MELISSA
— Por favor, doutor, só mais um minuto. Pediu a minha mãe chorando.
— Sinto muito. O médico estendeu a mão por cima do ombro da minha mãe, consolando-a. — Mas já estamos esperando há mais de uma hora. É difícil e a verdade é que ninguém nunca estará pronta neste momento. A outra coisa é que se em cinco anos a sua filha não saiu do coma, é muito difícil que ela saia. Ela chorou ainda mais, com muito sentimento.
— Só vou abraçá-la. Ela disse, abraçando meu corpo, e o médico tirou o oxigênio que eu estava usando e procedeu a desconectar todos os equipamentos que me mantinham viva. Um longo apito foi ouvido na máquina que marcava os batimentos do meu coração e a minha mãe começou a chorar, cobrindo os olhos. Após quase meio segundo com aquele som tedioso que parecia indicar o fim da minha vida, voltou a ouvir-se como o meu coração se estabilizou e os pequenos sons intermitentes da máquina que media a frequência cardíaca, a única que o médico havia deixado conectada. E eu movi a minha cabeça.
— Ela está viva, é um milagre! O médico e as enfermeiras que o acompanhavam correram para mim. Eu abri os olhos.
— Onde estou? Perguntei com dificuldade enquanto tudo girava ao meu redor e eu via algo borrado. — Onde estão meus bebês? Eu não tinha nem muita força para falar.
— Você sofreu um acidente, está no hospital. Pronunciou o médico. A minha mãe cobriu os lábios chorando de felicidade. Minha visão ficou fixa nela.
— Mamãe... Balbuciei. Ela era a única pessoa que estava lá, esperando por mim, rezando por mim, na esperança de que em algum momento eu fosse acordar. Era a única que me amava de verdade e que nunca me abandonou, ficando quando eu não tinha nada, quando o mundo só esperava minha morte, minha mãe esperava que eu sobrevivesse, que acontecesse um milagre e que eu acordasse do estado de coma em que eu estava.
— Melissa, preciso que siga minha caneta com os olhos. Exclamou o médico, e eu obedeci. À medida que os minutos passavam, as coisas se concentravam um pouco mais.
— Sinto-me um pouco tonta. Pronunciei. —E os meus bebês? E o Cris? Perguntei, olhando para minha mãe naquele momento nem sequer pensei que tudo isso era culpa de Cris e que tive aquele m*aldito acidente ao descobrir sua infidelidade. —Mamãe, onde estão meus bebês? Ela só chorava sorrindo como se um milagre tivesse acontecido.
— É normal que você sinta tontura e dor de cabeça. Você está em coma há muito tempo...
— E os meus bebês estão... Com o meu marido? Onde estão os meus gêmeos? Perguntei, alheia à realidade.
—Vamos te dar um sedativo, quando acordar poderá falar com a sua mãe, sua frequência cardíaca está muito irregular e não convém que se agite demais. Foi a última coisa que o médico disse antes de me injetar. Dormi por um bom tempo, umas duas horas, e depois abri os olhos. A minha mãe era a única pessoa que estava ali ao meu lado.
— Onde estão meus bebês? Foram as primeiras palavras que disse ao acordar novamente, a minha mãe baixou o olhar pensando em como me explicar tudo o que havia acontecido.
— Filha, já se passaram cinco anos. Observei-a confusa. — Os bebês, os seus bebês que tinham apenas três meses de nascidos, já têm cinco anos. Você ficou cinco anos em coma.
— Não, não pode ser. Derramei uma lágrima. —Eles sabem que estou aqui? Perguntam por mim. Cris falou sobre mim para eles?
— Querida. Ela baixou o olhar. —Quando você sofreu aquele acidente, o seu marido tirou os bebês de mim e, com três meses, ficou noivo da sua melhor amiga. Eles fizeram as crianças acreditarem que ela é a mãe deles. Esses pequenos não sabem que você existe. Cobri o meu rosto chorando, tudo isso era culpa do meu marido, eu tinha sofrido aquele acidente ao descobrir a infidelidade dele com quem eu achava que era minha amiga. Mas isso não ia ficar assim, eu ia recuperar os meus filhos e ia me vingar daqueles dois desleais.
— Perdi tudo, não vi os meus filhos crescerem, eles nem me conhecem. O meu marido, que eu achava que me amava, é um traidor vil. Minha melhor amiga, uma oportunista. Chorei me queixando e minha mãe me abraçou.
—Você não perdeu tudo, filha. Você está viva, que é o importante. Os seus filhos estão vivos e são duas crianças preciosas. Ela pronunciou.
— Você vê eles, mamãe? Perguntei...
— Cristhofer não me deixa vê-los. Ele conseguiu a guarda total das crianças quando você entrou em coma, você sabe que ele é um homem muito influente. Também está encarregado da empresa apenas ele, até me expulsou de lá quando eu disse para ele umas verdades, mas Deus é justo. Ele fará justiça. Disse à minha mãe. Minha mente começou a lembrar. Cristhofer e eu nos conhecíamos desde sempre. O seu pai e meu pai eram donos de uma importante empresa. Eles sempre brincavam que tínhamos que nos casar para que a empresa se tornasse algo familiar. Quando o meu pai morreu, o pai de Cris se afastou e cedeu seu lugar de CEO ao filho, deixando de trabalhar para se dedicar ao descanso. Eu ocupei meu lugar, era a única filha, a única herdeira, ao contrário de Cristhofer, que tem mais dois irmãos, Amanda e Carlos. Eles também trabalham na empresa, embora Cris seja o chefe e a quem seu pai cedeu muito mais ações. Quando assumi o lugar do meu pai, Cristhofer e eu vivíamos em guerra, discutíamos por tudo, ambos queríamos coisas diferentes sempre. Ele era o típico mulherengo amado por todos e eu a menina da casa, boa, estudiosa e obediente, que agora sentia falta do pai, o homem que sempre a cuidara. Isso sim, eu sempre tinha os meus argumentos lógicos para discutir com ele, porque eu era muito inteligente, tinha estudado para isso e era isso que o fazia ferver de raiva, ver que seu oponente não era qualquer idio*ta. Quando ganhei as eleições para ser a presidente da empresa, foi o ponto que o fez perder a paciência. Entre reclamações e indignação, sentindo que era incapaz de fazê-lo por ser mulher, ele foi ao meu escritório e discutimos. Ele me levou à beira da loucura, dizendo que havia conseguido os votos dos outros acionistas de forma fraudulenta, e quando eu ia dar-lhe um tapa, ele segurou minha mão e me beijou. O silêncio ficou desconfortável, ambos ficamos paralisados sem reação. Ele olhou nos meus olhos e eu me aproximei e o beijei de novo. Começou assim um romance ardente e intenso entre duas pessoas que sempre se odiaram e que eram completamente diferentes. Ele mudou, ou pelo menos eu achei. Era o homem mais carinhoso, atencioso, detalhista e meloso que podia existir. Agora me pergunto se ele só fingia para ter mais poder. Casar comigo era um bom plano, engravidar também, agora tudo o que eu um dia pensei que era amor ficava em dúvida. Só estava clara de uma coisa: ele me falhou da pior maneira. Se ele fingiu, fez muito bem, toda a família dele, até o pai dizia que eu o tinha mudado, que Cris já era outro homem totalmente diferente. Seu pai afirmava que ele sempre soube que íamos acabar juntos. Agora tudo isso me deixava em dúvida.
— Mamãe, não conte para ninguém que estou viva. Hoje começará minha vingança, no meu funeral. Pronunciei.
— Do que você está falando, Melissa? O médico certamente lhe dirá.
— Ele não fará isso, diga a ele que venha aqui. Que quero falar com ele. Pronunciei. —Vou deixar aquele m*aldito ir chorar no meu funeral e exporei para todo mundo a verdadeira face dele. Olha agora mesmo, eles têm meus filhos, meu lugar na empresa e meu dinheiro. Eles moram na casa que o meu pai me deu antes de morrer. Eles foram tão baixos que nem mesmo permitiram que você ficasse perto das crianças.
Minha mãe saiu e, poucos minutos depois, voltou com o médico, um homem jovem e bonito, de uns trinta e cinco anos.
— Doutor, você não disse ao meu marido que estou viva? Perguntei.
— Tentei ligar para ele, mas o telefone dele dava desligado e ninguém atendia o outro número que ele deixou. Ele afirmou. — Você está se sentindo m*al?
— Preciso de um favor seu. Pronunciei. Ele me observou confuso. — Preciso que você diga a todos que eu morri.
— Não posso fazer isso. Eu me meteria em problemas. Além disso, por que você faria algo assim? Ele perguntou.
— Tive este acidente por culpa do meu marido, descobri que ele tinha uma amante, vi os dois com os meus próprios olhos. Ele é a minha melhor amiga. Agora eles moram na minha casa e ela trata meus filhos como se fossem dela. O senhor acha isso justo, doutor? Todos devem saber que tipo de pessoas eles são. Meu funeral estará cheio de jornalistas, eles vão chorar e fazer teatro quando me enganaram todos esses anos.
— Se eu fizer isso posso perder o meu emprego. Disse o doutor.
— Pode dizer apenas uma parte da verdade. Pronunciei. — Não precisa mentir. Se não mentir, não terá problemas.
— Estou ouvindo. Ele disse, observando-me fixamente.