POV de Louise Paradis Belmont
O gosto da bile era ácido.
Eu estava encurvada, meu vômito manchando o tapete caro da entrada.
Minhas mãos tremiam contra o piso frio.
Eu ainda sentia o calor úmido do sangue de Amélie entre meus dedos, misturando-se à sujeira.
— Cassian... — o grito de Júlia não foi um chamado.
Foi uma condenação.
Ele se afastou de Sienna com uma lentidão insultuosa.
Não havia pressa. Não havia um pingo de vergonha em seus olhos azuis elétricos.
O cheiro de suor e sexo inundava a sala.
Abafando o cheiro de ferro e morte que eu trouxera comigo na pele.
Sienna Donavan tentou se cobrir, o rosto pálido.
Ela era minha melhor amiga. A única que não havia me abandonado.
Agora eu entendia o porquê de forma dolorosa.
Eu sabia que ele poderia estar com outra.
Mas com ela?
O grito de Júlia atraiu a pior pessoa que Cassian poderia querer ali.
A luz do corredor foi bloqueada por uma parede de músculos e autoridade.
A sombra do Alfa Comandante, Gabriel Blackwolf, parou atrás de mim em segundos. O Pai dele.
O ar na sala pareceu triplicar de peso.
— O QUE CARALHOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO, CASSIAN?
O rugido dele me fez estremecer até os ossos.
O som vibrou no meu peito, fazendo minha loba ganir de pavor lá no fundo do meu vazio.
Eu continuei no chão. Banhada no sangue da minha irmã.
Assistindo ao fim do que restava da minha dignidade.
A sala explodiu em um rugido que fez os vidros das janelas vibrarem.
Gabriel estava vermelho. A fúria de um Alfa Comandante transbordava dele como lava.
— COMO VOCÊ PODE SER TÃO IMPRUDENTE? VOCÊ É O ALFA DESTA ALCATEIA, CASSIAN!
Eu ouvia as palavras, mas elas chegavam abafadas, como se houvesse quilômetros de água entre mim e eles.
Minha mente estava presa no brilho da faca de Amélie.
Cassian permanecia inabalável.
Ele não me olhava com preocupação. Ele me olhava como se eu fosse um defeito no seu cenário perfeito.
— Pelo amor da Deusa, você poderia me explicar isso? — Júlia questionou, a voz trêmula de choque. — Como você pode fazer algo assim com sua mulher?
Cassian soltou um riso sombrio. Um som seco, sem qualquer traço de humanidade.
— Mulher? Isso aí é a minha maldita maldição.
Ele apontou para mim, o dedo rígido carregado de asco.
— É a minha bola com correntes. E por que diabos ela está encharcada de sangue?
Eu estava no chão. Ocupando o centro da minha própria ruína.
O sangue de Amélie estava secando na minha pele, tornando-se uma crosta fria e rígida.
O cheiro do meu próprio vômito se misturava ao perfume de Sienna que ainda pairava no ar.
Eu era a personificação do nojo. Uma mancha no tapete caro.
Júlia se aproximou.
Houve um tempo em que ela me defendeu. Em que me acolheu como a mãe que eu nunca tive.
Mas isso foi antes de ela descobrir o que eu fiz com o filho dela.
Agora, eu era apenas um estorvo. Uma falha que ela era obrigada a carregar.
Ela me segurou pelos braços e me ergueu.
Seus dedos apertaram minha pele com uma firmeza impessoal.
— Vamos, querida. Eu levo você até o banheiro.
Ela se virou para o marido, os olhos faiscando.
— Coloque juízo na cabeça dele, pelo amor da Lua.
Passamos por eles.
O olhar de Cassian me seguiu, destilando um veneno que parecia queimar minha pele.
— O que foi que essa coisa aprontou para estar desse jeito? — ouvi-o perguntar ao pai.
Gabriel explodiu.
O movimento foi um borrão de velocidade e força sobrenatural.
Ele prensou Cassian contra a parede. O som do impacto foi como o estalo de uma viga quebrando.
— QUE MERDA DE HOMEM VOCÊ SE TORNOU, CASSIAN? — o rugido de Gabriel fez meus dentes vibrarem. — Trepando com outra bem na sua casa? Como você ousa? E se seus filhos vissem isso?
Cassian o empurrou, recuperando o equilíbrio com um sorriso debochado nos lábios.
— Como se você tivesse alguma moral para falar comigo sobre ser um bom homem.
Ele riu pro pai, os olhos azuis faiscando de escárnio.
— Já se esqueceu de tudo o que fez com a mamãe?
O soco de Gabriel veio como um tiro.
O estalo do osso encontrando a mandíbula ecoou pelo corredor.
Cassian desabou no chão, atordoado.
O Alfa da alcateia estava caído aos pés do pai, enquanto eu era arrastada para o andar de cima.
Eu ainda sentia o peso do sangue de Amélie.
E, pela primeira vez, eu desejei que ele me afogasse de vez.
A água estava gelada.
Eu não sentia o frio. Eu não sentia o toque das mãos de Júlia esfregando meus braços com uma esponja áspera.
Eu era apenas uma boneca de carne.
Observando, de fora do meu próprio corpo, o vermelho escorrer pelo ralo.
O sangue de Amélie se misturava à espuma do sabonete.
Um redemoinho rosa que desaparecia na escuridão do cano.
Júlia não dizia nada.
Seus movimentos eram eficientes, mecânicos.
Ela me secou, me vestiu com algo limpo e me guiou de volta para a sala.
O sofá branco.
Aquele que eu escolhi com tanto cuidado para a entrada da nossa casa.
Sentei-me exatamente onde, minutos antes, o suor de Sienna e Cassian havia manchado o tecido.
O cheiro dela ainda estava ali.
Doce. Floral. Um veneno invisível impregnado nas fibras.
Júlia se ajoelhou no chão.
Ouvi o som do pano sendo torcido no balde.
Ela limpava o meu vômito e o rastro do sangue da minha irmã.
Cassian estava sentado na poltrona à frente.
Sienna havia sumido.
Ele não tinha mais a arrogância de antes. A fúria dera lugar a uma confusão oca.
— Por que a Amélie se mataria? — a voz dele saiu baixa.
Pela primeira vez em anos, o ódio habitual não estava lá. Havia apenas o peso do inexplicável.
Eu não respondi.
Meus olhos eram dois vidros fixos no vazio.
— Eu não sei — ouvi a voz de Gabriel.
Ele estava de pé, as mãos nos bolsos, a autoridade abalada pela tragédia.
Ambos se viraram para mim. Senti o peso dos olhares, mas eu estava fundo demais.
Soterrada sob camadas de choque e silêncio.
— Louise... — Gabriel se inclinou. — Você sabe por que sua irmã fez isso?
O silêncio na sala era tão denso que eu podia ouvir a poeira dançando na luz.
Eu não conseguia falar.
Minha língua era um pedaço de madeira morta na boca.
Júlia soltou um suspiro profundo, levantando-se com o balde na mão.
— Ela não vai responder. Ela está em estado de choque, vocês não estão vendo?
Ela me olhou com uma piedade que doía mais que o nojo.
— Algum de nós deveria ver como estão Levi e Luther. Eles viram tudo...
— Não se preocupe — Gabriel informou, a voz tentando recuperar o controle. — Zoe e Connor estão com eles. Estão amparando os meninos.
O nome dela foi o primeiro estalo de realidade que atravessou meu nevoeiro.
Zoe.
A mulher perfeita.
A Luna que eu deveria ser.
A sombra que Cassian usava para me açoitar todos os dias.
Meus filhos estavam com ela.
Minha loba, que eu acreditava estar morta, soltou um ganido baixo e perigoso no fundo da minha alma.
Eu podia estar quebrada.
Eu podia estar coberta pelas cinzas da minha irmã.
Mas ouvir que meus filhos estavam sendo "amparados" pela mulher que meu marido amava...
Aquilo não era conforto.
Era a minha tortura diária.
O sol começava a se pôr, pintando o horizonte de um laranja doentio.
As sombras se esticavam pelo chão da sala, como dedos escuros tentando me alcançar.
Ouvi o som de passos pequenos.
Levi e Luther entraram correndo, seguidos por Connor e Zoe.
Meus filhos pararam ao ver o rastro de sangue e vômito no tapete.
O silêncio deles foi o que mais doeu.
Zoe deu um passo à frente, o rosto cheio de uma preocupação genuína.
Mas meus olhos não pararam nela.
Um vulto parou na soleira da porta.
Envolto nas sombras do entardecer, ele apenas ficou ali.
Imóvel.
Sorrindo.
Senti meus pulmões colapsarem.
O ar parou na minha garganta, seco e áspero.
Arregalei os olhos, puxando o oxigênio com tanta força que meu peito estalou.
Foi o som de alguém subindo à superfície após um naufrágio.
Um suspiro de morte que fez todos na sala pararem de respirar.
Minha loba uivou de agonia dentro do meu vazio.
— NÃO! COMO VOCÊ PODE? — O grito rasgou o ar, cru e violento.
Zoe se sobressaltou, recuando um passo, as mãos no peito.
— Calma, Lou... eu só estou tentando ajudar...
Eu não a ouvia. Eu não a via.
Meus olhos estavam travados na sombra atrás dela. No demônio que me encarava com diversão.
— VOCÊ ME PROMETEU! — Eu urrei, tentando me levantar, as unhas cravando no sofá.
— SEU MALDITO! VOCÊ ME PROMETEU QUE NÃO A MACHUCARIA!
O pânico transbordava de mim como o sangue de Amélie.
Eu apontava para a escuridão da porta, meus dedos tremendo de forma espasmódica.
— Pra quem você está olhando, p***a? — Cassian rugiu, me segurando com uma força que quase deslocou meus ombros.
Ele me segurou com medo que eu estivesse tentando atacar Zoe, mas eu gritava pra quele maldito nas sombras.
— Tá vendo fantasma agora? Não tem ninguém ali!
— MALDITO! VOCÊ DISSE QUE ELA ESTARIA SEGURA! Eu me debatia, espumando de pavor, enquanto o homem na sombra apenas inclinava a cabeça.
Ele sabia que, para os outros, eu era apenas a Luna lunática tendo um surto psicótico.
— Ela perdeu a cabeça de vez — ouvi a voz de Gabriel, pesada como uma lápide.
— Chamem a ambulância! — Júlia ordenou, protegendo os meninos que choravam. — Ela vai precisar ser sedada. Agora!
— NÃO! ME LARGA! EU VOU MATAR VOCÊ! VOCÊ VAI PAGAR POR ISSO! Mas a escuridão já estava vindo.
Não a do sedativo, mas a do segredo que acabara de ser selado com a morte da minha irmã.
O monstro na porta me deu as costas, sumindo no crepúsculo.
E ele levou comigo a única prova de que eu ainda era sã.