Sem mais, senti um toque em meu ombro.
_Olá.
Me virei. Havia um homem de meia idade e óculos quadrados me observando curioso. Estava usando uma camisa social listrada e tinha uma barba rala. O nariz pontudo suavizava suas feições quadradas. Só então notei a maleta em sua mão direita.
_An... olá?
_Você é a aluna nova? _ele perguntou abrindo um sorriso. Afirmei com um movimento mudo de cabeça e ele abriu ainda mais o sorriso _Ótimo. Eu estava mesmo me perguntando isso. Sou o professor Dracomir, Draco. E se você pode me dizer seu nome agora, se quiser.
_Perséphone _sibilei a contra gosto _Perséphone Morgan. Os cantos de sua boca se baixaram em aprovação.
_Nossa, mas que nome forte! _ele sorriu novamente _Vamos entrar. Vou apresentar você para a turma.
Com uma mão em minhas costas, ele me conduziu gentilmente para dentro da sala. Meu coração parou quando realmente entrei, e todos se silenciaram, me olhando curiosos. Por que eu tinha que odiar aquele tipo de coisa? Nunca gostei muito de ser o centro das atenções... não que eu tenha tido muitas oportunidades para aquilo em minha vida.
_Bom Dia. _ele cumprimentou com sua voz firme, e agradecendo silenciosamente, percebi que ele ainda me amparava com uma das mãos em minhas costas _Como podem ver, temos uma aluna nova. Perséphone Morgan. De onde você veio, querida? _ele perguntou se dirigindo a mim.
_Maryland... _minha voz fraca quase não saiu em meio ao silêncio constrangedor que se seguiu.
_Ah, ótimo. Eu espero que vocês deem as Boas Vindas a ela e a ajudem nessa fase de adaptação. Pode se sentar, Perséphone, _ele sorriu para mim, rumando para a sua mesa e começando a perguntar sobre o assunto da última aula.
Dei uma boa olhada na sala. As certeiras estavam todas ocupadas. Exceto pela primeira carteira no canto da parede da porta.
E a pessoa que ocupava a carteira de trás era o garoto bar.
Seus olhos cristalizados me acertaram quando me dirigi para a carteira a sua frente, e tropecei no meu pé esquerdo quando ele bufou, virando o rosto para outra direção. Me senti péssima ao constar que ele não me queria ali, e havia uma mescla de irritação em seu rosto, mesmo que fosse o rosto mais bonito que eu já houvesse visto.
Ele tinha os punhos cerrados em cima da certeira, e usava uma regata n***a. Mas mesmo em roupas comuns, ele ainda parecia diferente. O pentagrama tatuado em sua nuca parecia brilhar ao contraste de seu cabelo acinzentado, e o anel em seu dedo longo e branco parecia mais exótico do que os outros estranhos anéis que eu havia visto.
Me sentei em minha nova carteira, odiando não ter chegado mais cedo para pegar uma carteira aos fundos da sala.
Esperei até que Draco se sentasse, verificasse as observações de seu diário e fizesse a chamada até que eu retirasse da mochila meu caderno de anotações. Sempre fui estupendamente bem em Literatura, e não achava que iria realmente precisar anotar alguma coisa da aula agora, mesmo assim, eu precisava manter minha mente ocupada com alguma outra coisa. Qualquer outra coisa que me fizesse esquecer que havia dois olhos prata dissecando meus cabelos naquele exato momento.
Fazendo-me sentir mínima. Fina e transparente. Como uma esponja gasta, áspera pelo uso.
Então qual era o problema de família para que eles me odiassem tanto no fim das contas? Principalmente ele...
Balancei a cabeça. Talvez nenhum deles soubesse o que havia acontecido a minha família.
Talvez nenhum deles soubessem do horror que eu estava passando para se compadecer pelo menos um pouco. Era esse o pensamento que eu iria tentar manter em mente até que conseguisse me estabelecer por ali e conseguir viver por minha própria conta. Eu não poderia deixar que nada tirasse minha disposição _ou pelo menos, o pouco que restara dela, _para que eu pudesse me manter dela enquanto as coisas estivessem o suficientemente ruins.
Papai... queria tanto que você estivesse aqui agora...
E não me importava que aquilo fosse uma sala de aula.
-A camapnha do teatro está muito mais próxima agora...
E eu realmente espero que vocês estejam preparados. _ Draco falou tirando uma espessa e enorme cartilha acinzentada de sua pasta _Pelo menos, quem vai participar. Nossa matéria e obras em Literatura irá ajudar com o tema da peça.
Ele se levantou, mostrando o encarte que tinha mãos:
_A caça ás Bruxas em Salém.
Um repuxão me deixou tonta instantaneamente. Quê? Eles iam apresentar uma peça que falavam sobre bruxas?
_Com a chegada do Halowheen, espero que vocês se sintam mais empolgados com a apresentação da peça para a ESCOLA INTEIRA.
Um “Ahhh” se seguiu pelas carteiras, deslizando pegajosamente por entre as fileiras de carteiras, e eu enruguei a testa. Nossa, mas que notícia ótima. Eu já havia me esquecido que estávamos no fim de Outubro. O tempo havia passado muito depressa depois que... bem, depois de tudo que havia acontecido. Torci para que não fosse obrigada a comparecer em nenhuma festa. Sobretudo de Halowheen. Talvez eu perdesse alguns pontos em minha média, mas isto deveria ser muito melhor do que a ideia que eu tinha de festa...
_Agora, _Draco prosseguiu, abrindo seu encarte _Nenhum de vocês tem este livro ainda, porque quero pensar um pouco com vocês antes. Alguém sabe algo sobre o assunto, antes de toda e qualquer coisa?
Me encolhi no assento. Será mesmo que até a escola daquele lugar tinha que ser tão estranha? Literatura não era sinônimo de coisas como Friedrich Nietzshe, Allan Poe e assim por diante?
Olhei para trás no exato momento em que uma mão foi erguida aos fundos da sala. Gemi ao reconhecer as garras vermelhas.
_Oh, sim, Mona. Você tem algo a dizer sobre isto não é? _Draco se apoiou em sua mesa retangular de madeira branca polida. _Bem, diga-nos o que sabe.
Mona sorriu, e seus lábios vermelhos pareceram faiscar em contraste com seus olhos claros. Havia algo de peculiar neles, como se ela estivesse prestes a fazer algo que queria fazer.
_Há uma lenda Antiga que diz que o Poder dos Bruxos se gerou há muito tempo sem nenhuma incidência da primeira vítima. O Livro da Maldição é uma espécie de pergaminho, uma história desse povo... a Bíblia dos Bruxos. Todos aqueles que possuíam esse poder sempre foram perseguidos. Em meados do século XVII, os humanos descobriram a magia no que denominaram Bruxas, e então houve uma c***l Caça ás Bruxas em Salém, obrigando a quem possuía a magia a se espalhar pelo mundo afora. Da Inglaterra aos confins do mundo todo...
Draco balançou a cabeça em aprovação.
_Bem... parece-me que pelo menos alguém prestou atenção realmente na peça, não é?
Mona lhe concedeu um sorriso tímido, e de repente, ela não me parecia mais a mesma ruiva afiada do bar ontem. Ela ficava no mínimo diferente, sem seu espartilho acobreado e as botas altas. No meio de minhas divagações, seus olhos violeta-dourados se viraram para mim, encontrando meu olhar num reflexo perfeito. Curto e direto.
Eu quis me encolher no assento, ou no mínimo, desviar o olhar, mas havia algo de comedido em seus olhos, e não consegui não olhar.
Mesmo que eles fossem neutros. Ela não esbanjou nenhuma reação, e desviou seus olhos novamente.
Virei meu rosto para o professor de novo, bem a tempo de descobrir que ele havia me feito uma pergunta. Uma pergunta que eu não havia escutado. Com as sobrancelhas levantadas, ele esperava sua reposta.
_An... desculpe? _perguntei sem graça, sentindo o olhar da classe sobre mim.
Ele piscou confuso, como se não esperasse aquilo de mim. Suspirando e retirando seus óculos quadrados de armação escura, ele fechou o encarte, se virando completamente para mim.
_Perguntei se você sabe algo a repeito do assunto, Perséphone. _ele repetiu. _Adoro quando um aluno novo sabe algo sobre a matéria. Qualquer coisa.
Engoli em seco, me sentindo extremamente desconfortável e exposta.
_Desculpe, Sr. Draco, mas não sei nada sobre bruxas...
_Não me parece que saiba algo sobre qualquer coisa... _uma voz extremamente rouca e profundamente hipnótica soou atrás de mim, seguida de risos de toda a turma.
O sangue vibrou por meus poros, numa terrível explosão de vermelho, e minha pulsação se acelerou. Era o garoto atrás de mim. Eu queria me virar e fulminá-lo com meu olhar mais perverso, mas algo me prendeu no assento, e tudo que eu queria fazer era sair correndo da sala ou encontrar qualquer buraco como ponto de fuga.
_Talvez eu devesse tirar minhas próprias conclusões sozinho a cerca de meus alunos, Sr.
Licam. _a voz de Draco era dura, mas isso não aliviou meu m*l estar.
_Tanto faz... _eu quase podia vê-lo dando de ombros atrás de mim, e mais risos chegando supérfluos no ar.
_O que você estudava em Literatura em Maryland, Perséphone? _Draco ajeitou seus óculos no rosto novamente.
_Apenas alguns sonetos de Charles Dickens e monólogos de Shakespeare. _minha voz quase não saiu, e tive que me esforçar em fazê-la soar firme. Eu não ia dar o gostinho de demonstrar a mágoa em minha voz.
_E você estaria interessada em fazer parte da peça de teatro? _ele perguntou.
_As vagas já estão cheias _o garoto atrás de mim lembrou, se intrometendo novamente, e eu queria desesperadamente ignorar as qualidades em sua voz que faziam as veias de meu pescoço saltarem.
Vamos lá, Perséphone, esbanje uma reação!
Inclinei meu nariz, disposta a não me abater por suas palavras rudes.
_Eu não ia dizer que sim.
_E eu acho que não falei com você...
Dessa vez eu me virei, e lhe lancei meu olhar mais feio, segurando as lágrimas que ameaçavam rolar por meu rosto vermelho. Tanto de vergonha quanto de raiva. Seus olhos prateados me desafiaram da mesma forma, brilhando como um gato se eriçando e mostrando os dentes. A boca estava comprimida numa linha fina.
_Não me obriguem a mandar os dois para fora da sala... _era Draco, com sua voz passiva e calma me alertando do que eu estava fazendo.
_Mas...
_Sem mais, Steyce. _Draco lhe cortou quando ele começou a falar. _Que parte sobre o
“Boas Vindas” você não entendeu?
O garoto chamado Steyce se deixou cair sobre o assento, cruzando os braços musculosos sobre o peito largo e bufando, com um olhar mortal que poderia cortar se possível fosse. Me virei para frente novamente, disposta a ignorá-lo pelo fim da tarde. Mesmo que como nunca, a vontade de voltar para casa e ter minha antiga vida de volta me acertassem em cheio, seguida pela lembrança de que independente do quanto eu desejasse, eu jamais teria isso de volta.