5 anos depois:
Cristhofer:
Cheguei de uma reunião de trabalho e fui até o jardim, lá Aurora brincava com os gêmeos. Ambos correram para me abraçar com carinho. Desde o acidente, Aurora praticamente se tornou a mãe das crianças. Tudo parecia perfeito, mas não era. Amava os meus filhos, gostava muito da minha mulher e, mesmo assim, sentia-me incompleto, faltava algo, faltava alguém.
— Querido. Ela se levantou do chão e correu para mim, abraçando-me e beijando-me, estava muito arrumada, demais, usava um lindo vestido e brincos de diamante que eu havia dado de presente para Melissa em um de nossos aniversários. Também usava o mesmo perfume que Melissa, isso me incomodava muito, me fazia sentir culpado, me lembrava de coisas que eu não queria.
— Não gosto que você mexa nas coisas da Melissa! Eu disse com voz forte, a contragosto, os pequenos me observaram assustados com o tom de voz que usei.
— Pai, por que você está gritando com a mamãe? Perguntou Miguel, abraçando as pernas dela.
— Você está bem, mamãe? Questionou a menina e eu não disse mais nada, a verdade é que tudo isso que estava acontecendo era unicamente minha culpa. O meu maior erro não foi estar com Aurora, foi trazer Aurora para esta casa, foi deixá-la cuidar dos meus filhos com Melissa, deixá-los crescer chamando-a de mãe e adorando-a como faziam. Alheios a toda a verdade, uma realidade cr*uel e devastadora que poderia tê-los feito me odiar, eu os criei em uma enorme bolha que cada vez era mais difícil evitar que explodisse.
— Meus bebês. Ela se abaixou e os abraçou porque, se havia algo que ela fazia bem, era cuidar dos meus filhos. —Mamãe e Papai precisam conversar sobre coisas de adultos, esperem por mim no quarto, podem ir escolhendo o livro que leremos esta noite. Eles obedeceram e se afastaram.
— Não gosto que você use as coisas da Melissa. Reclamei.
— Ah, não, mas você gosta que eu cuide dos filhos dela enquanto você passa o dia todo no trabalho. Defendeu-se.
— Aurora, isso nos escapou das mãos. As crianças crescerão e um dia descobrirão a verdade, o que faremos então?
— O que eles descobrirão? O que todos sabem, Melissa teve um acidente, ninguém sabe por que ela estava na estrada dirigindo como louca e você e eu cuidamos bem deles. Mãe é quem cria. Você ainda espera que ela acorde? Depois de cinco anos? Ela reclamou ressentida.
— Claro que não...
— Você vai aquele m*aldito hospital todos os dias e está pagando uma fortuna para manter os equipamentos dela. Já chega, Cris, desconecte-a de uma vez, vamos fazer nossa vida sem o fantasma da Melissa! Se ela não acordou em cinco anos, o que te faz pensar que ela vai acordar agora? Ela gritou eufórica.
— Eu sei. Exclamei, ainda guardava a pequena esperança de que ela acordasse, não sei se o que sentia era culpa, remorso ou amor, mas não queria carregar sobre os meus ombros o peso de sua morte.
— Você deve fazer isso. Você é o marido dela, ganhou a ação que lhe dá o direito de decidir sobre a vida dela. É a única forma de podermos nos casar e ter uma vida normal. Se não eu vou embora, não aguento mais isso e você sabe que seus filhos me veem como mãe. Já perderam a mãe uma vez por sua culpa, e será a sua culpa se perderem a mãe de novo.
— Está bem. Respondi, olhando para o vazio, minha mente estava em branco. — De qualquer forma, ela não vai mais acordar. Eu disse tentando convencer mais a mim do que a ela.
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— Você é um desgraçado. Gritou a mãe de Melissa como louca. — Você planejou tudo, para ficar com o dinheiro da minha filha, com a parte da empresa que lhe cabia. Você e aquela vagabu*nda que se fazia passar por amiga não valem nada. Ela me deu um tapa. Segurei as duas mãos dela.
— Sua filha já está morta. Ela não vai acordar. Ela está conectada a essas máquinas e não acorda, não saiu do coma em todos esses anos e não sairá mais. Eu a soltei e ela começou a gritar e a chorar sentidamente.
— Sinto muito. Disse e ela me olhou cheia de ódio.
— O peso da morte da minha filha cairá sobre os seus ombros. Ela gritou. — Você é um desgraçado, tirou os meus netos de mim, para que aquela vagab*unda os criasse, não me deixa vê-los e agora vai me tirar também a minha filha.
— Guardas, acompanhem-na até a porta. Exclamei, e ela se virou para ir sozinha.
— Um dia você pagará por tudo o que fez. Ela acrescentou.
— Essa velha é louca. Disse Aurora abraçando-me pelas costas. — Escolherei a roupa para irmos ao funeral esta tarde. Ela disse beijando as minhas costas e subindo para o quarto...