A voz a assustou. Savannah se perguntou por um segundo como diabos não percebeu que tinha um espectador. O homem que estava gargalhando para ela estava sentado debaixo de um enorme carvalho, escondido atrás das roseiras quando ela chegou. Essa era a única razão pela qual ela não o viu de primeira. De qualquer forma, foi um erro dela. E pelo que parecia, ela não podia cometer nenhum erro no momento. Ela precisava pensar em tudo para decidir qual ação tomar.
Ela ouviu os sons do homem se levantando e girou nos calcanhares para ver quem era. Um suspiro de alívio escapou dela. Diante dela estava um homem alto vestindo um conjunto de roupas que não era o mais limpo que ela já tinha visto. Suas calças jeans estavam sujas de terra e sua camiseta cinza Henley tinha visto dias melhores. Ele tinha cabelos escuros e uma barba, o que dava um ar um pouco perigoso de lenhador, mas ela podia dizer que ele era um dos nortenhos que pertenciam ao castelo. Provavelmente apenas um dos trabalhadores, o que era bom para ela. Dificilmente ele saberia quem ela era e ela poderia escapar.
"Só... aparando", Savvy esticou os lábios num sorriso encantador e evitou olhar para a roseira destruída. Ela apenas esperava que o cara não fosse o jardineiro responsável por cuidar dessas coisas. Mas ele provavelmente era exatamente isso, o jardineiro. Caso contrário, por que ele teria aquele aroma terroso de floresta com um toque de pinheiro e estaria sentado no chão, de todos os lugares?
Agora que ela pôde olhar melhor para ele, o homem era muito bonito e tinha todos aqueles músculos que provavelmente eram resultado do trabalho físico. Os jardins do castelo do Norte eram vastos, ele provavelmente tinha muito trabalho ali, e ela sentiu a culpa a inundando. Ela não era do tipo de princesa que aterrorizava seus servos e ômegas. Dito isso, o cara não era um ômega, mas sua aura estava escondida, e era difícil dizer sua classificação. Ele provavelmente estava em algum lugar no meio, porque não havia chance de um alfa ou beta esconderem quem eram. Fazia parte da natureza deles demonstrar essas coisas.
"Desculpe", Savvy murmurou um pedido de desculpas e sentiu-se obrigada a se explicar. "Eu estou tendo um dia muito ruim."
"Você não é daqui", o cara olhou para ela de cima a baixo com algum tipo de interesse evidente em seus olhos. "Embora haja muitas pessoas novas aqui hoje", ele murmurou para si mesmo. Provavelmente ele não estava feliz com todas aquelas pessoas andando pelo seu jardim, estragando-o como ela havia feito.
"Você está surpreso?", a garota ergueu as sobrancelhas questionadoramente, lembrando porque estava ali em primeiro lugar. A raiva surgiu no fundo de seu estômago. "Parece que o seu rei quer um espetáculo."
A cabeça dele virou na direção dela e ele inspirou profundamente.
"Pelo que ouvi dizer, é voluntário. Ninguém é obrigado a participar", o homem deu de ombros, e aquele pequeno gesto a irritou mais do que qualquer outra coisa hoje.
"Voluntário?", ela riu alto, jogando a cabeça para trás.
Aquilo era ridículo. Todos os nortenhos eram assim?
"Porque é o desejo de toda mulher correr atrás de um homem como um cachorrinho de circo, realizando tarefas e truques junto com várias outras como ela, na esperança patética de que talvez ele seja gentil o suficiente para escolhê-la! Sim, esse é o desejo de toda mulher! Nós escolhemos isso!"
Ela soltou uma gargalhada, irritada com seu desabafo e cruzou os braços sobre o peito.
"Se você não gosta tanto assim, pode ir embora!", o homem retrucou, visivelmente irritado com seu pequeno discurso.
"Você não faz ideia do que está falando!", ela suspirou, percebendo que ele nunca a entenderia.
"Quem é você mesmo?", o jardineiro perguntou. "Você veio como uma das candidatas?"
"Candidatas", ela resmungou e revirou os olhos. Já odiava essa palavra. "Eu vim como uma das vítimas políticas. Pronto”, ela disse. “Aproveite a verdade, jardineiro! Sinceramente, eu nem entendo como o Rei Kai será capaz de olhar para o rosto de sua futura esposa, sabendo que ele a fez passar por tudo isso. Que sua futura rainha foi usada como uma marionete em seus jogos só porque ele não queria se casar com uma certa princesa."
"Ah, entendi", um sorriso sarcástico se estendeu pelo rosto barbudo dele. "Você veio com a Princesa Savannah do Reino Licano Ocidental."
"Não!", ela corou, e tecnicamente, nem era mentira. Ela não veio com a princesa. Ela era a princesa.
"Aposto que ela está com raiva", o estranho continuou com uma espécie de divertimento em seu rosto. "A Princesa Ocidental, que está acostumada a conseguir tudo o que quer apenas estalando os dedos. Tenho certeza de que para ela é difícil entender que ela realmente tem que lutar por algo."
"É isso que você pensa?", ela riu dessa vez. "Que uma garota que cresceu sem pais, apenas com ela mesma e com o irmão sob ataques constantes, simplesmente consegue tudo magicamente? Deixe-me te dizer, se ela decidir ficar e participar dessa competição ridícula, ela vai passar o rodo em qualquer um que seja i****a o suficiente para competir com ela. A questão é se ela ainda gostaria de se casar com um homem — embora o termo homem nem seja adequado aqui — como seu rei. Porque pelo que vejo, ele já falhou em seu primeiro teste! Casar-se com alguém assim já foi um sacrifício para ela! E saber que ele nem é capaz de cumprir sua própria palavra é simplesmente triste! Isso está abaixo dos padrões dela para qualquer homem, quanto mais um m****o da realeza."
A boca do jardineiro se abriu e Savvy decidiu que já tinha feito e dito o suficiente, e era melhor recuar antes que tudo desse errado.
Aquilo, na verdade, a fez se sentir um pouco melhor em relação a toda situação, e agora ela sabia que tinha que voltar para seus amigos e começar a planejar. Ela precisava tomar uma decisão se encontraria com o rei, daria um tapa em seu rosto e partiria. Ou ficaria e faria com que ele se arrependesse de ter ousado começar com tudo isso, considerando que se casar com ele já era o sacrifício de sua vida. Ela deu alguns passos, quando ouviu um rosnado alto. Ih-oh. Ela ofendeu o jardineiro, afinal de contas.
"Escute aqui, garotinha... empregadinha", ele cerrava os dentes e seus olhos brilhavam de azul. "Os Testes da Luna são a tradição antiga do Norte. Isso é sagrado para nós, e a futura Luna do Norte vai respeitar isso. Se sua princesa não pode respeitar nossas tradições, então ela realmente veio para o lugar errado."
"Ah, por favor, grandão... menino do jardim", ela encheu suas palavras com todo o veneno que podia. "Eu estudei a história do Norte e sei com certeza que mesmo se houvesse tal tradição anos atrás, ela não foi realizada uma única vez nos últimos dois séculos. Se você não respeitou sua própria tradição por tanto tempo, por que nós deveríamos?"
Ela decidiu não continuar com aquilo e apenas saiu furiosa na direção em que deixou seus amigos. Quanto mais rápido pudessem conversar, melhor.
"Você está bem?", Kyle parecia preocupado com ela. Ele era seu amigo de infância e uma das poucas pessoas em quem ela confiava no mundo.
"Melhor impossível", Savvy assentiu, tranquilizadora. "Temos uma decisão a tomar. E precisamos tomar rápido. Eu preciso saber onde fica a biblioteca aqui."
"Eu já peguei o mapa de um dos servos", Zara tirou uma folha de sua pasta de couro vermelho e entregou a ela. Ela sempre era eficiente assim e Savannah estava grata por ter a melhor equipe ao seu lado.
"Bom", ela disse, estudando o mapa rapidamente. "Eu preciso pegar tudo o que eles têm sobre os Testes da Luna. Eu li sobre isso há muito tempo em um de nossos livros sobre o Norte. Mas foi apenas um parágrafo. Eu preciso aprender tudo o que foi escrito sobre os Testes da Luna. Cada pedacinho de informação é valioso neste momento."
"Então, vamos", Kyle sorriu quando Savannah devolveu a folha para Zara, sabendo que sua melhor amiga já tinha memorizado tudo. Essa era uma das coisas em que eles sempre foram discretos — Savannah tinha uma memória fotográfica. Era o suficiente para ela ver algo uma vez e não conseguir esquecer depois. O plano do castelo agora estava impresso em sua mente para sempre.
"Acho que vou sozinha", Savvy os deteve. "Não queremos perder o horário em que nossos quartos estarão prontos. Sinto que vai haver mais algumas surpresas. Ou melhor dizer, armadilhas. Vamos chamá-las pelo que são!"
"Mas você vai fazer isso? Parece tão... humilhante", Zara lançou um olhar preocupado. Ela sabia muito bem o que era humilhação.
Há apenas alguns meses atrás, ela era parte do harém do antigo Rei Fox. Seu irmão e sua cunhada conseguiram libertar todas as garotas e dar-lhes liberdade de escolha.
Zara era uma metamorfa de pássaro e, infelizmente, ela não podia voltar para seu antigo bando porque o denunciara quando estava apaixonada pela tal raposa. Ele a levou para sua matilha, e só então ela descobriu que não era a única para ele. Mas o amor a fez ficar. E depois de apenas algumas noites e alguns experimentos em seu laboratório, o interesse dele por ela desapareceu. Ela passou anos presa no harém chamado Éden, onde toda mulher supostamente só usava roupas vermelhas reveladoras, assistindo o homem que amava t*****r com todas as outras garotas ao redor, só ficando porque não tinha para onde ir. Até a cunhada de Savannah, a Rainha Licana do Oeste, lhes dar uma escolha.
Zara optou por ficar com ela e rapidamente se tornaram amigas, já que Savvy se ofereceu para encontrar emprego e um lugar para morar para cada ex-garota vermelha. Desde que ficaram próximas, Savvy escolheu Zara para se tornar sua assistente quando chegou a hora de partir para o Norte. Mas Zara rapidamente estava provando que esse era o papel certo para ela.
"Ainda não tomei uma decisão", Savannah confessou. "Preciso de uma saída que ainda garanta a meu irmão a coalizão de que ele precisa. Se eu simplesmente partir, isso estará em perigo. Mas o rei claramente não quer se casar comigo, e isso faz de nós, dois."
"Sua mente já está trabalhando", os lábios de Kyle se curvaram num pequeno sorriso enquanto eles estavam em círculo, tentando não chamar atenção. "Tenho certeza de que você vai descobrir a melhor solução."
"Queria estar tão certa quanto você", Savvy apertou a mão dele e saiu para a biblioteca.
Ela gostaria de poder conversar com alguém agora sobre seu problema. Mas em certo nível, o jardineiro estava certo. Esta era a primeira vez que ela tinha que tomar grandes decisões por conta própria. E tantas alcateias e vidas dependiam disso.
(...)
Kai abriu a porta de seu escritório e rosnou ao ver sua irmã lá dentro.
"Elene, que diabos é tudo isso?"