(POV de Louise Paradis Belmont)
Acordei sentindo algo quente ao meu lado.
Um calor invasivo, sólido, que nunca habitou aquele lado do colchão em cinco anos.
O cheiro veio antes de eu abrir as pálpebras: hortelã gelada e couro caro.
Cassian.
Meu corpo entrou em alerta instantâneo.
Cada nervo gritou sob as gazes, a memória do desmaio na cozinha voltando como um soco.
Ele dormia profundamente, ainda com as roupas de ontem, manchadas com o meu sangue.
Fiquei furiosa.
Minha vontade era empurrá-lo da cama com os dois pés, mas eu não queria acordá-lo.
Não queria ouvir a voz dele. Não queria a caridade de um Alfa que nunca esteve lá quando eu precisei.
Estar ali era um insulto.
Ele nunca dormiu comigo, não importava o quanto eu pedisse, chorasse ou implorasse.
Agora, ele estava ali "querendo cuidar de mim".
Se meus olhos disparassem raios lasers, o rosto pacífico dele teria sido perfurado enquanto ele sonhava.
Me levantei com um esforço sobre-humano.
O sol m*l começava a lamber o horizonte de Costa da Lua.
Cada movimento era uma agulha de fogo no meu tórax.
Fui para a cozinha em silêncio, segurando as paredes para não cair.
Troquei meus próprios curativos.
Era rústico, doloroso, mas eu me recusava a esperar que ele acordasse para me tocar.
O cheiro de antisséptico limpou o ar, mas a dor no estômago continuava lá, um buraco ácido.
Peguei os analgésicos que pedi na farmácia e tomei com um copo de água.
O líquido desceu como brasa.
Comecei a preparar o café da manhã.
Eu precisava dessa rotina. Precisava ser mãe antes de ser uma ferida aberta.
Ouvi passos sonolentos na escada.
Levi e Luther apareceram, com os cabelos bagunçados e os olhos inchados de sono.
Eles correram e me abraçaram pelas pernas, com cuidado, como se eu fosse feita de papel.
— Bom dia, mamãe... — sussurraram em coro.
— Está doendo, mamãe? — Luther perguntou, o rostinho cheio de uma preocupação que nenhuma criança deveria carregar.
Meu peito apertou. Uma dor física, maior que a dos pontos.
— Não, queridos. Não se preocupem. A mamãe é forte.
Forcei um sorriso, engolindo a náusea.
— Sentem na mesa. Estou preparando panquecas, sim?
Eles se sentaram, os olhos fixos em mim, me vigiando como pequenos sentinelas.
Eu estava virando a massa na frigideira quando um barulho na porta principal me tirou a concentração.
Não era a batida de um vizinho. Era firme. Autoritária.
Desliguei o fogo e caminhei até a entrada, ajeitando a camisola fina rosada sobre o corpo debilitado.
Quando abri a porta, a visão me tirou o fôlego.
E não era pela paisagem exuberante de Costa da Lua.
Era o homem parado ali.
Ele era alto, quase da altura da moldura da porta.
Tinha olhos de um azul-cobalto profundo, tão intensos que pareciam ler minha alma.
A pele era morena, contrastando com os cabelos pretos lisos, cortados em um estilo militar rigoroso.
Músculos. Tatuagens. Um maxilar perfeito que exalava perigo e tentação.
Eu perdi a fala. Simplesmente esqueci como se formavam palavras.
— Bom dia, senhora Blackwolf.
A voz dele me inundou.
Era um trovão. Profunda, grossa, uma voz de homem que me arrastou de volta para uma realidade que eu nem sabia que tinha saído.
Por alguma razão, senti que o conhecia. O cheiro dele me atingiu em cheio.
Pinho e café forte.
O cheiro do lobo que me salvou no funeral.
Ele estendeu a mão. Eu estava totalmente abobalhada.
De que paraíso — ou de que inferno — tinha saído aquele homem?
— Eu sou Nikolai Kincaid.
O nome soou como um comando.
— Acabei de ser transferido do Território Norte. Trabalho como Tenente na delegacia.
Minha mão se estendeu automaticamente para cumprimentá-lo.
O toque da pele dele causou uma descarga elétrica que subiu pelo meu braço, fazendo meu coração errar a batida.
Senti meu rosto corar instantaneamente.
Eu estava só de camisola, sob a luz clara da manhã, diante de um estranho que parecia um deus da guerra.
Ele continuou falando, a aura dele emanando o poder de um Alfa dominante.
— Eu vim aqui ver seu estado. Eu estava no funeral da sua irmã e tive o prazer de me apresentar para aqueles desordeiros quando um te atacou e...
— Você me salvou. — Finalmente consegui falar, minha voz saindo um pouco mais firme.
O cheiro de pinho e café forte dele agora fazia sentido. Foi ele.
Ele me tirou das presas do Rogue enquanto o meu marido me ignorava.
Nikolai sorriu para mim.
Um sorriso que não tinha nada de cortesia e tudo de intenção.
— Isso. Eu acabei com aquele lobo marrom.
A voz de Nikolai era uma vibração grave que parecia ressonar dentro do meu próprio peito.
— Meu Deus... que modos são os meus? — A vergonha me atingiu, mas a gratidão foi maior. — Entre, por favor. Eu estou fazendo o café da manhã. Você salvou minha vida, por que não se junta a nós?
Ele hesitou, os olhos azuis-cobalto varrendo o hall de entrada com uma cautela de soldado.
— Não... eu não quero incomodar. Só queria ver o seu estado.
— Que isso, eu insisto. É o mínimo que eu poderia fazer. — minha voz sai com tanta urgência que até eu me surpreendo.
Eu quase o puxei para dentro.
O toque da minha mão na dele disparou uma corrente elétrica que me fez perder o fôlego por um segundo.
Nikolai entrou, sua presença preenchendo o espaço de uma forma que Cassian nunca preencheu.
Ele parou, analisando meu braço enfaixado com uma intensidade técnica.
— Isso parece r**m — ele comentou, a voz baixando um tom.
— É... mas vai sarar. E graças a você eu estou viva. Poderia ter sido muito pior.
Fiz uma careta quando uma pontada ácida atingiu meu estômago, mas forcei o passo.
Ele me seguiu até a cozinha.
Levi e Luther pararam de comer na hora, os olhos arregalados de curiosidade.
— Meninos, esse é o senhor Nikolai Kincaid. Ele salvou a mamãe no ataque ontem.
Os rostos dos meus filhos se iluminaram instantaneamente.
A gratidão neles era pura, desarmada.
— Ah! A gente viu! Você salvou a mamãe, obrigado! — Levi exclamou com um sorriso largo.
Ele era a imagem cuspida do pai: loiro, olhos azuis elétricos, a genética Blackwolf gritando em cada traço.
Luther, mais tímido e parecido comigo, com seus cabelos castanhos e mechas loiras, assentiu.
— Obrigado, senhor Kincaid, por salvar a minha mamãe.
Meu coração se aqueceu de um jeito que eu achei que nunca mais sentiria.
Pelo menos meus filhos me amavam. Pelo menos para eles, eu ainda era importante.
— Foi um prazer, meninos. — Nikolai suavizou a expressão, algo raro em um homem com aquela aura de guerra. — E podem me chamar de Nick.
Ele se virou para mim, o olhar azul queimando minha pele.
— A senhora também.
Corei violentamente.
Passei as mãos pelos cabelos, sentindo o quanto estavam ralos e fracos sob meus dedos.
Eu deveria estar horrível. Magra como uma caveira, pálida, vestindo apenas uma camisola fina diante de um Alfa que exalava perfeição e testosterona.
Aquele homem nunca me olharia de verdade, mas não importava.
— Não me chame de senhora, por favor. Só Louise.
Apontei para a cadeira. — Pode se sentar.
Ele se acomodou próximo aos meninos.
Parecia natural. Nikolai me transmitia algo que eu nunca senti em cinco anos naquela casa: segurança.
Comecei a servir as panquecas, tentando ignorar o tremor nas mãos.
— Então, Louise... — a voz dele cortou o som do café sendo servido. — Enquanto você estava no hospital, eu fiz algumas investigações.
Ele se inclinou para frente, o maxilar travado.
— Acredito que o ataque no enterro da sua irmã não foi aleatório. Foi premeditado.
O bule de café estancou no ar.
Algo dentro de mim estalou.
Apenas dois dias haviam se passado. Eu nem tive tempo de viver o luto de Amélie.
O ódio profundo, aquele que eu vinha sufocando, subiu como lava.
Eu queria vingança. E eu teria.
Sentei-me ao lado dele, entregando seu prato.
— Por que não foi aleatório?
— Houve outro ataque na delegacia quase ao mesmo tempo — Nick revelou, os olhos fixos nos meus. — Acredito que o m******e no funeral foi uma cortina de fumaça para invadirem a central.
Ele fez uma pausa, a aura de Alfa ficando mais densa, perigosa.
— Mas não dá para saber muita coisa ainda. Eu estarei investigando tudo. Pessoalmente. E te mantenho informada.
— O que caralhos está acontecendo aqui?
A voz de Cassian explodiu no topo da escada, um rosnado de posse que fez os vidros da cozinha vibrarem.
— Porque tem a p***a de um macho na minha cozinha?
O cheiro de hortelã gelada desceu como uma avalanche, colidindo violentamente com o aroma de pinho e café de Nikolai. O ar ficou espesso, elétrico.