(POV de Cassian Blackwolf)
Anos de desprezo chegaram com suas consequências.
Rafael estava implacável jogando uma bomba atrás da outra em cima de mim.
— Ela está com uma anemia profunda por sangramento crônico — Rafael concluiu. — Por isso a palidez, as tonturas, a magreza extrema.
Ele fechou a pasta com força.
— Louise não perdeu a loba apenas pela traição, Cassian. Ela perdeu a loba porque o corpo dela não tinha mais energia para manter as duas vivas.
Rafael jogou o tablet sobre a mesa. O som do vidro estalando foi como um tiro no meio do meu peito.
— Olha, Cassian, a Louise não pode continuar no estado de saúde que está. — Meu tio me encarou, os olhos azuis gélidos como os de um carrasco. — Se ela continuar sob essa pressão, ela simplesmente não vai sobreviver.
O ar na sala parecia ter acabado. Eu sentia o cheiro de ozônio e a fúria contida do meu pai ao meu lado.
— Sinceramente, Cassian, deixar seus filhos sem a mãe seria a coisa mais podre que você poderia fazer. — Rafael deu um passo na minha direção, a voz destilando um desprezo que eu nunca tinha ouvido antes. — Eles não merecem pagar o preço do seu orgulho.
Eu tentei falar, mas minha garganta estava fechada, seca como areia.
— Eu sei o que ela fez com você. Eu sei que você a odeia. Eu entendo. — Ele fez uma pausa, apontando para o mosaico de ossos quebrados nas chapas de raio-X. — Mas tente não causar mais danos. Eu não sei quem fez isso com ela, quem a quebrou desse jeito... mas essa mulher já sofreu demais para uma vida só.
Zoe soltou um suspiro trêmulo ao meu lado. Connor permanecia imóvel, como uma estátua de mármore.
— Eu vou investigar esses policiais. — A voz do meu pai, Gabriel, cortou o silêncio como uma lâmina de aço.
Ele estava de pé, a postura de Comandante da Polícia Lupina emanando uma autoridade sufocante. O rosto dele estava vermelho, os punhos cerrados ao lado do corpo.
— Cada um desses chamados que foi ignorado. Cada policial que atendeu e não fez nada. — O rosnado dele vibrou no chão da sala. — Isso é ridículo. Bem debaixo do meu comando? Policiais deixando coisas assim passarem?
Gabriel me olhou, e o julgamento nos olhos dele foi pior do que o soco que ele me deu no corredor.
— Alguém vai pagar por esse silêncio. E eu vou descobrir quem estava protegendo o agressor dela.
Eu olhei para as mãos de Louise nas fotos dos relatórios. Pequenas. Cheias de cicatrizes que eu nunca me dei ao trabalho de notar.
Eu estava tão ocupado odiando a mulher que ela era para mim, que nunca parei para perguntar quem a tinha destruído primeiro.
— O estresse a está devorando por dentro, Cassian. — Rafael fechou a pasta com força. — A úlcera é apenas o corpo dela gritando o que ela sempre calou. Se você a pressionar agora, você não vai conseguir o divórcio.
Você vai conseguir um cadáver.
Caius uivou de novo. Um som de agonia que me fez cambalear.
Todos saímos do hospital em silêncio. Entramos no carro e seguimos caminho.
O som do choro preenchia o interior do carro, sufocante como a fumaça de um incêndio que não podíamos apagar.
Não era apenas Zoe.
No banco de trás, minha mãe, Júlia, soluçava contra a palma da mão. Era um som quebrado, visceral, que rasgava o silêncio daquela madrugada de um jeito que eu não conseguia suportar.
As duas mulheres da minha vida choravam por ela.
Choravam pela dor constante e pelo abuso sistemático que Louise carregou como uma armadura invisível por anos. As imagens das fraturas antigas e daquela úlcera corrosiva pareciam projetadas no para-brisa, assombrando cada quilômetro da estrada.
Eu segurava o volante com tanta força que o couro rangia sob meus dedos.
Meus nós dos dedos estavam brancos, quase sem sangue.
Cada respiração minha parecia um insulto ao ar pesado daquela madrugada.
A imagem das chapas de raio-X de Louise queimava na minha retina como ácido.
Fraturas. Cicatrizes. Abusos.
Uma vida inteira de dor que eu simplesmente escolhi ignorar em nome do meu próprio ódio.
Zoe estava no banco de trás, encolhida, os olhos fixos na estrada escura.
— Eu via os hematomas... — a voz de Zoe saiu como um sopro, carregada de uma culpa tardia.
O cheiro de mel dela, que sempre me acalmava, agora parecia sufocante.
— Mas ela nunca dizia nada... sempre dava desculpas... — Zoe continuou, a voz trêmula, quase sumindo no ronco do motor.
Ela apertava as próprias mãos no colo, como se tentasse segurar os pedaços de uma verdade que não fazia mais sentido.
— Dizia só que bateu em algum lugar. Que foi um tropeço, uma quina de mesa... eu não imaginei que alguém fazia isso.
As palavras de Zoe me atingiram como estilhaços de vidro.
Cada desculpa que ela citava era um prego que Louise martelou no próprio caixão de silêncio para nos poupar.
Ou para se poupar de mais humilhação.
— Ela sofreu calada... por tanto tempo — Zoe sussurrou, e uma lágrima solitária brilhou sob a luz do painel.
Apertei o volante com tanta força que senti o couro ranger.
Meus nós dos dedos latejavam, um eco da violência que Rafael acabara de descrever.
Sete anos.
Desde os sete anos ela era um alvo.
E eu, o Alfa que deveria ver tudo, fui apenas mais um a disparar contra ela.
Caius soltou um ganido baixo no fundo da minha mente.
Um som de humilhação que me fez querer esmagar o acelerador até o fim.
O cheiro de mel de Zoe não conseguia mais me alcançar.
Eu só sentia o cheiro do ferro. Do sangue da Louise.
Do sangue que eu ajudei a derramar com meu desprezo.
— Vamos investigar, amor — Connor repetiu do banco de trás, a voz fria como o aço. — Ela vai ficar bem.
Ele se inclinou, a sombra dele cobrindo parte do meu ombro no retrovisor.
— E o Cassian vai se controlar. Não vai, irmão?
Não era uma pergunta.
Era um aviso.
Um desafio direto de um lobo para outro.
Connor me conhecia.
Ele sabia que a fúria dentro de mim estava prestes a transbordar, e que meu primeiro instinto seria culpar a Louise por ter me feito sentir essa pontada insuportável de remorso.
— Vou — respondi, minha voz saindo rouca, quase irreconhecível.
Mentira.
Eu não tinha controle sobre nada.
As engrenagens da minha mente estavam moendo a imagem daquela mulher saindo do hospital sozinha, sangrando por dentro e por fora.
Eu a odiava. Eu tinha certeza disso.
Mas agora, o ódio estava misturado com algo corrosivo que subia pelo meu estômago.
Eu a deixei ser estraçalhada pelos Rogues enquanto salvava a Zoe.
E, pelo que Rafael disse, eu a estava estraçalhando há cinco anos com cada palavra de desprezo.
Apertei o acelerador. O ronco do motor era o único grito que eu me permitia soltar.
Eu queria liberdade. Eu queria a Zoe.
Mas a cada quilômetro que nos afastava do hospital, eu me sentia mais preso aos segredos de Louise Paradis Belmont.
O "quinto dos infernos" que ela me desejou?
Eu já estava nele. A questão era ela estaria lá comigo no fim?