Capítulo 3 | Dulce Maria

1176 Words
Eu odiava aquela mansão. O silêncio. As paredes escuras. Os homens armados em cada corredor. Tudo naquele lugar parecia sujo mesmo sendo luxuoso. Eu estava sentada na cama enorme do quarto tentando controlar a ansiedade quando ouvi a porta abrir sem aviso. Martin. Claro. Ele entrou já afrouxando a gravata preta como se aquele quarto também fosse dele. Talvez fosse. Naquela casa tudo parecia pertencer a ele. Até o ar. — Aprendeu a bater na porta na Itália ou isso nunca chegou até você? — falei irritada. Martin me olhou sem expressão. — Tá chorando? Meu sangue ferveu. — Não. — Ótimo. Mulher chorando me dá dor de cabeça. Idiota. Fechei o livro que fingia estar lendo. — O que você quer? Ele tirou o relógio devagar e colocou na cômoda. Movimentos lentos. Calmos. Mas perigosos. — Te explicar as regras. Revirei os olhos. — Não sou cachorro. Martin se aproximou lentamente da cama. Meu corpo inteiro ficou tenso automaticamente. Odeio isso. Odeio como meu instinto reage a ele. — Primeira regra — ele ignorou minha provocação. — Você não sai dessa casa sem mim. — Você tá me mantendo presa? — Sim. A sinceridade dele me deixou sem palavras por um segundo. — Você é louco. — Já ouvi isso antes. Ele abriu uma gaveta e pegou um maço de cigarros. Acendeu um sem nem perguntar se eu me importava. A fumaça invadiu o quarto. — Segunda regra… — continuou. — Não fala com jornalistas. Não atende ligações desconhecidas. Não posta nada sem autorização. — Você acha que manda na minha vida? Martin tragou lentamente antes de me encarar. — Acho. Meu maxilar travou. Arrogante desgraçado. — E se eu não obedecer? Ele caminhou até mim devagar. Meu coração começou a bater errado outra vez. Martin parou na minha frente. Perto demais. — Então eu resolvo do meu jeito. Arrepiei inteira. Ódio. Era ódio. Precisava ser. — Você gosta de ameaçar mulheres? Os olhos dele escureceram um pouco. — Só as que me desafiam. Levantei da cama rapidamente. — Eu não tenho medo de você. Mentira. Martin segurou meu braço antes que eu passasse por ele. Forte. Quente. — Para de mentir olhando nos meus olhos, Sereia. Minha respiração travou. O jeito que ele falava comigo parecia errado. Íntimo demais. Puxei meu braço irritada. — Para de me chamar assim. — Não. — Meu nome é Dulce. Ele inclinou a cabeça levemente. — Sereia combina mais. — Por quê? O olhar dele desceu lentamente até minha boca. Meu estômago virou. — Porque homens se afogam em sereias. Meu rosto esquentou na mesma hora. Ódio. Ódio. Ódio. Martin percebeu. O maldito percebeu. Um sorriso quase invisível apareceu no rosto dele. — Interessante… — Cala a boca. Ele riu baixo. Pela primeira vez… um riso real. Rouco. Bonito. Perigoso. Afastei-me imediatamente. Precisava manter distância daquele homem. — Vai embora do meu quarto. Martin terminou o cigarro calmamente. — Amanhã tem jantar com outras famílias da máfia. — Não vou. — Vai sim. Cruzei os braços. — Você não me controla. Em dois segundos ele segurou minha cintura e me puxou contra o corpo dele. Forte. Assustador. Meu corpo bateu contra o peito duro dele. A respiração falhou imediatamente. — Escuta aqui, principessa… — a voz dele ficou baixa perto do meu ouvido. — Eu controlo tudo ao meu redor. Meu coração disparou quando senti a mão dele subir lentamente pelas minhas costas. — Inclusive você. Empurrei o peito dele imediatamente. — Me solta! Martin me soltou… mas continuou perto. Muito perto. Os olhos escuros queimando nos meus. — Um dia você vai parar de fugir de mim. — Nunca. Ele segurou meu queixo devagar. Dessa vez quase gentil. O que era pior. — Veremos. O silêncio entre nós ficou pesado. A mão de Martin ainda segurava meu queixo enquanto eu tentava controlar a respiração. Odeio o efeito que ele causa em mim. Odeio. — Para de me olhar assim — murmurei. O polegar dele deslizou lentamente pela minha pele. — Assim como? — Como se eu fosse sua propriedade. Os olhos escuros ficaram perigosamente calmos. — Porque você é. Raiva queimou meu peito. Empurrei a mão dele com força. — Eu não pertenço a ninguém! Martin me observou por alguns segundos. Frio. Calculando. Então deu um passo para trás. Finalmente. Respirei melhor no mesmo instante. Mas ele continuava me encarando daquele jeito intenso e sufocante. — Você ainda acha que isso é um conto de fadas, Dulce. — E você acha que pode comprar pessoas. — Posso. A resposta veio rápida demais. Sem culpa. Sem vergonha. Meu estômago embrulhou. — Você é doente. Martin pegou outro cigarro calmamente. — E você é ingênua. Acendeu o cigarro sem tirar os olhos de mim. — Esse mundo destrói garotas inocentes. — Então me deixa ir embora. Ele soltou fumaça devagar. — Não. Minha vontade era jogar alguma coisa nele. Quebrar aquele rosto perfeito. — Você me odeia tanto assim? A pergunta escapou antes que eu percebesse. Martin ficou em silêncio. A fumaça subindo lentamente entre nós. — Não. Aquilo me confundiu. — Então por que tá fazendo isso comigo? O olhar dele endureceu. — Porque preciso. — Mentira. Ele ficou imóvel. — Homens como você sempre têm escolha. Martin caminhou lentamente até a janela. As tatuagens aparecendo nos dedos enquanto segurava o cigarro. — Você não entende como funciona a máfia. — Então explica. Ele riu sem humor. — Você morreria no primeiro dia sabendo metade das coisas que eu faço. Arrepiei. O jeito que ele falou parecia real demais. Pesado demais. — Tem sangue nas suas mãos, Martin? Ele virou o rosto lentamente. Os olhos escuros encontraram os meus. Silêncio. A resposta estava ali. Meu coração afundou. Meu Deus… Ele realmente matou pessoas. Dei um passo para trás sem perceber. Martin viu. Claro que viu. E aquilo irritou ele. Muito. Em segundos ele atravessou o quarto. — Não olha pra mim assim. Minha respiração falhou quando ele segurou meu braço outra vez. — Tá me machucando… Ele afrouxou os dedos imediatamente. Mas não me soltou. Os olhos dele queimavam agora. Raiva. Algo mais profundo também. — Você acha que eu gosto do que sou? A pergunta saiu baixa. Crua. Real. Pela primeira vez… Martin De Luca parecia cansado. Não c***l. Cansado. Aquilo mexeu comigo de um jeito estranho. Errado. — Eu não sei quem você é — sussurrei. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois aproximou o rosto do meu lentamente. Perto demais. Meu coração disparou outra vez. — Melhor assim. A voz rouca arrepiou minha pele inteira. E então alguém bateu na porta. Martin fechou os olhos irritado. — O quê? — Senhor De Luca… — um segurança falou do lado de fora. — Temos um problema. O olhar dele mudou na hora. Frio. Mortal. O mafioso voltou. Martin soltou meu braço lentamente. — Não sai desse quarto. — Não manda em mim. Ele abriu a porta. Mas antes de sair… Virou o rosto levemente para mim. — Você ainda não viu meu pior lado, Sereia.
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