Cassie não dormiu aquela noite.
As palavras de Hannah se repetiam na mente dela como um disco arranhado: “Pessoas como ela não são como a gente.”
Ela já ouvira isso antes. De vizinhos, de professores, de pessoas que a olhavam como se ela fosse um erro fora de lugar. Mas ouvir da mulher que a acolheu… foi um corte profundo.
Pela manhã, evitou Hoseok. Disse que estava cansada, que precisava estudar. Não foi ao ensaio, nem respondeu mensagens. O celular permaneceu no modo silencioso, escondido no fundo da gaveta.
No quarto, ela encarava o teto, sentindo o peso daquela velha e conhecida angústia: o medo de não ser suficiente.
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Enquanto isso, Hoseok...
Hoseok bateu na porta do quarto de Cassie três vezes ao longo do dia. Em todas, ouviu um "tô bem" que não o convencia. Na quarta tentativa, empurrou a porta com cuidado. Ela estava sentada no chão, abraçada às próprias pernas, olhos vermelhos.
— Cassie...
Ela não reagiu. Apenas suspirou.
— Por que você não me contou? — perguntou, ainda olhando para frente.
— Contar o quê?
— Que sua mãe me considera um problema. Que pra ela, eu sou só uma menina perdida. Um peso.
Hoseok sentiu o estômago revirar.
— Você ouviu a conversa.
Ela finalmente o olhou. Os olhos dela estavam magoados, mas não com raiva — com decepção.
— Eu ouvi. E dói, Hoseok. Porque por um segundo, eu acreditei que essa casa podia ser meu lar.
Ele se ajoelhou à frente dela, tomando as mãos frias entre as suas.
— Olha pra mim. Você é meu lar agora. Não minha mãe. Não essa casa. Você.
— E se ela te fizer escolher?
Hoseok respirou fundo. A pergunta doía, mas a resposta veio sem hesitação.
— Eu escolho você. Todas as vezes.
Cassie deixou uma lágrima escorrer, sem limpar.
— Só não quero ser um motivo pra você brigar com sua família.
— Você não é o motivo. O motivo é o preconceito. É essa maldita mania que eles têm de colocar pessoas em caixas. E você não cabe em nenhuma delas, Cassie. Você é livre. É forte. E é por isso que te amam… e também por isso que te temem.
Ele se aproximou mais, os rostos quase colados.
— Eu quero lutar com você. Se você me deixar.
Cassie assentiu, silenciosa.
E, pela primeira vez naquele dia, sorriu de novo.
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Mais tarde...
Naquela noite, ela desceu para jantar. Hannah estava presente, elegante como sempre. Cassie sentou-se à mesa com educação e manteve o olhar baixo. Mas Hoseok não escondeu nada. Sentou-se ao lado dela, segurou sua mão sob a mesa e, ao final da refeição, disse com todas as letras:
— Cassie é minha namorada. E eu espero que ela continue morando aqui conosco.
Hannah franziu o cenho, pousando o garfo com calma.
— Hoseok, você poderia ter me consultado antes de fazer um anúncio como esse.
— Eu não estou pedindo permissão, mãe. Estou apenas informando.
Hannah olhou para Cassie por um longo momento. Seus olhos não estavam frios… mas distantes.
— Espero que você saiba o que está fazendo, Cassie.
A garota ergueu os olhos, firme, ainda que o coração tremesse.
— Pela primeira vez, acho que sei.