seu rosto, obviamente detestando a situação em que passávamos naquela época, com uma pandemia mundial nos obrigando a uma quarentena sem fim e várias máscaras compradas ao longo de doze meses. Jordana era aquela que sempre vinha mais maquiada para trabalhar. Ela dizia que tinha se acostumado com os anos trabalhados em uma concessionária, e agora já não conseguia sair de casa sem uma boa camada de base e corretivo, uma generosa sombra reluzente nos olhos e um batom escuro. Lancei um olhar para o meu próprio reflexo no leitor do computador. Eu não usava maquiagem, mas minhas olheiras faziam um bom papel de serem chamativas o suficiente. Os meus olhos eram castanhos, e eu não gostava de passar rímel ou delineador, porque achava que eles tinham um formato grande demais, e eu não queria ser envergonhada pelos traços confusos e nada discretos do meu rosto. Mas eu gostava do tom da minha pele. Porque ela não era Oliva, e nem preta. Eu era um meio-termo de tudo, e gostava de não ter problemas com o sol queimando a minha pele, e nem em encontrar qualquer tom que iluminasse o meu corpo. No entanto, eu sentia que de vez em quando — tanto por parte de clientes e colegas de trabalho — eu era um pouco discriminada pela minha cor, porque ela não era profundamente escura, mas era uns bons tons além do amarelo padrão dos brasileiros, no que popularmente era conhecido como morena cor de jambo. E eu não ligava. Eu amava a minha cor. Era a única coisa na minha vida que eu verdadeiramente amava. E isso bastava. — Eu só queria que isso acabasse logo — falei, já me erguendo da cadeira para chamar dois clientes que se aproximavam dos caixas. — Amiga, eu também — disse Jordana. — Essa "mundiça" de máscara acaba com a minha beleza. Rindo do sotaque nordestino característico de Jordana, eu cumprimentei os dois homens que se aproximaram do meu caixa. Um deles era moreno e bem alto, e, apesar de não usar uma aliança de casamento tão grossa quanto a maioria dos clientes bonitos, eu me senti alarmada o suficiente com a sua beleza para não ousar olhar duas vezes. O outro era loiro, um pouco menor que o primeiro, usava uma roupa social de camisa branca, e, mesmo através da máscara, parecia sorrir largamente conforme me deu boa noite. Eu adorava atender clientes que me tratavam como igual, e não como uma empregada. Era muito fácil sofrer qualquer humilhação quando se estava atrás de um balcão, e eu já estava quase no meu limite de trabalhos com o público. Mas, desde o começo da pandemia, os empregos haviam sido reduzidos, e a fome havia aumentado. O Brasil entrou em colapso com dois meses após uma parada súbita pelo vírus, e desde então estava tendo problemas para se reerguer. Tanto o supermercado, quanto o escritório onde arranjei o estágio, eram os únicos locais da cidade que ainda contratavam. E era muito fácil de se saber o porquê. Eram os locais onde ninguém aguentava ficar por muito tempo. E quando haviam aqueles raros casos em que os novatos pareciam estar se adaptando e verdadeiramente gostando do serviço, eram os primeiros na fila de dispensa e demissão. Eu apenas acordava todos os dias sem ter muita certeza de como seria o meu dia, mas disposta a aguentar clientes nervosos e chateados, simplesmente porque não tinha o que fazer. Eu poderia contrair o vírus, poderia passar para outros, mas precisava trabalhar, e por conta dessa necessidade, alguns se aproveitavam para descontar suas frustações. Então todos os dias eu começava com um mantra, e terminava com outro. Pedindo sabedoria e discernimento. Porque a minha vontade em cada dia era jogar tudo para o alto, mas só de pensar em todo o trabalho que eu teria de recolher tudo e continuar em frente, eu simplesmente fingia que não reparava nos problemas, que não me chateava com as agressões verbais dos clientes, e mantinha o sorriso colado no rosto. — Encontrou tudo o que estava procurando, senhor? — perguntei para o cliente loiro, enquanto ele finalizava o pagamento com seu cartão. Notei que ele sorriu novamente quando as ruguinhas ao redor dos seus olhos ficaram expostas, e os olhos verdes de um tom quase como o musgo brilharam momentaneamente. Ele era verdadeiramente lindo e educado, mas eu sabia que não era um homem para alguém como eu. Trabalhar com atendimento ao público tinha me feito criar certas fobias sociais, e me envolver com homens bonitos era uma delas. Na verdade, eu não me envolvia com homem algum, já que m*l tinha tempo para tomar banhos demorados. Eu não costumava sair muito de casa, então não conhecia muitas pessoas. Acho que trabalhar com pessoas me cercando todos os dias me causou danos psicológicos tão severos que eu sequer aguentava sair na rua quando tinha tempo livre, já que preferia passá-lo sem saber que havia mais humanos no mundo além de mim. No entanto, o belo homem diante de mim me surpreendeu ao dar uma risadinha grave, e eu me peguei sorrindo de surpresa. — Eu estou velho, mas nem tanto, moça — disse ele gentilmente, numa voz com sotaque sulista. — Só que não encontrei Pepsi. Na minha humildade opinião, é um refrigerante melhor do que Coca-Cola, e mesmo assim vocês não têm à venda. — Se quiser, pode anotar naquela lista de sugestão que vocês estão sempre perguntando aos clientes — disse o amigo dele, observando a conversa. — Eu frequento esse lugar todos os dias, e realmente nunca encontrei uma Pepsi. — Pepsi é superestimada... É só uma coca sem gás, e um pouco nojento — falei, fazendo cara de nojo. E, diante da expressão de assombro de ambos os homens, acrescentei: — Isso, é claro, na minha humilde opinião. Nesse momento o homem loiro me olhou. Olhou de verdade, da cabeça até a cintura — já que era até onde o balcão me cobria. E eu não sei muito bem porque me senti tão atordoada momentaneamente. Talvez tenham sido os lindos olhos verdes que se focaram em mim com uma atenção que me deixou nervosa demais ou o simples som de sua risada genuína, seguido de um som debochado, como se ele estivesse conversando com um amigo de anos. Eu só sei que também acabei rindo e pela primeira vez naquele dia me senti menos do que só uma pessoa que deveria aceitar humilhações. O amigo dele também riu baixinho, e disse que estava brincando sobre anotar a falta de Pepsi no supermercado, já que eles se contentariam com Coca-Cola. — Obrigado, e boa noite, moça — respondeu o homem loiro quando entreguei seu cupom fiscal, no que ele segurou meus dedos por mais tempo do que era necessário. E então ele saiu, me deixando de pé no caixa, observando-o falar alguma coisa com o amigo e rir, carregando suas sacolas. Continuei observando enquanto eles passavam pelas portas duplas da entrada, e sumiam pela multidão de gente que ainda entrava e saía. Infelizmente não pude ver a forma com que eles foram ao supermercado, se estavam dirigindo ou a pé, ainda assim continuei olhando pelas portas abertas, esperando poder ver o estacionamento. De onde eu estava não conseguia mais vê-los, precisaria chegar ao menos até o caixa vinte e quatro horas que se localizava ao lado da porta, caso quisesse ter alguma resposta. Porém, antes que eu tomasse a decisão, eles já haviam sumido.

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