CAPÍTULO 4 - O SANGUE DOS INOCENTES

1614 Words
(POV LOUISE PARADIS BELMONT) Eu falhei com ela e os demônios a levaram. Olhar para minha irmã naquele caixão me fazia querer estar nele. Eu trocaria de lugar com Amélie de bom grado, apenas para não ter que respirar o ar pesado desse salão fúnebre que cheirava a flores, morte e arrependimento. O peso do braço de Cassian ao meu lado era a única coisa que me mantinha de pé, mas a ilusão de apoio durou pouco. Assim que cruzamos o umbral do salão, ele me soltou. O movimento foi brusco, quase instintivo. Cassian se afastou como se eu fosse uma doença contagiosa, algo impuro que ele precisava expelir da sua pele o mais rápido possível para não contaminar sua perfeição de Alfa. Meus dedos ainda buscaram o calor do tecido do seu terno, mas eles só encontraram o vazio gélido. Seus olhos azuis elétricos não buscaram os meus para oferecer um milímetro de conforto. Eles varreram o salão com uma urgência faminta até encontrarem Zoe. Senti o golpe no estômago, mais forte que qualquer agressão física. O luto não era desculpa para a crueldade dele; era apenas o palco onde ele escolheu me destruir novamente. Fui deixada para trás, à mercê dos monstros que vestiam roupas de grife e sorrisos de condolências. Meu padrasto, Eduardo Valença, encaminhou minha mãe em direção a uma cadeira como se ela fosse uma boneca de brinquedo cara que ele acabara de adquirir. Geneviève estava destruída. O rosto dela, antes impecável, era uma máscara de desespero e palidez. Eduardo a pegou pelo braço, um gesto que parecia carinhoso para os convidados, mas que eu sabia ser pura posse. Ele a sentou em uma cadeira de veludo com uma firmeza desnecessária, silenciando o pranto dela com um único olhar gélido que dizia: comporte-se. Geneviève estava quebrada, e Eduardo parecia se deliciar com a fragilidade dela, mantendo-a sob seu controle absoluto enquanto ela enterrava a filha caçula. Tentei me aproximar dos meus filhos, mas Levi e Luther já corriam para os avós, buscando o porto seguro que eu não conseguia ser naquele momento. Fiquei ali, parada no centro do meu próprio isolamento, enquanto Cassian dava as costas para o caixão da cunhada e seguia em direção à mulher que ele realmente amava. — Você está cada vez mais patética, Louise. A voz veio carregada de uísque e um veneno que eu conhecia bem demais. Virei o rosto devagar e o ar fugiu dos meus pulmões. O pavor rastejou pela minha espinha como uma serpente de gelo. Max Valença estava encostado em uma coluna de mármore. O terno perfeito, n***o e caro, moldava seu corpo atlético com uma precisão insultante para um funeral. Ele segurava um copo de cristal, o líquido dourado balançando enquanto ele me analisava de cima a baixo com um desprezo que queimava. Max era a imagem de um anjo da morte. A pele morena clara, o rosto esculpido e os cabelos negros lisos, levemente ondulados, faziam dele o centro das atenções. Mas eu via além da fachada. Eu via os olhos dele. Negros como a escuridão absoluta que sempre me dava calafrios e me lembrava do que acontecia quando as portas se fechavam. Ele riu no meu ouvido, aquela risada c***l que me dava pesadelos. — Sua irmã acabou de morrer e você está aí, chorando por um macho que nunca te quis — ele murmurou, dando um gole lento no uísque. — É humilhante até de assistir. Você não tem um pingo de dignidade? Eu me encolhi, as unhas cravando nas palmas das mãos até sentir a pele rasgar. Eu queria gritar. Queria dizer a todos que ele era um demônio por trás de toda aquela beleza. Mas eu não podia. Se eu falasse, o inferno que ele criou era capaz de criar tornaria o destino de Geneviève e dos meus filhos. Fingi demência. Olhei para o chão, focando na poeira sobre o mármore, agindo como se ele fosse apenas o filho arrogante do meu padrasto. Um irmão postiço inconveniente. Nada mais. — Vá para o inferno, Max — sussurrei, a voz trêmula, quase inaudível. Ele deu um passo à frente, invadindo o meu espaço pessoal de forma agressiva. O cheiro de tabaco caro e perigo emanava dele, sufocando o perfume dos lírios. — O inferno é aqui, irmãzinha. E eu sou o dono das chaves. Pare de sujar a imagem da nossa família Louise, ele nunca foi seu e nunca será! Ele sorriu, um movimento c***l que não chegou aos olhos sombrios. Max parecia se alimentar da minha dor, saboreando cada lágrima de humilhação que escorria pelo meu rosto. Olhei para o caixão de Amélie. O rosto dela estava pálido, sereno de uma forma que nunca foi em vida. Ela estava livre das garras dos seus algozes. E eu ainda era a prisioneira que precisava baixar a cabeça e agir como se tudo estivesse bem para não perder o que me restava. Foi então que o silêncio do luto foi estilhaçado. O vidro das janelas altas não apenas quebrou; ele explodiu. Cacos de cristal voaram pelo salão como estilhaços de uma granada de fragmentação, brilhando sob as luzes dos lustres antes de atingirem o mármore. O som foi um trovão ensurdecedor que cortou o ar e a carne. O cheiro doce de Geneviève foi sufocado pelo odor pútrido de carniça, mato molhado e sangue velho. Rogues. O pânico se tornou uma massa física e sufocante. As pessoas se atropelavam em uma luta desesperada pela saída. Cadeiras de veludo eram arremessadas como brinquedos de palha. Vi Gabriel Blackwolf agir com a precisão de um Comandante. Ele segurou Levi e Luther sob os braços, protegendo o futuro da alcateia. Júlia flanqueava-os com uma adaga de prata, os olhos brilhando com a promessa de morte a qualquer invasor. Eles estavam indo para as rotas de fuga seguras. Meus filhos estavam a salvo. Eu, porém, continuei esquecida no meio do fogo cruzado. Cassian não hesitou. O terno de linho preto se desfez em trapos enquanto o lobo cor de trigo emergiu, imenso, letal e majestoso. Ele rosnou, um som gutural que fez o chão de mármore vibrar sob meus pés descalços. Mas ele não rosnou para me proteger. Cassian posicionou seu corpo maciço entre Zoe e os invasores que saltavam pelas janelas. Ele a defendia com uma ferocidade possessiva que eu, sua esposa marcada, nunca conheci em cinco anos de desprezo. Max Valença, do outro lado do salão, apenas observava tudo com um sorriso macabro, sem largar o copo de uísque. Ele nem sequer se transformou; ele sabia que o caos não ousaria tocá-lo. Um lobo marrom-escuro, com os olhos injetados de loucura assassina, saltou sobre mim. O impacto foi brutal, me jogando contra o que restava dos arranjos fúnebres de Amélie. Os espinhos dos lírios rasgaram minhas costas antes que eu sentisse a mandíbula enorme travar no meu braço esquerdo. *Croc.* O estalo seco do osso cedendo sob a pressão da mordida foi a coisa mais alta que já ouvi na vida. — NÃO! — O grito de terror puro rasgou minha garganta antes que as presas perfurassem meu tórax, buscando meu coração. A dor era uma brasa líquida paralisando meus nervos e subindo pelo meu sistema nervoso. O Rogue sacudia a cabeça violentamente para os lados, rosnando, tentando arrancar o pedaço de carne que prendia entre os dentes. Eu sentia minha vida escorrer, quente e metálica, ensopando o vestido de luto que eu usava pela minha irmã. Olhei para Cassian uma última vez. Ele estava matando um Rogue perto de Zoe, protegendo o ar que ela respirava. Ele não olhou para trás. Ele não ouviu o meu osso quebrando. A morte estava vindo buscar a outra irmã Belmont. Então, um trovão n***o atingiu o lobo marrom. Um segundo lobo surgiu do nada. Pelos negros como a noite mais profunda e olhos que brilhavam como brasas infernais. Ele chocou-se contra o meu agressor com a força de um trem descarrilado. O impacto libertou meu braço quebrado. Caí no mármore frio e sujo de sangue, tossindo o líquido vermelho que inundava minha boca. O lobo n***o não deu espaço para o inimigo. Ele avançou com precisão cirúrgica, cravou os dentes na nuca do Rogue e girou o corpo com uma força bruta. O som do pescoço do invasor quebrando ecoou como um galho seco se partindo ao meio. Morte instantânea. O lobo n***o parou sobre o cadáver. O peito subindo e descendo. Os olhos fixos em mim. Ele parecia uma divindade sombria surgida do caos para me cobrar uma dívida ou me oferecer um milagre. Tentei levantar a cabeça, lutando contra a tontura da perda severa de sangue. Lá longe, entre a fumaça e os destroços do funeral, vi o lobo cor de trigo. Cassian ainda estava circulando e protegendo Zoe, limpando o sangue do focinho no carpete sem nunca olhar na minha direção. Ele nem sequer buscou saber onde eu estava enquanto eu sangrava no chão. Max Valença, de pé perto da coluna, ergueu o copo de uísque para mim em um brinde silencioso e macabro. Ele venceu. Amélie estava morta e eu estava morrendo, e o meu segredo morreria comigo sob os escombros daquele salão. A escuridão começou a puxar minhas bordas, fria, pesada e finalmente acolhedora. Toda a dor, o ódio de Cassian e a ameaça de Max começaram a desaparecer na névoa. Entendi que o sangue de um Blackwolf nunca seria o suficiente para me manter inteira. A morte finalmente me levou. A morte, que havia levado minha irmã a apenas um dia, agora era meu único descanso. E eu a abracei como uma velha amiga, pronta para o silêncio que ninguém mais poderia estilhaçar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD