Landon só conseguiu chegar no porto na noite do dia seguinte, por volta das 2:00 da madrugada. Ele já estava pelas redondezas desde à tardezinha, mas resolveu esperar até o mais tarde possível para finalmente andar pela praia até o cais. Ele não tinha um casaco com capuz que conseguisse esconder a sua cabeleireira de cachos volumosos e ruivos, e embora ir até lá naquele horário passasse certa segurança, o rapaz não deixou de ficar nervoso.
A noite estava iluminada pela gigantesca lua crescente que se exibia logo acima da linha do horizonte, junto com as milhares de estrelas brilhantes que teciam um pontilhado sem fim contra a escuridão do céu. A maré estava alta, e o barulho das ondas, assim como o cheiro levemente salgado da maresia, faziam com que Landon soltasse um pequeno suspiro enquanto caminhava pela areia fofa em direção ao porto, já observando de longe o movimento do lugar. Uma brisa fria vinda do mar bagunçava os cachos do rapaz, que balançou levemente a cabeça para os lados para fazer com que a cabeleira ruiva cobrisse as orelhas e às deixasse longe do frio.
Não demorou mais do que alguns minutos para Landon chegar perto o suficiente do cais para observa-lo com mais atenção, tentando lembrar de onde ficava todas as lojas, barracas e pontos que deveria evitar de forma cuidadosa, já que fazia um bom tempo desde que havia ido até ali.
O lugar era pouco iluminado e as pessoas pessoas falavam baixinho, com não muito mais que sussurros, como se o som produzido fosse alto demais, todos fossem presos (apesar de não ter ninguém ali para prendê-los precisamente). O porto era onde barcos enormes e imponentes vindos de outros continentes atracavam, com seu enorme cais de madeira sendo tomado centímetro por centímetro durante à noite de tantos vendedores. A maioria das "lojas" aram barracas e tendas, pois essas poderiam ser montadas e desmontadas facilmente em um curto intervalo de tempo, então os donos poderiam sumir na madrugada exatamente como chegaram. Outros preferiam algo mais simples e colocavam simplesmente um cobertor no chão e espalhava os seus produtos por cima. E ainda haviam aqueles que não eram comerciantes, mas que tinham uma coisa valiosa para vender, esses precisavam caminhar pelo porto oferecendo até encontrar alguém disposto a comprar (Landon se encaixava exatamente nessa modalidade, e como não conhecia absolutamente ninguém alí para ajuda-lo, teria de arranjar alguma forma de vender as benditas pedras).
Quando o rapaz finalmente chegou até as primeiras barracas e tendas, foi automaticamente bombardeado de todos os lados por inúmeras propostas de venda ou troca. Os vendedores eram absurdamente insistentes e diziam que caso ele não tivesse dinheiro, poderiam trocar os produtos por quaisquer outros objetos (levando em conta duas coisas: se você estava alí nas docas, ou você tinha dinheiro para comprar alguma coisa, ou tinha alguma coisa para ser vendida. Ninguém iria ser expor ao perigo daquilo só por curiosidade).
Landon negou rapidamente as ofertas com um aceno negativo e um sorriso amarelo, sentindo olhares serem lançados diretamente para aquela pequena bolsa presa nos passadores da sua calça, que parecia ser bem pesada, pois cada uma das pedras de invocação eram arredondadas e levemente menores que ovos de galinha. O rapaz engoliu em seco e continuou caminhando rapidamente, porque se pensassem que o que havia ali dentro era ouro, prata ou até bronze, as coisas poderiam ficar bastante feias para ele (roubos e brigas generalizadas eram bastante frequentes ali, e aconteciam com uma naturalidade absurda, pois ninguém queria se envolver na briga de outras pessoas e para-las).
Landon continuou divagando entre as barracas e observando com curiosidade todas as coisas que estavam expostas alí. Uma bancada cujo a dona era uma senhorinha com um cabelo incrivelmente azul (apesar de ser perceptível que era pintado) vendia uma porção de correntes e amuletos que, segundo ela, serviam para proteção. Outro vendedor tinha velas coloridas grandes, com a cera entalhada em diversos formatos que variavam de caveiras e pássaros à membros masculinos e atos obscenos. Algumas pessoas vendiam coisas bem mais simples, e enquanto continuava caminhando, Landon demarcou mentalmente uma tenda que vendia grossos cobertores e roupas masculinas novas. Ele poderia trocar pelo menos umas duas ou três pedras por aquilo se o comerciante estivesse disposto, pois o rapaz sequer tinha uma moeda de bronze nos bolsos.
Depois de algum tempo, Amon parou em frente a uma tenda que vendia jóias estranhas e pedras que ele não sabia indentificar. Ele pressupôs que se alguém vendia aquilo, deveria comprar para revender também, certo?
— Quero vender essas pedras aqui. — O rapaz disse assim que obteve a atenção do vendedor (um homem que aparentava ter quase quarenta anos, era um pouco gordo e tinha uma pele queimada devido ao sol). O ruivo retirou de dentro do pequeno saco algumas pedras de quartzo e duas obsidiana, colocando-as em cima da bancada, de frente para o homem. Ele fez uma nota mental que se a compra desse certo, Landon teria que ficar pelo menos com uma das pedras, pois era perigoso demais vender todas para a mesma pessoa. E além disso, aquilo havia sido uma herança do seu pai, e ainda trazia boas lembranças do passado. O rapaz tentou imaginar o que o pai acharia do que ele estava fazendo, e apesar de ter tido um apresso imenso por aquelas pedras, iria querer que o filho às vendesse para tentar ter um futuro melhor caso a invocação não desse certo.
— Hum. — O vendedor resmungou ao ver as runas entalhadas nas pedras roliças, claramente arisco em relação aquilo (apesar de não saber ler o que tava escrito, assim como Landon). Mas depois da exitação inicial, o homem pegou uma das pedras e começou à analisa-la. — Onde conseguiu isso, rapaz?
— Herança de família. — O ruivo deu de ombros, um pouco apreensivo.
— Não tenho interesse nas obsidianas. São pedras malignas e atraem coisas ruins. Pode tentar vende-las para alguém que mexe com coisas obscuras, o que não é o meu caso. — Começou o homem rapidamente, descartando as duas pedras negras e levemente transparentes com um gesto de mão e colocando-as um pouco afastadas das outras. — .... Mas os seus quartzos parecem ser de ótima qualidade, não tem impurezas dentro e tem cores bonitas. Posso lapida-los em outros formatos e desfazer esses símbolos estranhos.
— Tenho mais aqui dentro. — Landon começou à retirar as outras pedras de quartzo do saquinho (eram dezesseis ao todo) e coloca-las junto com as outras que já estavam na bancada. Algumas delas possuíam um tom rosado que quase chegava à ser branco, outras eram arroxeadas, azuladas e esverdeadas. Algumas delas possuíam mais de uma cor, e essas eram às que Landon mais gostava.
— Vamos fazer assim, rapaz: eu ficarei com três desses quartzos. Volte daqui alguns dias e caso eu tenha vendido esses, ficarei com o resto. — Declarou o homem, escolhendo cuidadosamente os quartzos que possuíam apenas uma cor (deixando Landon surpreso, pois os bicolores eram definitivamente mais bonitos).
O vendedor estipulou o preço e disse que era a única coisa que poderia pagar pelos quartzos, e como não havia outra opção, Landon aceitou a oferta, enquanto colocava as outras pedras de volta no saquinho amarrado na sua cintura. O homem pagou 3 moedas de ouro e cinco de prata por todas, então o rapaz agradeceu e começou à andar para longe da barraca, pelo mesmo caminho em que viera. Ele fez um cálculo mental rapidamente e descobriu que se vendesse as outras 13 que restavam pelo mesmo preço, conseguiria 48 moedas de ouro e 65 moedas de prata. Aquilo era uma pequena fortuna, e com isso ele poderia comprar uma passagem de barco para outro continente, onde poderia recomeçar sua vida.
Landon estava tão contente enquanto saia do porto e andava de volta pela areia da praia que sequer notou que estava sendo seguido, mas assim que estava perigosamente perto do limite da praia e quase adentrando na floresta, ele percebeu à movimentação a alguns metros de distância, sentindo um calafrio subir pela sua coluna enquanto girava em um ângulo de 180° e encontrava cinco homens parados logo alí, com sorrisos felinos e facas em punho.
— Landon Asher, quanto tempo. Você se esforçou bastante pra se esconder nos últimos meses, não é? — O careca que estava à um passo a frente dos outros disse, encarando o rapaz com um sorriso malicioso que enviou calafrios pelo seu corpo inteiro. Landon conhecia muito bem aquele rosto e lembrava de tê-lo visto espancado seu pai quase que até a morte algumas vezes.
O ruivo engoliu em seco, imaginando que à floresta estava bastante próxima, logo às suas costas. Ele possuía alguns metros de vantagem e conhecia a floresta bem o suficiente para jamais ser pego novamente caso conseguisse chegar até lá, mesmo que estivesse escuro, mas ao lançar um discreto olhar por cima do ombro, Landon percebeu que estava completamente ferrado, porque mais outros três homens deram a volta sutilmente por trás dele e agora estavam entre ele e o limite da praia, cercando-o e o deixando sem ter para onde fugir, a não ser que resolvesse correr para o mar e pular nas ondas um tanto agressivas e frias.
— E-eu tenho dinheiro. — Gaguejou Landon, apontando para o saquinho de pedras amarrado na sua calça e esperando que a mentira lhe desse mais tempo de pensar. O sorriso daquele careca se alargou ainda mais, embora ele não desgrudasse os olhos do rosto de Landon.
— É bom que tenha mesmo, LanLan. Ou vamos ter que cobrar a dívida de outra forma. — Disse ele, fazendo um arrepio de puro terror cruzar o corpo do ruivo, que esperava pelo menos pagar com a sua vida, e não de formas asquerosas e nojentas, como brilhava nos olhos daquele careca imundo.
[•••]
Mamon estava quase cochilando naquela típica cadeira acolchoada e confortável do seu escritório, vestido dessa vez (um habitual conjunto nas cores branco e dourado, como sempre), depois de um dia inteirinho fazendo um monte de... Nada.
Os assuntos da sua gigantesca propriedade não demoravam sequer duas horas para serem finalizados diariamente, então o demônio passava suas outras horas imersas num tédio sem fim. Nos primeiros milênios Mamon contornava esse maldito tédio viajando para várias outras dimensões aleatórias, fodendo e causando conflitos entre os humanos, mas com o passar dos séculos aquilo também estava se tornando tedioso. Houve um tempo em que ele se empenhou em explorar a sua própria dimensão, mas isso também já havia se tornado chatíssimo para ele, pois não havia mais sequer um palmo de terra daquele mundo que ele não conhecesse (as coisas estavam mudando nos últimos tempos, mas nada muito significante).
O grande defeito da imortalidade era justamente aquilo. As coisas se tornavam bobas e insignificantes com uma velocidade surpreendente, e talvez fosse por isso que ele buscava viver novas experiências e sair da sua monótona rotina.
— CHEFEEEEEEE!! — Um grito agudo e estridente de Basilton fez Mamon acordar totalmente em questão de milissegundos, quase pulando da cadeira de susto. O secretário praticamente deu um chute na porta do escritório e entrou correndo, apoiando as mãos nos joelhos enquanto recuperava o fôlego.
— O que foi, Baz? — Ele perguntou, bocejando e quase voltando à dormir novamente.
— S-seu... Seu humano! — Exclamou Baz, arfando profundamente. A simples menção do ruivinho fez Mamon despertar totalmente, voltando sua atenção para o secretário na velocidade da luz. O demônio maior havia pedido para que notícias do humano fossem lhe passadas de vez em quando. Não que eles estivessem exatamente vigiando Landon, mas saberiam caso alguma coisa fora do comum acontecesse com ele, então Mamon faria com que ele encontrasse comida ou o que quer que precisasse de forma discreta, sem entregar que o demônio tinha um envolvimento com aquilo.
— E-ELE... ELE PRECISA DA SUA AJUDA AGORA!! — gritou Basilton à plenos pulmões, fazendo Mamon saltar da cadeira quase que instantaneamente, mergulhando no véu que dividia os mundos e indo ao encontro do curioso humano sem sequer esperar Basilton terminar de explicar.