(POV DE CASSIAN BLACKWOLF)
O asfalto gritava sob os pneus enquanto eu rasgava as ruas em direção ao Edifício Mirante.
Minha mente era um borrão de fúria. A reação de Louise ao ouvir o nome de Alyssa no rádio não saía da minha cabeça. Como ela sabia? Por que aquele pavor puro antes mesmo da confirmação?
Estacionei de qualquer jeito, jogando a viatura sobre a calçada. As luzes azuis e vermelhas ricocheteavam nos vidros do prédio, criando um espetáculo macabro sob o céu n***o de Costa da Lua.
O cheiro me atingiu antes mesmo de eu abrir a porta. Sangue fresco, ozônio e a fumaça de um cigarro que não deveria estar ali.
Os pais da menina já estavam no local. O corpo, coberto pelo saco preto, era uma mancha escura que parecia sugar toda a luz do pátio. Uma cena dolorosa que fedia a desperdício.
Meu irmão Connor chegou logo depois. Caminhamos em direção a Ryler Blackwolf, meu Beta e braço direito.
— Ryler, qual a situação? — rosnei.
— Alyssa Mendes, 18 anos. Ela pulou do 21º andar...
— Isso está muito estranho — Connor interveio, a voz sombria. — Não tem nem dois dias que a melhor amiga dela cometeu suicídio na festa de 18 anos.
— Sim. Hoje Alyssa completou dezoito — Ryler murmurou.
Então, eu senti a mudança no ar. Uma pressão invisível, densa e arrogante, colidiu com a minha aura de Alfa.
Nikolai Kincaid caminhou em nossa direção.
Eu travei o maxilar, o gosto de bile subindo pela garganta ao ver o homem que entrara na minha cozinha naquela manhã.
— Não há marcas de traumas ou de que ela tenha sido forçada — Nikolai falou, a voz polida demais. — Com certeza foi suicídio.
Eu bufei, a fúria vibrando nas minhas costelas.
— É mesmo, Sherlock? Você já quer fechar a investigação só de olhar de relance?
Minha voz escorria sarcasmo. Eu não gostava desse cara. Algo nele cheirava a segredo, a coisa errada escondida sob o uniforme.
Connor estreitou os olhos. A hostilidade dele era quase palpável, uma promessa de violência.
— E quem é você? — Connor perguntou, a voz como um trovão baixo.
Kincaid olhou para o meu irmão com a mesma insolência desdenhosa que usara comigo.
— Nikolai Kincaid. Acabei de ser transferido do Norte. Vim para trabalhar como tenente e atendi o chamado.
Connor se inclinou na direção dele, os olhos azuis faiscando.
— Vocês já se conhecem? — meu irmão perguntou.
— Sim... — murmurei, as palavras pesando como chumbo. — Foi ele quem salvou a Louise do ataque no funeral da irmã dela.
Só de admitir aquilo, senti o chão ceder. Cada vez que olhava para Kincaid, eu via o meu próprio fracasso. O Alfa que não protegeu a fêmea.
Aproximei-me dele, expandindo meu poder até que o ar ao redor ficasse pesado demais para respirar.
— Fique longe da minha casa e da minha família, Kincaid — sibilei no ouvido dele. — Ou você vai se arrepender de ter entrado em território Blackwolf.
Nikolai nem piscou. Ele continuou ali, com aquele ar arrogante de quem não teme a morte.
Virei-me para falar com os pais da menina, mas meus ouvidos captaram o sussurro dele para Ryler logo atrás de mim.
— Eu não entendo. Ele é o Alfa da maior alcateia do mundo. Por que está trabalhando de policial?
O rosnado de **Caius** rasgou meu peito. Girei sobre os calcanhares.
— O que eu faço ou deixo de fazer não é da p***a da sua conta, Kincaid! Faça o seu serviço e pare de se meter na minha vida!
Entrei no SUV, batendo a porta com força. O ronco do motor era o único som capaz de abafar o caos na minha cabeça.
A pergunta do desgraçado parecia morder minhas nádegas a cada quilômetro.
"Porque trabalhar de policial se já é o Alfa da maior alcateia do mundo?"
Bufei sozinho, apertando o volante até o couro gemer.
Simplesmente porque eu desprezo tanto a mulher com quem fui obrigado a casar que preciso de dois empregos para não ficar no mesmo ambiente que ela.
Eu precisava do sangue e do caos das ruas para não ter tempo de respirar o ar daquela mansão. O ar dela.
Mas o silêncio da cabine foi invadido pelas lágrimas de Louise. Elas queimavam na minha memória mais do que a pasta de ervas queimava nas minhas mãos.
"Eu pensei que conseguiria te fazer me amar. Mas você nunca me deu um milímetro de abertura."
A voz dela sufocava o cheiro de couro do banco. Eu deveria sentir alívio. O divórcio estava ali. Mas o que eu sentia era um buraco n***o se abrindo no meu peito.
E para piorar, a voz da velha da reserva sibilou por cima do motor:
"Cuidado com o que você acha que é mentira, Alfa. Às vezes, o erro não está no vínculo... está em quem se recusa a aceitá-lo."
Soquei o volante. Ela não usou feitiço. Não usou magia. Então como ela estava mexendo comigo assim?
Cheguei ao QG da alcateia e cruzei o saguão como um vendaval. Parei diante da porta da minha sala. Meus sentidos deram um solavanco.
O perfume floral e doce me atingiu. Sienna.
Abri a porta com um estrondo.
Ela estava lá, sentada na minha poltrona de couro. Eu seria um mentiroso se dissesse que não notei a aparência dela. Homens notam.
O cabelo preto, longo e liso, caía como uma cascata de ébano sobre os ombros. A pele tinha um tom profundo de cobre, quente e reluzente sob a luz fraca.
Ela cruzou as pernas longas e atléticas, a musculatura definida sob o vestido justo. Ergueu o rosto, e os olhos verdes floresta me fixaram com uma intensidade predatória.
Com aquela postura tensa e elegante, ela parecia uma pantera n***a pronta para o abate.
Um sorriso de posse surgiu nos lábios pintados.
— Cassian, você demorou — ela ronronou, levantando-se com a graça de um felino.
Olhei para ela. Pela primeira vez em cinco anos, aquela visão não me trouxe conforto. O perfume fedia a desespero e me embrulhou o estômago.
Fedia a cada minuto que passei sendo um carrasco para Louise enquanto me escondia na perdição daquele corpo.
— O que você está fazendo aqui, Sienna? — Meu rosnado fez o sorriso dela vacilar.