Pesadelos Não Vão Embora

1217 Words
Os pesadelos estavam acabando comigo, mesmo quando eu acordava na noite e percebia que estava no quarto novamente, com uma Helena dormindo lindamente do outro lado do quarto. Vidros se estraçalhando, o mundo girando, sangue por todos os lados, e principalmente aranhas... Depois de outra e mais outra seção horrorosa de pesadelos, que faziam meu corpo estremecer e meus poros expelirem toda a água de meu corpo, me deixando com apenas alguns poucos por centos, tive meu primeiro sono sem sonhos, completamente em paz. Mas quando mergulhei profundamente nele, finalmente feliz por dormir normalmente pela primeira vez em dias, um chacoalhão atrapalhou minhas divagações. Abri os olhos dopados, fechando-os novamente quando uma cachopa de cachos loiros caiu em meu rosto. Helena estava com o rosto a centímetros do meu, seus olhos azuis me obervando com curiosidade. Bufei para ela, que meneou a cabeça. _Ei, acorde Pegan! _ela quase gritou _Você baba enquanto dorme? _O que você quer agora? _pisquei _ Outra festa de arromba? Não, muito obrigada. _murmurei afundando o rosto no travesseiro. _Não seja tola. Levante. A escola começa as sete, sabia? Ah, e vale lembrar que ela também não espera ninguém. Arregalei os olhos, e de repente, eu já estava parcialmente acordada. Olhei incrédula para Helena enquanto ela caminhava ainda de pijama para o seu armário, o abria e tirava alguma coisa lá de dentro. Mas a única palavra que minha mente havia processado era... _Escola??? Como assim? _Estudos, cadernos, lápis, borracha, conhecimento para vida, professores pé no saco... te lembra alguma coisa? _Eu sei o que é uma escola, _murmurei. _Ótimo. Então já que não preciso fazer nenhuma introdução, será que você poderia, por favor, levantar-se e ir se arrumar? Saímos daqui às seis cinco em ponto _ela disse _nem mais nem menos. Eu poderia rir da piada que ela fez com vovó Stela, mas não ri. _Mas eu nem dormi direito, e cheguei aqui ontem! _argumentei me sentando na cama e a olhando com um olhar puramente injustiçado _Pensei que eu começar na escola apenas semana que vem... Ela se virou para mim com seus olhos afiados, segurando um lindo suéter rosa em uma das mãos. _Até parece... nem mesmo um moribundo louco escapa disso aqui nesta casa. Achou mesmo que nossos queridos avós iriam te dar essa mordomia? _Mas... _Já são seis e meia... Que maravilha. Me levantei como uma sonâmbula. Arrebatei meu nécessaire de dentro da mala. Os olhos parcialmente abertos e tateando as paredes em busca da porta que levaria até o corredor, ignorando a vontade horrivelmente torturante de voltar para a cama e esquecer do mundo. Achei o corredor e a porta do banheiro as cegas. Lavei o rosto, na ânsia de me livrar do sono que teimava em me atormentar, fechando meus olhos numa reação espontânea. Meu rosto já não estava mais tão branco como ontem e minha pele já havia melhorado um pouco. Para todos os efeitos, o óleo que Helena havia me dado havia ajudado. E muito. Meus olhos agora já tinham um tom mais vivo que os cinzentos de meu pai já haviam sido e o círculo n***o ao redor deles havia sumido. E pelo menos, eu já não estava mais cheirando a cerveja... Abri meu nécessaire, pegando minha escova de dente e uma pasta. Mas antes que eu começasse a escovar meus dentes, Helena entrou no banheiro enrolada em uma toalha. Me virei atônita para ela, e meu cabelo caiu em cima da pasta. _Droga _sentenciei tentando retirar o excesso com a ponta dos dedos _O que você está fazendo aqui? _Preciso tomar banho. Talvez não saiba, mas eu também tenho que ir a escola. Ela precisava ser sempre tão irônica? E se ela provasse um pouco do próprio veneno? _E você já ouviu falar em uma coisa chamada Privacidade? _perguntei pondo uma pasta nova na escova, enquanto ela abria o box do banheiro e se enfiava lá dentro, me ignorando por completo. _Ei, Pegan, eu já te disse. Isso não é uma hospedaria. Quer você goste, quer não, nós vamos ter que dividir o mesmo banheiro, ok? Agora, enfie essa droga na boca e me deixe tomar meu banho me paz... Sem mais opções, comecei a escovar os dentes. Talvez as coisas não tivessem como piorar que isso. Com um peso irregular no peito, torci para que não estivesse errada... mais uma vez. Alguns minutos depois, eu estava entrando na cozinha atrás de Helena, com a mochila nos ombros e uma roupa muito semelhante a da noite passada. Eu não tinha ideia de como me vestir para um primeiro dia de aula em Conroe, mas cheguei à conclusão de que isso não importava. Ainda mais se eu fosse me basear pelas roupas de Helena. Ela vestia o lindo suéter rosa e uma saía cáqui. As botas de cano longo cor de ameixa combinavam com os brincos de cristais em suas orelhas. Os cachos loiros estavam presos em um r**o de cavalo bem feito e sem marcas. Droga. Ela nunca havia me parecido tão Barbie na vida. Eu só esperava que ela não fosse nenhuma líder de torcida em nossa escola ou qualquer coisa assim. Por mais que ela já tivesse todas as características ruins, isso seria ainda mais desconfortável. Ela tirou alguns pães de queijo do micro-ondas, pôs algumas bolachas na mesa seguidas de uma jarra de leite e dois copos. Comi um pouco, depois de tempos sem botar nada para dentro, sentada a mesa, e tentando ignorar a presença de Helena. Por enquanto, a única notícia boa, era que eu não teria que ver a cara de nenhum de meus avós antes de sair para a escola. Talvez as coisas estivessem começando a melhorar no final das contas. O gato horrendo, denominado Mordida, também não estava visível em nenhum lugar, e as únicas formas de vida na cozinha eram nós duas. _Em que ano você está? _ela perguntou de repente, me tirando de meus devaneios. _Segundo, _respondi confusa, dando uma enorme golfada em meu leite. _Bem, _ela sorriu, pela primeira vez desde que eu havia chegado ali _Tenho uma ótima notícia para você: Não vamos estudar juntas. Estou no terceiro ano. Dei de ombros, tentando parecer indiferente, quando na verdade, estava apavorada. Me amedrontava a ideia de ficar sozinha numa sala cheia de gente desconhecida, para todos os efeitos, eu queria que Helena estivesse lá. _Isso vai ser ótimo _concordei _Não conheço ninguém de lá, mesmo... Ela se ajeitou na cadeira, parecendo desconfortável de repente: _Na verdade, você tem uns amiguinhos do segundo ano que você já conheceu ontem, sim... Parei um pedaço de bolacha no caminho da boca, a olhando pateticamente. _Como é que é? _murmurei, mas apenas deu de ombros, me fazendo finalmente enxergar que estava completamente errada sobre as coisas voltarem a melhorar _Não me diga que vou ter de estudar com eles... _Bom, já disse. Devia ter me falado isso antes... A imagem dos olhos de cristais me encarando me veio à mente num reflexo, antes mesmo que eu pudesse impedir. De alguma forma, eles não haviam mesmo saído de minha cabeça ainda... porque havia algo sobre seu dono que eu achava que deveria saber. Algo que estava subitamente óbvio demais, por mais que eu não fosse capaz de enxergar. Deixei meus braços caírem em cima da mesa.
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