As suas palavras queimavam, eram feridas com sal, mas então lembrei do que Carlos me disse: Aurora estava preparando aquelas crianças há cinco anos para que fossem sua arma caso eu voltasse e, enquanto eu as afastasse dela e ela se fizesse de vítima, eles continuariam a me ver como a má. Talvez Carlos estivesse certo e ela realmente não amasse os meus filhos, apenas os usava para que Cris não a abandonasse. Por isso, eu tinha que seduzir Cris e fazê-la perder a paciência, para ver como ela agiria quando tivesse apenas o amor das crianças e a rejeição do pai. Para ver se assim ela queria continuar brincando de ser a mãe dos meus filhos. Levantei-me com total tranquilidade e falei: está bem, Aurora pode ficar.
Ela arqueou as duas sobrancelhas surpresa e a taça que Cris havia pego caiu da sua mão.
— O quê? Você vai deixá-la viver aqui? Com a gente? Ele perguntou como se a ideia não lhe agradasse nem um pouco.
— Sim, as crianças querem que ela cuide delas e ela quer cuidar das crianças. Eu não quero tê-los longe de novo, mesmo que eles não me queiram. Aurora, você pode ficar, levar as crianças para a escola e buscá-las, ajudá-las na lição de casa e servir o jantar. Ela ficou gelada. — É isso que você quer, Aurora, não é? Cuidar das crianças. Elas ficaram olhando para ela esperando a sua resposta.
— Sim, sim. Ela disse um sim hesitante depois de pensar.
— Uf, que bom. Agora todos felizes. Agora terei muito mais tempo para administrar a minha empresa. Acrescentei, e Cris olhou para ela com certa raiva e frustração nos seus planos, que eu continuasse cuidando das crianças enquanto ele administrava a minha empresa. Eu me sentei e jantei tranquilamente, as crianças estavam felizes, minha mãe olhou-me cheia de dúvida e Cris não conseguia acreditar.
Vamos ver se Aurora continuava sendo aquela mãe amorosa e espetacular enquanto eu fosse a encontros com o amado dela, e ela ficasse cuidando das crianças. Era isso que eu tinha que fazer. Tinha que pensar e agir minuciosamente, sem dar um único passo em falso.
Minha mãe entrou no quarto onde eu estudava alguns artigos da empresa.
— Meli, querida, o que você está fazendo? Como você vai deixar aquela mulher traidora voltar para casa e, pior ainda, deixar que ela cuide das crianças? Você enlouqueceu? Questionou a minha mãe, que se chamava Holga. Era alta, magra, corpo juvenil, sempre se vestia com cores opacas e saias longas que raspavam seus tornozelos. A sua pele era branca e o seu cabelo tingido de preto. No seu rosto via-se a preocupação.
— Mamãe é uma estratégia. Ela me olhou pouco convencida, como se eu tivesse enlouquecido totalmente. — Eu te explico, mamãe. Aurora não ama as crianças, ela só quer o Cristhofer, talvez nem mesmo o Cris, talvez ela só queira dinheiro e poder. Mas de qualquer forma, ela usou as crianças, preparou-as contra mim. Se eu os afastar dela, me verão como a má. Mas se eu a deixar para o final e conseguir que ela revele a sua verdadeira identidade, eles acabarão vindo atrás de mim.
— Ai, Meli, a verdade é que tudo isso não me convence. Essa mulher já te fez muito m*al.
— Confie em mim, eu vou ficar bem. Abracei ela.
— Confio em você, mas já te fizeram tanto m*al que eu queria te proteger de todas essas pessoas nocivas. Ela acrescentou, e eu simplesmente a entendia. Eu também queria proteger os meus filhos e não tinha ideia de como fazer isso, então tive que deixá-los aprender a lição, mesmo que fossem muito pequenos. Fui para o quarto e os pequenos estavam sentados na cama deles.
— Trouxe-lhes um livro de contos. Fale sobre animais. Sorri para eles e eles se olharam.
— Obrigada. Disse à menina, caminhou até mim e pegou. — Vou dar para nossa mãe ler para nós. Ela afirmou enquanto Aurora sorria atrás de mim e entrava no quarto.
— Obrigada, Melissa, mas não precisa se preocupar. Temos estado perfeitamente bem sem você por cinco anos, não acho que precisemos de você agora. Éramos até melhores antes de você vir.
— Boa noite. Interveio Cris, que não sei como conseguia aparecer em todos os lugares. Mas ele simplesmente estava em tudo.
— Aurora deixa Melissa ler a história para as crianças. Ele a olhou em tom de repreensão.
— Eles estão acostumados que eu faça isso, Cris, eu faço isso desde que eles são bebês. Ela acrescentou enquanto as crianças a abraçavam.
— Melissa teve um acidente, crianças, ela não fez isso porque quis. Dêem a ela a oportunidade de estar com vocês, conheçam-na...
— Não se preocupe, Cris. Sorri para ele, colocando a mão no ombro dele. — Já que Aurora vai colocar as crianças para dormir, podemos tomar um drink, acho que ainda tenho muitas coisas para me atualizar.
— Claro. Vamos. Ele respondeu, e os olhos de Aurora ficaram pequenos enquanto ela apertava o punho com força. A verdade é que eu jamais voltaria com o Cristhofer, ele era o principal culpado de tudo, ele era meu marido, era quem deveria ser leal a mim. No entanto, eu ia usá-lo para dar ciúmes à Aurora, ia mostrar àquela mulher que por mais que ela se esforçasse, nunca teria o meu lugar, nunca seria eu, e também procuraria uma forma de humilhar o Cristhofer, de fazê-lo sentir-se rejeitado. Neste momento o meu coração estava unicamente cheio de ódio.
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— Meli, você se lembra quando fui pedir a sua mão? Disse Cris enquanto tomávamos uma taça ao lado da piscina. Eu olhei para ele e sorri, sabia com quem estava falando, ele estava tentando me fazer ver as lembranças que tínhamos como algo mágico para me fazer parecer to*la novamente.
— Eu fiquei tão nervoso que quase desmaiei, e o seu pai simplesmente começou a rir. Seu pai sempre confiou em mim. Prometi a ele antes de morrer que cuidaria de você...
— Em que momento você se tornou isso, Cristhofer? Em que momento eu não vi isso? Os nossos olhares se cruzaram por um momento.
— Escute minha linda. Juro pelo mais sagrado que nunca levei Aurora a sério, nunca a amei. Um dia, bêbado, ela entrou na minha cama e depois...
— E depois você a trouxe para minha casa, deu ela como mãe para os meus filhos, vi fotos dela com as minhas roupas, com as minhas peças. Exclamei indignada. Ele se levantou da cadeira e ajoelhou-se na minha frente:
— Perdoe-me, perdoe-me Melissa, vamos voltar a ser como antes. Você é a única mulher que eu realmente amei. Não amo a Aurora, nunca amei, ela na sua tentativa desmedida de ser você e eu deixei, deixei porque temia perder você de tudo. Mas aquela mulher baixa e mentirosa nunca será como você.
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— Você pode nos contar outra história, mamãe? Exclamou Mía, e Aurora fechou o livro com desespero.
— Ai, por Deus, vão dormir, vejam que hora é. Além de serem crianças grandes, que podem dormir sozinhas. Ela exclamou irritada, levantou-se e apagou a luz.
— Mas mamãe, tenho medo do escuro. Acrescentou a menina.
— Já chega, Mía! Ela acendeu a luz. — Vá dormir agora ou terei que castigá-la. Ela exclamou, saindo de lá e fechando a porta ao sair enquanto procurava desesperadamente por Cris em todos os lugares. Mirou pela varanda e ferveu de raiva ao vê-lo ajoelhado diante da Melissa, segurando as minhas mãos. Então ela foi para o quarto e começou a destruir tudo no seu caminho. A jogar tudo no chão com raiva e fúria. Cris chegou ao quarto e viu tudo destruído.
— O que aconteceu aqui? Ele perguntou calmamente enquanto Aurora chorava, cheia de raiva e ódio.
— Eu te vi, diga que é mentira, eu te vi com a Melissa, pegando nas mãos dela. Ela gritou para ele.
— E por isso você causou todo esse alvoroço. Aurora, você sempre soube disso. Na verdade, você sabia desde o dia em que se ofereceu para mim, quando eu estava bêbado. Eu estava casado e continuo casado. Deixei claro para você desde o primeiro momento. Podíamos ter um relacionamento, mas eu não ia deixar a Melissa, ela é minha esposa, temos dois filhos juntos, uma empresa...
— Que dia*bos você está falando, Cristhofer? Estamos juntos há cinco anos, cinco anos em que vivemos juntos, em que te ajudei a criar os seus filhos. Acaso isso não valeu nada para você? Ela gritou.
— Achei que Melissa nunca mais ia acordar. De fato, o médico deixou claro que as chances de Melissa acordar eram muito baixas, mas ela continua sendo minha esposa perante a lei, perante Deus. Respondeu Cristhofer enquanto Aurora cobria os olhos chorando.
— Eu te disse para não vir aqui, você está estragando todos os meus planos. Melissa ia cuidar das crianças enquanto eu cuidava da empresa, mas você estragou tudo. Agora ela quer ficar na empresa o dia todo e isso não pode ser. Podíamos ter continuado juntos como antes, mas você me desobedeceu e isso não me agrada. Ele exclamou.
— Onde você vai? Você vai me deixar sozinha?
— Se você não fizer tudo exatamente como eu digo, nunca mais estaremos juntos. Exclamou Cristhofer. — Você não está me obedecendo. Por certo, dormirei em outro quarto, não quero que a Meli pense que ainda estamos juntos. Ele acrescentou, saindo dali, e Aurora ficou chorando em meio ao seu desastre.
— Melissa, Melissa, sempre Melissa, eu te odeio. Ela gritou, jogando um buquê contra a parede. — Queria que você tivesse morrido naquele acidente. Ela murmurou, apertando o punho e enxugando as lágrimas com força, e se olhou no espelho pensativa enquanto, de repente, começou a rir como se estivesse louca.