POV de Cassian Blackwolf
O cheiro de antisséptico e doença me dava náuseas.
Era um odor químico, frio, que parecia grudar na minha garganta como uma película de gordura.
Eu a observava na cama do hospital.
Louise estava pálida, uma mancha quase invisível entre os lençóis brancos.
Os braços estavam marcados pelas contenções de couro, o metal das fivelas brilhando sob a luz fluorescente.
Ela parecia um anjo caído. Ela sempre foi extremamente bela e atraente, isso eu não podia negar.
Mas eu sabia que, por trás daquele rosto de porcelana trincada, morava a ruína da minha vida.
Cada segundo respirando o mesmo ar que ela era uma tortura lenta.
O oxigênio parecia mais pesado, carregado com o peso dos nossos erros.
Louise era o meu erro. Carregando a minha marca. A mulher que me livrava da minha maldição de sangue e era só mesmo tempo
A minha maldição de vida.
O vínculo que deveria ser uma benção era, na verdade, uma coleira de espinhos que me perfurava toda vez que eu tentava me afastar.
Eu a peguei nos braços quando os sedativos fizeram efeito.
O corpo dela era leve, quase sem vida, uma carcaça vazia.
Mas, para o meu espírito, ela pesava como chumbo.
Eu a levei para casa em um silêncio cortante.
O motor do carro era o único som que preenchia o vazio entre nós.
Fingi calma diante dos enfermeiros.
Assinei os papéis com a mão firme de um líder que controla sua casa.
Mantive a postura de Alfa protetor diante da alcateia que nos observava das sombras das árvores.
Se eles soubessem que eu queria apenas deixá-la para trás...
Se sentissem que meu desejo era abrir a porta do carro em movimento e vê-la desaparecer pelo retrovisor...
Eu perderia o trono antes do amanhecer.
Um Alfa que abandona sua Luna em luto é um Alfa destituído.
As leis da alcateia são cegas para o coração, mas implacáveis com a honra.
E eu conquistei esse poder com sangue demais para perdê-lo por causa de uma mulher instável.
Subi as escadas e a deitei no quarto que eu evitava como se fosse uma tumba.
— Como ela está, querido? — Minha mãe perguntou assim que cruzei o limiar da porta da casa dela.
O cheiro de sândalo e cera de abelha da casa de Júlia costumava me acalmar.
Era o cheiro da infância, da segurança.
Mas hoje, tudo parecia impregnado de tragédia e segredos m*l enterrados.
— Está sedada. Coloquei-a na cama.
Minha voz saiu como um estalo de gelo quebrando sob o peso de um passo em falso.
Seca. Sem vida.
— Bom. Será que ela acorda até o horário do enterro?
— Sim. Os médicos falaram que ela está para acordar a qualquer momento.
Júlia suspirou, um som carregado de uma exaustão que ela tentava esconder sob a elegância de sempre.
— Ótimo. Já está tudo organizado — ela disse, voltando-se para os arranjos de flores.
A alcateia não para por uma morte.
O mundo Blackwolf não se permite o luxo do luto prolongado.
A engrenagem continua girando, moendo ossos e sonhos, mesmo quando o chão está coberto de sangue.
Horas depois, o crepúsculo trouxe consigo o manto n***o do funeral.
O casarão estava mergulhado em um mar de tecidos pretos e sussurros que pareciam o rastejar de insetos.
O ar cheirava a lírios mortos e velas de cera.
Uma mistura doce e pútrida que revirava meu estômago de lobo.
Uma grande foto de Amélie sorrindo estava ao lado do caixão de mogno.
Uma coroa de flores brancas tentava, inutilmente, suavizar o horror do que havia acontecido naquela mesa.
Ela era tão jovem.
Um broto que não teve a chance de florescer antes de ser cortado pela própria mão.
A morte dela era uma ferida aberta no flanco da nossa alcateia.
Caminhei pelo salão com Louise presa ao meu braço.
Ela estava pálida, os olhos como dois buracos negros em um rosto de mármore.
Movendo-se como um fantoche cujas cordas estavam prestes a arrebentar a qualquer instante.
Olhei para ela de relance.
O ódio pulsou nas minhas veias, quente e ácido.
Uma parte escura e doente de mim desejou profundamente que fosse ela naquele caixão.
Não a irmã.
Se fosse Louise ali, eu estaria livre.
A maldição teria fim.
Caius, meu lobo, soltou um rosnado baixo de desaprovação no fundo da minha mente.
Ele não compartilhava do meu ódio humano.
Para ele, ela ainda era a fêmea marcada.
A dor dela fazia Caius ganir, arranhando as paredes do meu subconsciente.
Eu o silenciei com um comando mental brutal, sufocando os instintos do meu lobo com o meu próprio desprezo.
Sentamos nas cadeiras de veludo bem à frente do caixão.
Amélie parecia apenas dormir. Linda. Perfeita.
A maquiagem pesada encobria o r***o hediondo no pescoço.
Mas o pó de arroz não conseguia abafar o cheiro metálico do sangue que ainda parecia emanar da madeira.
Era uma visão angustiante. Uma mentira esculpida em cera.
Sentei-me ao lado de Louise, sentindo o calor do corpo dela como se fosse um insulto à minha pele.
Eu só estava ali, suportando a proximidade sufocante daquela mulher, por causa dos meus filhos.
Levi e Luther estavam aos prantos.
Seus rostos pequenos estavam escondidos nas mãos, os ombros sacudindo em soluços silenciosos.
A dor deles era o único fio que ainda me ligava a essa farsa de casamento.
O único motivo pelo qual eu ainda não tinha deixado Louise para trás.
Eu era o Alfa. Tinha um papel a cumprir diante de centenas de olhos que julgavam cada movimento meu.
Mesmo que cada célula do meu corpo quisesse gritar.
Mesmo que eu preferisse estar em qualquer outro lugar do mundo.
De preferência, com Zoe.
Na recepção, o teatro finalmente teve um intervalo.
Eu não precisava mais fingir que me importava com o apoio físico de Louise.
Deixei-a para trás, uma estátua pálida cercada familiares dela que m*l falavam, nem eles gostavam dela.
Meus filhos estavam seguros, grudados em minha mãe, e eu finalmente pude respirar.
O ar parecia mais leve conforme eu me afastava da Luna Pária.
O cheiro me encontrou antes que eu pudesse vê-la.
Mel e floral. Doçura e luz.
Zoe.
O amor da minha vida. Meu primeiro, único e verdadeiro amor.
Estar perto dela era como encontrar o norte em meio a uma tempestade de neve.
Era o único momento em que o peso da coroa não parecia quebrar meu pescoço.
Eu estava ali, parado entre ela e Connor, meu irmão gêmeo.
Connor me olhava, mas eu m*l conseguia focar nele.
Toda a minha biologia gritava para que eu tocasse em Zoe, para que eu a tomasse para mim.
Eu tentava ignorar a dor lancinante que o vínculo com a Luna errada me causava.
Era como ter um m****o fantasma sendo constantemente torturado.
— Como você está, irmão? — Connor perguntou, a voz carregada de uma preocupação que eu não merecia.
Ele era meu espelho físico, mas seus olhos não carregavam a lama que cobria os meus.
— Estou bem na medida do possível — menti, a palavra saindo amarga da minha boca.
Connor não sabia do meu caso com Sienna.
Acredito que nosso pai, o Comandante Gabriel, preferia manter meus pecados em segredo.
A estabilidade da linhagem Blackwolf dependia de silêncios bem guardados.
Zoe me lançou um olhar de pena.
Aquela compaixão silenciosa me cortava inteiro, mais dolorosa do que qualquer soco que meu pai já me deu.
Eu não queria a piedade dela. Eu queria a alma dela.
Eu queria que ela visse o Alfa, não o marido infeliz.
Então, o ar mudou de forma drástica.
O perfume de mel e flores de Zoe foi violentamente sufocado por um odor de morte.
Carniça. Mato podre. Sangue velho.
Um rosnado gutural, carregado de uma fúria ancestral que fazia os pelos do corpo arrepiar, rasgou o silêncio do funeral.
Caius se ergueu dentro de mim com uma força devastadora.
Minhas garras começaram a latejar sob a pele, querendo rasgar o tecido fino do meu terno.
O cheiro de lobos errantes, os lobos sem honra, sem alcateia, penetrou o salão como uma fumaça tóxica.
Eu e Connor ficamos alerta no mesmo milésimo de segundo.
Nossos instintos de Alfa assumiram o controle, drenando toda a humanidade dos nossos rostos.
— ROGUES! — Alguém gritou do fundo do salão.
O caos explodiu como uma bomba de fragmentação.
Os vidros das janelas altas estouraram para dentro, transformando-se em projéteis de cristal.
O som de garras arranhando o mármore polido ecoou como tiros em um beco estreito.
Gritos de terror substituíram os cânticos fúnebres.
Meu primeiro instinto não foi procurar a mãe dos meus filhos. Mesmo que meu lobo puxasse para ela.
Não foi olhar para a mulher que acabara de enterrar a própria irmã e que agora estava no centro do perigo desprotegida.
Meus olhos travaram em Zoe.
Apenas nela.
Meus pés se moveram por conta própria, movidos por uma necessidade biológica que Louise nunca despertou.
Empurrei Connor para o lado com um ombro, ignorando qualquer protocolo ou dever.
Eu precisava ser o escudo dela.
Eu precisava sentir que ela estava segura sob meu domínio.
Se o mundo estava prestes a queimar...
Se o funeral de Amélie ia se transformar em um campo de abate...
Eu garantiria que Zoe não sentisse o calor das chamas.
Atrás de mim, no meio do salão em ruínas, Louise estava sozinha.
Mas eu não me virei para ver.
O amor da minha vida estava em meus braços, e isso era a única coisa que importava enquanto as feras pulavam pelas janelas quebradas.