CAPÍTULO 17 - O ÚLTIMO DESEJO

1517 Words
(POV DE LOUISE BELMONT) Acordei com o quarto mergulhado em um breu absoluto. O silêncio da mansão Blackwolf não era pacífico; era uma bofetada de abandono que ecoava pelos cantos do teto alto. Tentei focar a visão, mas minhas pálpebras pesavam como se estivessem coladas com chumbo e exaustão. O relógio de cabeceira brilhava em um azul pálido, cortando a escuridão. Marquei os números com dificuldade. Tarde demais. Sombrio demais. Cassian não voltou. "Eu saberia se ele estivesse em casa? Provavelmente não." Em cinco anos, ele nunca se dignou a me informar seus passos, seus horários ou suas intenções. Para o grande Alfa, eu era apenas um fantasma ocupando um espaço indesejado. Um erro biológico e trágico que ele esperava que o tempo, ou a negligência, apagassem de uma vez por todas. Meu tórax latejava. Era um ritmo constante de dor, uma pulsação aguda que acompanhava as batidas do meu coração. A pomada da bruxa realmente era boa; eu sentia a pele repuxar e formigar onde as feridas começavam a fechar, um latejar leve que me lembrava que eu ainda estava viva. O cheiro de ervas amargas e terra úmida ainda impregnava os lençóis pesados, mas algo novo e terrível cortou o ar viciado do quarto. Um vento gélido, carregado com o cheiro metálico de ozônio e asfalto úmido, chicoteou meu rosto. Ele vinha da porta de vidro que dava para a varanda. Meus músculos retesaram instantaneamente, ignorando a dor das costelas. Eu a deixei fechada. Trancada. Eu sei que deixei. Sentei-me na cama com um esforço excruciante, o coração martelando contra as costelas feridas até eu sentir o gosto de ferro na boca. E então, eu o vi. Uma silhueta imóvel recortada contra o luar pálido. O ar fugiu dos meus pulmões como se alguém tivesse me socado as entranhas com um punho de aço. O pavor derreteu meus ossos. Lexi! Preciso de você! — gritei no vácuo da minha mente, implorando por uma centelha de poder, por garras, por presas. O eco vazio foi a minha única e desoladora resposta. Minha loba estava em silêncio. Morta. Enterrada sob camadas de rejeição, ódio e remédios. Eu era apenas carne, osso e um medo primitivo diante do perigo iminente. A sombra na varanda não se mexia. O silêncio entre nós era tão espesso e pesado que eu conseguia ouvir o fluxo do meu próprio sangue correndo e chiando nos meus ouvidos. O calafrio que desceu pela minha espinha não era apenas pavor; era o instinto de presa berrando que o caçador estava dentro da jaula. Aquele homem veio para terminar o serviço. Ele era a morte que levou Amélie, e eu sentia isso no cheiro de sangue velho que ele exalava. Eu não tinha armas. Não tinha garras. Não tinha o meu marido para ficar entre mim e a morte. Mas eu tinha a voz que Cassian tanto tentou ignorar durante todos esses anos. A voz que ele tentou sufocar. — MORGAN! MAEVE! SOCORRO! — O grito rasgou minha garganta, saindo cru, arranhado e desesperado. A silhueta saltou da penumbra com a velocidade de um raio.m — SOCORRO! — berrei novamente, o pânico subindo como ácido fervente pelas minhas veias, queimando tudo por onde passava. Esse maldito não me levaria sem luta. Ele já tinha levado a minha irmã. Ele não teria o meu silêncio de presente. — SOCORROOOOOOO! Em segundos, o peso de um corpo bruto e colossal me atingiu, me arrastando da cama com uma força desumana. Fui jogada contra o chão frio de madeira, o impacto enviando ondas de choque lancinantes pelas minhas costelas já quebradas. Consegui vê-lo por um instante enquanto ele subia sobre mim, prendendo meus pulsos contra o chão com os joelhos pesados. Uma máscara preta, fosca, sem traços humanos. Apenas o vazio perturbador onde deveria haver um rosto. Um soco explodiu contra a minha bochecha. Estrelas brancas dançaram na minha visão. O estalo do osso do meu maxilar ecoou dentro da minha cabeça e o gosto quente de sangue fresco invadiu minha boca. A consciência vacilou. O quarto girou vertiginosamente. Senti as mãos dele, frias e implacáveis, fecharem em volta do meu pescoço. Ele apertou. O metal frio da máscara estava a centímetros do meu nariz. Eu conseguia ouvir a respiração dele, contida e rítmica. Ele estava gostando disso. Meus dedos arranharam os braços dele, buscando um ponto fraco, mas era como tentar arranhar vigas de concreto. O oxigênio parou de chegar. Minha traqueia parecia prestes a colapsar sob a pressão. O quarto começou a escurecer nas bordas, a pouca luz sumindo em um túnel n***o. "Então é assim...—pensei, a escuridão me convidando para o fim do sofrimento. De repente, um rosnado que pareceu vir das profundezas do inferno estilhaçou o silêncio da casa. Um vulto marrom-claro saltou sobre o homem, arrancando-o de cima de mim com uma violência selvagem que fez o chão tremer. Logo em seguida, outra fera, de um marrom mais escuro e denso, cravou os dentes com ferocidade no ombro do invasor. Morgan e Maeve. Duas Blackwolfs puras, da linhagem Alfa, transformadas em fúria, presas e pelo, lutando no meio do meu quarto. O som de carne sendo rasgada, o estalar de dentes batendo em osso e o rosnado gutural das gêmeas preencheram o ambiente. O quarto parecia minúsculo demais para abrigar aquela carnificina brutal. O cheiro de cachorro molhado e sangue impregnou o ar. Eu me arrastei para o canto perto da parede, tossindo, buscando o ar que me fora negado, vendo minhas cunhadas agirem como os escudos que meu marido nunca aceitou ser. O horror se transformou em desespero puro e cru em questão de segundos. Morgan e Maeve eram máquinas de guerra, Blackwolfs criadas para aniquilar, mas aquele homem... ele não recuou. Ele era o próprio abismo. Ouvi o estalo seco. *Croc.* O som de osso partindo sob o coturno pesado dele me fez perder o fôlego antes mesmo dele voltar a me olhar. Com um movimento rápido e desumano, ele agarrou uma das gêmeas e a arremessou pela porta aberta do quarto. O corpo do lobo enorme atingiu o corrimão e rolou escada abaixo. O baque surdo dela batendo contra os degraus ecoou pela casa inteira como um sino fúnebre. A outra foi erguida pelo pescoço e lançada com força total pela varanda, desaparecendo na escuridão do jardim de onde ele tinha vindo. Eu m*l tive tempo de processar que minhas protetoras haviam caído. Minha última linha de defesa estava destruída. Ele já estava em cima de mim. De novo. Lutei. Usei minhas unhas quebradas, meus dentes manchados de sangue, cada grama de força que minha alma destruída conseguia reunir. Mas eu não era nada diante dele. Um inseto lutando contra a sola de uma bota. Ele me ergueu do chão pelos cabelos e, com uma violência bruta e impiedosa, me enterrou contra o assoalho de madeira. Minha cabeça bateu no chão. Uma. Duas vezes. O mundo girou e as estrelas na minha visão foram substituídas por manchas densas e escuras. Estou morrendo. O pensamento veio frio, límpido, cortando o pânico. Meus filhos... Levi... Luther... eles vão crescer sem mim. Vão esquecer o som da minha voz. Vão esquecer o meu toque. Eu era apenas uma boneca de pano inútil nas mãos de um monstro sem rosto. Ele me chutou no estômago, e meu corpo voou pelo quarto, chocando-se violentamente contra a minha penteadeira de madeira maciça. O vidro do espelho explodiu em mil pedaços reluzentes. Senti os estilhaços pontiagudos rasgarem a pele fina das minhas costas e braços enquanto a madeira cedia sob o impacto esmagador. Eu estava caída entre os escombros. O cheiro de perfume caro se misturava ao cheiro de cobre do meu próprio sangue quando ele me puxou de volta pelos pés. Dessa vez, não houve surra. Não houve hesitação. Não houve o silêncio de quem brinca com a presa. Ele montou sobre o meu peito ferido, os joelhos esmagando minhas costelas, e suas mãos de aço fecharam-se definitivamente no meu pescoço. Ele não queria mais me calar; ele queria terminar o serviço. Queria que eu parasse de respirar, de existir, para sempre. A pressão era insuportável, esmagadora. Meus pulmões queimavam como se estivessem cheios de brasa, implorando por um milímetro de oxigênio que nunca viria. Minha traqueia estalou. As lágrimas quentes escorreram pelas minhas têmporas, misturando-se ao sangue do meu rosto. Meus olhos focaram no teto ornamentado do quarto, a visão escurecendo rapidamente nas bordas, fechando-se como uma cortina preta de teatro. A última prece da minha alma subiu para o nada, um sussurro silencioso na mente de uma Luna esquecida: "Deusa... se você me der outra vida... por favor... me permita ser amada. Só uma vez. Me permita saber o que é ser amada de verdade..." Meus dedos, que lutavam inutilmente contra os braços inflexíveis dele, pararam de arranhar. A força deixou meus músculos. Meus braços caíram inertes ao lado do meu corpo, pesados e sem vida contra o tapete forrado de vidro. A escuridão enfim me levou para o seu abraço frio, e o silêncio da morte foi a única coisa que restou.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD