Capítulo 9 - O RASTRO DO DESPREZO

1852 Words
(POV DE CASSIAN BLACKWOLF) Parei o carro na garagem e o motor morreu, mas o meu sangue continuava a latejar nas têmporas. A primeira coisa que vi foi o vulto branco sob a luz fria do poste. O sofá da sala. A peça de linho caro, imaculada, que Louise escolheu com tanto cuidado, agora estava encostada na lixeira da calçada. Uma placa de papelão grosseira repousava sobre o assento: DOAÇÃO. Senti um soco no estômago. As imagens de Sienna, nua e ofegante sobre aquele mesmo tecido, voltaram como um flash de ácido. Eu tinha trepado com a minha amante naquele sofá. Mais de uma vez. Enquanto Louise estava no andar de cima dormindo, ou cuidando dos nossos filhos, ou apenas fingindo que não ouvia os gemidos. Ela não estava apenas doando um móvel. Ela estava jogando fora o rastro do meu pecado. Apertei o volante até sentir o couro ranger. "Deusa, dai-me paciência", murmurei para o teto do carro, sentindo o suor frio descer pela nuca. Entrei em casa esperando o silêncio de uma tumba. Em vez disso, fui recebido pelo cheiro de comida recém-feita. Temperos. Carne selada. Alecrim. O aroma de um lar perfeito que nunca existiu de verdade. "Como ela fez comida com metade do corpo dilacerado?" De onde ela tirava forças para picar cebolas e mexer panelas com o braço quebrado e o tórax costurado? E como, em nome de todos os ancestrais, ela colocou aquele sofá lá fora sozinha? — Louise! — Minha voz ecoou pelo hall vazio, carregada de uma autoridade que eu tentava desesperadamente recuperar. Ouvi o som de passos lentos no topo da escada. Eram hesitantes, mas carregavam um peso que eu não reconhecia. Uma dignidade nova, forjada em sangue e desprezo. Ela desceu os degraus devagar. Cada movimento parecia um cálculo preciso para não deixar a dor transparecer. Louise estava impossível. Aquela frieza era uma tortura psicológica que eu não estava preparado para enfrentar. Ela não era mais o alvo fácil que eu estava acostumado a humilhar. — O que você está fazendo aqui? — A voz dela saiu baixa, desprovida de qualquer emoção. Eu puxei o ar, sentindo o peito arder. Ergui uma sobrancelha, tentando manter a máscara de Alfa inabalável enquanto a encarava. Os olhos dela... verdes acinzentados. Eu raramente olhava para eles por tempo suficiente para notar a cor. Agora, eles estavam faiscando. Eram brasas vivas em um rosto de mármore pálido. — Eu moro aqui! — respondi, minha voz saindo mais agressiva do que eu pretendia. Meus olhos travaram no braço enfaixado sob a camisola. Mesmo a essa distância, eu conseguia sentir o cheiro do sangue sob as gazes limpas. E o cheiro de dor. Um odor acre, metálico e quente que fazia o fundo da minha garganta queimar. Meu maxilar travou com tanta força que senti os dentes latejarem. Caius rugiu na minha mente, arranhando as paredes do meu crânio para sair e lamber as feridas dela. Eu a odiava. Odiava com cada fibra do meu ser por ela ser o meu erro. Mas isso não significava que eu a queria machucada. Rogues desgraçados. Eles tinham tocado no que era meu. Ela soltou uma risada curta. Fria. Iônica. Um som que cortou o silêncio da casa como uma navalha enferrujada. — É mesmo? Você se lembrou disso agora? A voz dela chicoteou o corredor, fria e desdenhosa. Louise continuava de costas, caminhando em direção à cozinha como se eu fosse um móvel incômodo. — Você está machucada. Precisa de mim. As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse contê-las. Eu era o Alfa. O provedor. O protetor. Mesmo que eu a odiasse, a biologia gritava que ela era minha responsabilidade. Louise parou bruscamente. Ela se virou, me fazendo estancar no meio do corredor. Então, ela riu. Não foi um riso de deboche ou de histeria. Foi uma risada genuína, leve, como se eu tivesse acabado de contar a piada mais engraçada do mundo. Cerrei os punhos, sentindo o couro das luvas esticar. — O que é tão engraçado? — rosnei. Tentei conter a irritação, mas ela parecia determinada a transformar minha paciência em cinzas. — Eu nunca precisei de você, querido. E agora, menos ainda. Ela me encarou com aqueles olhos verdes acinzentados, desprovidos de qualquer brilho de adoração. — Veio fazer as malas? Espero que, pelo menos pelos seus filhos, eu possa ficar na casa. Antes que eu pudesse responder, ela girou nos calcanhares. Louise foi para a pia. Ignorando a agonia que deveria estar sentindo, ela começou a lavar os pratos. Eu não conseguia acreditar no que estava vendo. Ela estava com um braço na tipoia, o tórax costurado, e usava a mão boa para esfregar a louça. O cheiro de sangue começou a lutar contra o aroma da comida. Vi o curativo branco sob a camisola fina começar a manchar de vermelho. O esforço estava abrindo os pontos. — Você enlouqueceu? Por que está fazendo isso? Aproximei-me em dois passos largos, a fúria e uma preocupação que eu me recusava a nomear subindo pela minha garganta. — Está machucada! Não está com dor? Eu a segurei pelo ombro são, tentando puxá-la para longe daquela pia. A reação dela foi um choque elétrico. Louise se afastou bruscamente, um solavanco de repulsa que quase a fez perder o equilíbrio. O rosto dela se contorceu em uma careta de nojo absoluto. — Não encosta em mim! — ela sibilou. O som foi como um tapa. Aquelas quatro palavras me quebraram de um jeito que eu não esperava. Eu nunca fui rejeitado por mulher nenhuma. E ela... logo ela. A mulher que passava as noites em claro me esperando. Lembrei-me das vezes em que ela entrava no meu escritório, com os olhos suplicantes. "Cassian, eu tenho necessidades... sou sua esposa", ela dizia, com a voz embargada. Eu a ignorava com um prazer sádico. "Pois procure na rua. Eu não te quero." Eu nunca correspondi. Nunca dei o calor que ela buscava. Mas sentir aquela repulsa física vinda dela... doeu. Doeu de um jeito corrosivo, como se o ácido da úlcera dela tivesse saltado para o meu próprio peito. — Louise... — tentei dizer, mas o nome morreu na minha língua. Ela respirava com dificuldade, a camisola rosada subindo e descendo sobre os ossos proeminentes do peito. O ódio nos olhos dela era palpável, denso como fumaça. — Seu toque me dá nojo, Cassian. A palavra "nojo" saiu da boca dela como um escarro, lenta e carregada de uma bile que eu nunca imaginei que ela possuísse. — Eu quero que você vá para a casa da sua mãe — ela continuou, sem desviar os olhos da louça ensaboada. — Eu não tenho para onde ir e não vou levar meus filhos para um hotel no meio da noite. Eu tentei falar, mas o ar parecia ter se transformado em chumbo nos meus pulmões. — Vá para a Sienna. Vá para a Zoe. Vá para a mulher que você quiser, mas me deixe em paz. Ela parou de esfregar o prato por um segundo, os ombros magros subindo e descendo em um ritmo irregular de agonia. — Não temos nada para conversar. Só nos falaremos no tribunal. Amanhã mesmo vou dar entrada no divórcio. Ela voltou-se para os pratos com uma teimosia suicida, a mão boa movendo-se com uma lentidão que denunciava o esforço. Eu conseguia ver o suor frio brilhando na nuca dela sob a luz amarelada da cozinha. O peito dela subia e descia em espasmos. Ela estava com dor. Muita dor. Era nítido. Visível. O cheiro de sangue começou a ficar mais forte, suplantando o aroma do alecrim. — Louise, deixe de ser teimosa — minha voz saiu baixa, quase um rosnado de frustração. — Vá se deitar. Você está com dor. Eu dei um passo à frente, as mãos coçando para tirá-la dali à força e carregá-la até a cama. Ela se virou de novo. O rosto dela era uma máscara de frieza que me cortava mais do que qualquer garra de Rogue. — Pare de fingir que se importa. Volte a fingir que eu não existo, Cassian. Ela deu um passo trêmulo na minha direção, o rosto a poucos centímetros do meu. Eu conseguia sentir o calor febril que emanava da pele dela e o hálito com um toque ácido de quem não comia há horas. — Eu não quero e não preciso da sua falsa pena. Guarde-a para as suas amantes. O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo som da água pingando na pia. Ploc. Ploc. Ploc. Eu a encarei, sentindo o peso das chapas de raio-X que vi no hospital esmagando minha consciência. Aquela mulher estava se autodigerindo por minha causa. — Eu não vou embora da minha casa, Louise — respondi, tentando manter a autoridade, embora meu lobo estivesse ganindo de humilhação. — Então eu vou — ela disse, largando o pano de prato com um baque úmido. Ela tentou caminhar em direção à porta, mas o corpo dela finalmente cobrou a conta. Vi os olhos verdes acinzentados revirarem enquanto os joelhos dela cediam. A escuridão a levou antes que ela pudesse dar o segundo passo. Louise pende como uma boneca de pano quebrada. Eu a seguro antes que o impacto com o chão termine o serviço que o Rogue começou. Ela é leve. Assustadoramente leve. Como se fosse feita de vidro e fumaça. O cheiro de ferro inunda minhas narinas, doce e doentio. O sangue quente dela banha meu braço, encharcando a camisola rosada e transformando o tecido em uma mancha escura e voraz. Subo as escadas em passadas largas, o coração martelando contra as costelas. Entro no quarto que evitei por cinco anos. Deito-a na cama. O lençol branco é tragado pelo vermelho no instante em que o corpo dela toca o colchão. Pela primeira vez na vida, eu me deito ao lado dela. Estou exausto. Uma fadiga que vem da alma, moendo meus ossos. Olho para o perfil pálido dela na penumbra e a verdade me atinge como um soco: Ela me odeia. Eu deveria estar feliz. Deveria estar soltando fogos de artifício pela liberdade que ganhei. Mas aquele vazio no peito dela me incomoda mais do que o r***o que o Rogue fez em sua carne. Incomoda mais do que o remorso de ter salvo outra enquanto ela era estraçalhada. Fecho os olhos, tentando fugir do gosto de bile na garganta. O silêncio do quarto é denso, interrompido apenas pela respiração fraca e ruidosa de Louise. Apago por um segundo, mergulhando em um sono pesado e sombrio. Acordo em um sobressalto. Meus sentidos de Alfa disparam como um alarme de incêndio. Há um cheiro novo cortando a penumbra, algo que não deveria estar aqui. Terra molhada. Floresta antiga. Um poder que faz os pelos da minha nuca se arrepiarem de puro terror instintivo. Não é cheiro de Blackwolf. Olho em direção à varanda e meu sangue gela instantaneamente. Um vulto imenso bloqueia a luz da lua contra o vidro, projetando uma sombra monstruosa sobre a cama. Eu não estou mais sozinho com minha esposa moribunda.
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