Eu odiava aquela mansão.
O silêncio.
As paredes escuras.
Os homens armados em cada corredor.
Tudo naquele lugar parecia sujo mesmo sendo luxuoso.
Eu estava sentada na cama enorme do quarto tentando controlar a ansiedade quando ouvi a porta abrir sem aviso.
Martin.
Claro.
Ele entrou já afrouxando a gravata preta como se aquele quarto também fosse dele.
Talvez fosse.
Naquela casa tudo parecia pertencer a ele.
Até o ar.
— Aprendeu a bater na porta na Itália ou isso nunca chegou até você? — falei irritada.
Martin me olhou sem expressão.
— Tá chorando?
Meu sangue ferveu.
— Não.
— Ótimo. Mulher chorando me dá dor de cabeça.
Idiota.
Fechei o livro que fingia estar lendo.
— O que você quer?
Ele tirou o relógio devagar e colocou na cômoda.
Movimentos lentos. Calmos.
Mas perigosos.
— Te explicar as regras.
Revirei os olhos.
— Não sou cachorro.
Martin se aproximou lentamente da cama.
Meu corpo inteiro ficou tenso automaticamente.
Odeio isso.
Odeio como meu instinto reage a ele.
— Primeira regra — ele ignorou minha provocação. — Você não sai dessa casa sem mim.
— Você tá me mantendo presa?
— Sim.
A sinceridade dele me deixou sem palavras por um segundo.
— Você é louco.
— Já ouvi isso antes.
Ele abriu uma gaveta e pegou um maço de cigarros.
Acendeu um sem nem perguntar se eu me importava.
A fumaça invadiu o quarto.
— Segunda regra… — continuou. — Não fala com jornalistas. Não atende ligações desconhecidas. Não posta nada sem autorização.
— Você acha que manda na minha vida?
Martin tragou lentamente antes de me encarar.
— Acho.
Meu maxilar travou.
Arrogante desgraçado.
— E se eu não obedecer?
Ele caminhou até mim devagar.
Meu coração começou a bater errado outra vez.
Martin parou na minha frente.
Perto demais.
— Então eu resolvo do meu jeito.
Arrepiei inteira.
Ódio.
Era ódio.
Precisava ser.
— Você gosta de ameaçar mulheres?
Os olhos dele escureceram um pouco.
— Só as que me desafiam.
Levantei da cama rapidamente.
— Eu não tenho medo de você.
Mentira.
Martin segurou meu braço antes que eu passasse por ele.
Forte.
Quente.
— Para de mentir olhando nos meus olhos, Sereia.
Minha respiração travou.
O jeito que ele falava comigo parecia errado.
Íntimo demais.
Puxei meu braço irritada.
— Para de me chamar assim.
— Não.
— Meu nome é Dulce.
Ele inclinou a cabeça levemente.
— Sereia combina mais.
— Por quê?
O olhar dele desceu lentamente até minha boca.
Meu estômago virou.
— Porque homens se afogam em sereias.
Meu rosto esquentou na mesma hora.
Ódio.
Ódio.
Ódio.
Martin percebeu.
O maldito percebeu.
Um sorriso quase invisível apareceu no rosto dele.
— Interessante…
— Cala a boca.
Ele riu baixo.
Pela primeira vez… um riso real.
Rouco. Bonito.
Perigoso.
Afastei-me imediatamente.
Precisava manter distância daquele homem.
— Vai embora do meu quarto.
Martin terminou o cigarro calmamente.
— Amanhã tem jantar com outras famílias da máfia.
— Não vou.
— Vai sim.
Cruzei os braços.
— Você não me controla.
Em dois segundos ele segurou minha cintura e me puxou contra o corpo dele.
Forte.
Assustador.
Meu corpo bateu contra o peito duro dele.
A respiração falhou imediatamente.
— Escuta aqui, principessa… — a voz dele ficou baixa perto do meu ouvido. — Eu controlo tudo ao meu redor.
Meu coração disparou quando senti a mão dele subir lentamente pelas minhas costas.
— Inclusive você.
Empurrei o peito dele imediatamente.
— Me solta!
Martin me soltou… mas continuou perto.
Muito perto.
Os olhos escuros queimando nos meus.
— Um dia você vai parar de fugir de mim.
— Nunca.
Ele segurou meu queixo devagar.
Dessa vez quase gentil.
O que era pior.
— Veremos.
O silêncio entre nós ficou pesado.
A mão de Martin ainda segurava meu queixo enquanto eu tentava controlar a respiração.
Odeio o efeito que ele causa em mim.
Odeio.
— Para de me olhar assim — murmurei.
O polegar dele deslizou lentamente pela minha pele.
— Assim como?
— Como se eu fosse sua propriedade.
Os olhos escuros ficaram perigosamente calmos.
— Porque você é.
Raiva queimou meu peito.
Empurrei a mão dele com força.
— Eu não pertenço a ninguém!
Martin me observou por alguns segundos.
Frio.
Calculando.
Então deu um passo para trás.
Finalmente.
Respirei melhor no mesmo instante.
Mas ele continuava me encarando daquele jeito intenso e sufocante.
— Você ainda acha que isso é um conto de fadas, Dulce.
— E você acha que pode comprar pessoas.
— Posso.
A resposta veio rápida demais.
Sem culpa.
Sem vergonha.
Meu estômago embrulhou.
— Você é doente.
Martin pegou outro cigarro calmamente.
— E você é ingênua.
Acendeu o cigarro sem tirar os olhos de mim.
— Esse mundo destrói garotas inocentes.
— Então me deixa ir embora.
Ele soltou fumaça devagar.
— Não.
Minha vontade era jogar alguma coisa nele.
Quebrar aquele rosto perfeito.
— Você me odeia tanto assim?
A pergunta escapou antes que eu percebesse.
Martin ficou em silêncio.
A fumaça subindo lentamente entre nós.
— Não.
Aquilo me confundiu.
— Então por que tá fazendo isso comigo?
O olhar dele endureceu.
— Porque preciso.
— Mentira.
Ele ficou imóvel.
— Homens como você sempre têm escolha.
Martin caminhou lentamente até a janela.
As tatuagens aparecendo nos dedos enquanto segurava o cigarro.
— Você não entende como funciona a máfia.
— Então explica.
Ele riu sem humor.
— Você morreria no primeiro dia sabendo metade das coisas que eu faço.
Arrepiei.
O jeito que ele falou parecia real demais.
Pesado demais.
— Tem sangue nas suas mãos, Martin?
Ele virou o rosto lentamente.
Os olhos escuros encontraram os meus.
Silêncio.
A resposta estava ali.
Meu coração afundou.
Meu Deus…
Ele realmente matou pessoas.
Dei um passo para trás sem perceber.
Martin viu.
Claro que viu.
E aquilo irritou ele.
Muito.
Em segundos ele atravessou o quarto.
— Não olha pra mim assim.
Minha respiração falhou quando ele segurou meu braço outra vez.
— Tá me machucando…
Ele afrouxou os dedos imediatamente.
Mas não me soltou.
Os olhos dele queimavam agora.
Raiva.
Algo mais profundo também.
— Você acha que eu gosto do que sou?
A pergunta saiu baixa.
Crua.
Real.
Pela primeira vez… Martin De Luca parecia cansado.
Não c***l.
Cansado.
Aquilo mexeu comigo de um jeito estranho.
Errado.
— Eu não sei quem você é — sussurrei.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois aproximou o rosto do meu lentamente.
Perto demais.
Meu coração disparou outra vez.
— Melhor assim.
A voz rouca arrepiou minha pele inteira.
E então alguém bateu na porta.
Martin fechou os olhos irritado.
— O quê?
— Senhor De Luca… — um segurança falou do lado de fora. — Temos um problema.
O olhar dele mudou na hora.
Frio. Mortal.
O mafioso voltou.
Martin soltou meu braço lentamente.
— Não sai desse quarto.
— Não manda em mim.
Ele abriu a porta.
Mas antes de sair…
Virou o rosto levemente para mim.
— Você ainda não viu meu pior lado, Sereia.