Roco Esposito
Roco — E você gosta disso? De viver assim? Sendo mandado pela sua esposa?
Romeo — Pra c*****o!
Falou com total convicção.
Eu não conseguia entender aquilo. A cumplicidade entre os dois, a forma como um parecia ler os pensamentos do outro...
E me perguntava se, um dia, teria algo assim com Bianca.
Pelo tanto que ela me odiava naquele momento, eu duvidava muito disso.
Roco — Isso é estranho.
Falei, levantando-me.
Romeo — Quando estiver casado, vai entender.
Roco — Primeiro eu preciso fazer a Bianca me aceitar como marido. Porque, mesmo depois do sim dela, sei que vou enfrentar uma batalha das grandes.
Romeo — Mostre para ela que você se importa. Que quer o bem dela.
Roco — Como faço isso?
Romeo — Não sei. Você a conhece melhor do que eu. Sabe das coisas que ela gosta.
A fala dele me fez parar e pensar por um instante.
Sim, eu conhecia Bianca muito bem.
Observei-a por tempo demais para não saber cada detalhe sobre ela.
Talvez eu devesse seguir o conselho de Romeo e mostrar a ela que merecia uma chance.
Roco — Eu preciso ir agora. Bianca já deve ter escolhido o vestido de noiva. Eu a deixei com a equipe do estilista. Agora vou aproveitar para levá-la às compras. Ela precisa de roupas.
Romeo — Sabe que amanhã mesmo vai receber a visita da minha moglie, não é?
Roco — Sim, eu sei. Vou deixar a bella mia avisada.
Romeo — Está certo. A gente se vê amanhã, então.
Assenti e saí.
Antes mesmo que eu alcançasse a porta de saída, ele já estava subindo as escadas atrás de Crystal, provavelmente indo implorar para que ela não o mandasse para o quarto de hóspedes.
Sorri e balancei a cabeça em negação.
Bianca nunca teria tanto poder assim sobre mim.
Por algum motivo, aquele pensamento pareceu ridículo.
Acho que, no fundo, eu já sabia a verdade.
Bianca comandava tudo aqui dentro de mim.
Antes de voltar para casa, ainda passei em uma das empresas de fachada da Cosa Nostra que eu comandava para revisar alguns relatórios.
Mas m*l conseguia prestar atenção nos documentos em minhas mãos.
Estava ansioso para voltar logo para a mansão Esposito e ver Bianca.
Mesmo que, naquele momento, não houvesse nada além de raiva naqueles olhos azul-acinzentados.
Eu faria com que ela gostasse de mim.
Faria com que ela me desejasse tanto quanto eu a desejava.
Ansiava pelo momento em que tomaria aqueles lábios em forma de coração nos meus.
Só a beijei uma vez, e foi apenas um leve roçar de lábios.
Minha boca ficou formigando por dias, apenas pela lembrança da maciez dos lábios dela.
Desisti de analisar os documentos.
Não adiantava ficar ali se eu não conseguiria resolver p***a nenhuma.
Ao chegar em casa, encontrei meu pai sentado na sala com um chinês e uma garota que devia ter mais ou menos a minha idade.
Giovanni — Filho, que bom que chegou. Venha até aqui cumprimentar meu velho amigo, Ming Wei, e sua filha, Chun Wei.
Eu não estava com paciência para fazer sala para ninguém.
Tudo o que eu queria era ir ver Bianca e provocá-la, como gostava de fazer.
Mas me lembrei do meu pai dizendo que aquele chinês era um velho amigo e foi apenas por isso que, contra a minha vontade, caminhei até eles.
Roco — Boa tarde.
Cumprimentei assim que cheguei perto o suficiente.
Ming Wei — Ora, vejam só... o seu caçula se tornou um homem! O tempo está passando rápido demais.
O visitante comentou, sorrindo.
Ming Wei — Seu pai e eu somos velhos amigos. Nos conhecemos desde antes de você nascer.
Roco — É, ele comentou mesmo.
Falei, sentando-me ao lado do meu pai, já sabendo que não conseguiria escapar dali tão cedo.
Ming Wei — Essa é a minha filha, Chun Wei.
Ele a apresentou formalmente.
Roco — É um prazer conhecê-la.
Falei educadamente.
Chun Wei — O prazer é meu.
Ela respondeu com um sorriso simpático.
Eles pareciam ser pessoas agradáveis, e imagino que realmente fossem.
Don Giovanni não costumava fazer amizades facilmente.
Giovanni — Roco, Chun Wei vai passar alguns dias aqui na Sicília e ficará hospedada conosco.
Roco — É mesmo?
Fingi interesse, sabendo que havia muito mais por trás daquele anúncio do que estavam deixando transparecer.
Ming Wei — Sim. Espero que possa fazer as vezes de anfitrião e mostrar a ilha para ela.
Chun Wei — Papai!
A garota o repreendeu, as bochechas ficando vermelhas.
Foi nesse momento que entendi tudo.
O chinês estava tentando me empurrar para a filha dele.
Será que meu pai tinha concordado com aquilo?
Ele sabia que eu iria me casar com Bianca.
Roco — Claro. Minha noiva e eu vamos adorar levar Chun Wei para conhecer os pontos turísticos da Sicília.
Falei, deixando claro que eu não estava disponível, enquanto encarava meu pai em busca de uma resposta.
Uma resposta que, obviamente, não veio.
Ming Wei — Não sabia que tinha uma noiva.
Roco — É. Acho que meu pai esqueceu de mencionar isso.
Giovanni — Não esqueci. Apenas não entramos nesse assunto.
Então era isso.
Até meu pai havia sido pego de surpresa.
Roco — Será muito bem-vinda para ficar conosco, Chun Wei. Vai ser bom para minha noiva ter uma companhia feminina.
Chun Wei — Ela mora aqui também?
Roco — Sim. Vai conhecê-la durante o jantar.
Falei, sorrindo.
Naquele momento, uma ideia surgiu em minha mente.
Eu não sabia se era uma boa ideia, mas talvez desse algum resultado.
Talvez, se Bianca visse que eu tinha outras opções, sentisse ciúmes e percebesse que não era tão indiferente a mim quanto gostava de fingir.
A verdade era que eu estava cansado de vê-la me olhar apenas com raiva.
Queria que aqueles olhos azul-acinzentados me olhassem de outra forma.
Queria que ela enxergasse o homem por trás de tudo aquilo.
Mas, se eu precisava admitir uma coisa, era que ainda não sabia exatamente como fazer isso.
Eu sempre consegui tudo o que quis.
Dinheiro.
Poder.
Respeito...
Bastava estender a mão.
Mas Bianca era diferente.
Ela era a primeira pessoa que não se curvava diante de mim.
A primeira que me enfrentava sem medo.
E talvez fosse exatamente por isso que eu a queria tanto.