Um Deslize

1749 Words
Uma pesada névoa cinzenta se arrastava por entre o caminho de árvores retorcidas de casa, agarrando densamente os troncos que se abraçavam no alto de suas copas, dando a estrada um aspecto sombrio de túnel cinzento. Assim que o Neon estacionou a garagem da casa desbotada e retangular, me arrastei para dentro, seguida de Helena, que estava tão acostumada a isto quanto eu. Assim que sai do hall de entrada, o meow lânguido de Mordida anunciou a casa toda que havíamos chegado. Stela estava sentada na poltrona em frente à lareira, assistindo o noticiário do meio dia na teve em preto e branco com uma xícara fumegante de chá nas mãos. Era só isso que ela sabia fazer? Brutus comia biscoitos ao seu lado, com os olhos vidrados na mesma tela. Nem um nem outro teve o trabalho de olhar quando eu e Helena nos dirigimos às escadas. _Desçam logo para preparar o almoço _foi a única coisa que Stela disse. _Fala sério _reclamei quando já estávamos no topo das escadas _Nem isso ela pode fazer? _Ela já faz o jantar... _Helena deu de ombros. Um gosto metálico de ácido misturado com alguma coisa amarga circulou por dentro de minha boca apenas ao me lembrar da última janta. Certo. Talvez fosse realmente melhor que Stela nem mesmo chegasse perto das panelas. Cinco minutos depois, eu estava ajudando Helena com alguns bifes e batatas. Preparei uma travessa de salada de tomates e alguns rabanetes. Por fim, ajudei também com uma maionese, o prato preferido de papai. Fazer aquilo novamente me encheu de lembranças agradáveis e ao mesmo tempo torturantes. A ferida em meu peito se escancarou mais, mas foi por pouco tempo. Por alguns minutos, quase esqueci as infinitas sequências de acontecimentos perturbadores que haviam me perseguido e me atormentado até ali. Nem Stela nem Brutos comentaram o sabor do almoço, nem mesmo parabenizaram meus dotes culinários. Mas eu podia saber que eles estavam satisfeitos por não estar engolindo aquela sopa horrível do jantar. Me certifiquei de comer mais do que o necessário para não sentir fome nesse horário. Mordida espiou a mesa posta o almoço todo, com mais meows desesperados por uma migalha de atenção. Stela o botou no colo e o entupiu com bife, e mesmo saboreando o gosto da carne, seus olhos eram extremamente ferozes para mim. Isso me fez matutar se era normal algumas pessoas nessa vida desejarem cozinhar um gato vivo ou enfiá-lo dentro do micro-ondas. Eu estava convicta de ajudar com a louça, subir para o quarto, e finalmente ter meu merecido sono. Talvez eu tivesse um pouco de sorte e meus avós se esquecessem de mim por alguns cinco minutos. Ou talvez eu tivesse muita sorte e eles se esquecessem da minha existência a tarde toda. De alguma forma, eu sabia que os pesadelos voltariam a me perturbar, embora não conseguisse lidar com meu cansaço e minhas próprias frustrações. Os acontecimentos da manhã ainda estavam muito recentes para que eu pudesse esquecê-los tão facilmente. Lidar com essas situações nunca fora meu ponto forte, de forma que o essencial no momento seria dormir. Dormir e esquecer. A ideia era tão tentadora que minhas pálpebras começaram a pesar agradavelmente ainda enquanto meus pés se erguiam com dificuldade para alcançar os degraus das escadas. Simplesmente não me importava que eu tivesse tema de casa. Apesar de sempre ter sido uma aluna modestamente exemplar, eu sentia o costume contraproducente se formando naquele novo eu bem ali. Depois de tomar uma ducha fria e trocar as roupas suadas por algo mais leve, e folgado, como sempre, rumei para o quarto, me empoleirando em minha cama. A imagem de uma existência vazia me dominou. Era assim que eu ia ser de agora em diante? Desenrolei a toalha de meus cabelos, deixando que eles secassem naturalmente e umedecessem o travesseiro a baixo de minha cabeça. Eu apenas queria lidar com minha frustração do melhor jeito que eu conhecia. Fugindo dela. E não havia porque não admitir que eu era uma covarde psicótica. Meus olhos se fecharam, e no próximo segundo, subitamente, o mundo escureceu, apagando por completo qualquer indício fraco de que meus sentidos ainda estavam acordados. Primeiro, a chuva familiar de vidros, e o relance errôneo de metal se dilacerando, algo como borracha queimando inundava as terminações nervosas de minha mente. Depois, o leve farfalhar das patas de enormes aranhas se movendo para me apanhar. Os olhos vermelhos me acertavam com algo de faminto neles, e as enormes quelíceras da boca batiam, exibindo um líquido amarelo e esponjoso, que claramente lembrava a gema de ovo batida, misturada com a sopa nojenta de vovó Stela. “Sangue... “_as palavras engorduradas e manchadas de vermelho surgiam penetrando em minha mente “Sinto cheiro de sangue... Sangue para chupar. Sangue para dar vida... sangue para matar”. E novamente o som de mais patas viscerais, como algo aterrorizantemente semelhante a um bando de cobras rastejando, tão enroscadas no solo, que se contorciam para chegar a mim. “Sangue” _novamente a palavra pegajosa era a única a se propagar como PI em minha mente, existindo infinitamente numa tortura sem fim. Dando voltas e voltas. _Pegan, ACORDE... Minhas pálpebras se moveram vagarosamente, ainda sem nenhuma intenção de se abrir realmente. A voz já me era tão reconhecível, que não havia como não saber quem era. Suor escorria por meu rosto, e um estranho calor corria por minhas veias. Um arrepio quente e úmido escapava por algum ponto em minha nuca, e o cheiro morno de xampu seduziu minhas narinas a inspirarem. Meu cabelo ainda não estava completamente seco. _O que você quer, Helena? _murmurei com a língua um tanto enrolada, ainda de olhos fechados e tentada a permanecer exatamente assim. _Preciso avisar novamente que você está babando ou você já está acostumada com isso? Ensaiei uma careta. _Por favor, não me diga que já são seis e quinze novamente, _gemi, me dando conta que eu não tinha ideia de por quantas horas havia dormido _Porque eu estou cagando sobre isso... _Céus... você é tão boba... _ela se lamentou _Por quantas vezes ainda vou ter que te acordar? _O que você quer? _repeti _E que malditas horas são? _São quase cinco da tarde, então nem venha reclamar comigo sobre não deixar você dormir direito. E trate de levantar, por favor. Abri meus olhos de vagar, os comprimindo pela claridade que fluía pelo quarto através das janelas abertas, me deixando cega momentaneamente. Quando minha retícula voltou ao normal, a observei confusa. Estava estonteante, como sempre, com um vestido tubinho vermelho e os cabelos soltos. Enruguei a testa. _O que tem em mente? _Uma ida ao shopping. Rolei os olhos. _Você não se cansa mesmo de sair o tempo todo não é? _Sabe, eu ia perguntar o mesmo a você sobre dormir e babar o tempo todo... Afundei o rosto no travesseiro de plumas, odiando ter uma prima tão bonita que muito provavelmente ia querer mesmo passar cada minuto de seu tempo dentro de um shopping Center garimpando sapatos esquisitos ou com a cabeça enfiada em um tubo de tratamento para cabelos em algum salão de beleza. _Me deixe adivinhar... _minha voz saiu abafada pelas fibras do travesseiro _Você requisita minha presença. _Na verdade, eu ordeno. _ela deu de ombros, deslizando até mim e arrancando as cobertas de cima de minhas pernas _Vamos, sua preguiçosa. Trate de levantar essa b***a do colchão agora mesmo. Não aguento isso. Como você consegue fazer isso? Definhar numa cama é a sua melhor ideia de diversão? _E quem disse que eu estou tentando me divertir? _alfinetei. _PERSÉPHONE MORGAN _ela bufou pondo as mãos na cintura _Levante dessa droga agora mesmo! A encarei com as pálpebras semicerradas. _Algo me diz que eu não tenho muito poder de escolha nesse caso, tenho? _Bem, isso é bom. Você aprende rápido. * * * _Falo completa e absurdamente sério quando digo que não entendo _Helena tagarelava com um papagaio loiro ao meu lado, atrás do volante de couro do Neon _Como você consegue fazer isso o tempo todo? Se esconder do mundo dessa forma? Eu... simplesmente não consigo. Suspirei com força, sentindo o cinto apertado comprimindo meu peito ao realizar o ato. Apontei para frente. _Por que você simplesmente não dirige? _Ok, estou dirigindo, caso ainda não tenha notado, Pegan... _Claro... também notei que não parou de tagarelar um segundo sequer até aqui. _É sua culpa. Você me irrita. Dei de ombros, encarando a paisagem indistinta que se passava como um borrão de cores a minha volta. _Bem... parece que eu tenho mesmo um talento nato para isso... _Não precisa ser sarcástica, tá? Já saquei. De repente, sua saída repentina e a muita queima de gasolina me fez pensar em como ela tinha dinheiro para o shopping e para abastecer o carro o tempo todo. A olhei de esguelha, raciocinando sobre um possível lado de Helena que talvez eu não conhecesse. _Como você tem tanto dinheiro? _simplesmente perguntei, realmente curiosa. Por apenas um segundo, pensei te-la visto corar. _Eu tenho um emprego nos fins de semana no Maça Envenenada _ela deu de ombros, girando o volante para fazer uma curva na avenida, no exato momento em que estiquei o pescoço para ela com um olhar esbugalhado _Ei, nem olhe assim. Você vai ter que trabalhar lá também, no mesmo período que eu, se vale a pena constar... _Ficou maluca? Eu não vou trabalhar naquela coisa nem mesmo que seja apenas lustrando as bolas de sinuca ou filtrando a fumaça de cigarro!!! _ralhei agarrando o banco em baixo de mim com os dedos apertados. _Infelizmente, parece-me que você não tem muita escolha. Você tem dezesseis anos. Stela quer que você trabalhe... _Ela pelo menos sabe daquela droga que você chama de Maça Envenenada? Ela rolou os olhos _Quem você acha que arranjou os empregos? Puxei o ar com força, não conseguindo realmente acreditar naquilo que estava ouvindo. Como avós em sã consciência iriam querer as netas trabalhando num local como aquele bar? O que vovó Stela esperava? Que eu fizesse um show de streeptease no balcão? _Ora, é claro que ela não quer isso, Pegam... _Helena bufou, e percebi que havia verbalizado meus pensamentos. _Se bem que, talvez, Sid fosse se agradar da ideia... Lhe lancei um olhar feio, enquanto as folhas voavam na estrada atrás de nós, no caminho de árvores antes de chegarmos a cidade. _Vai sonhando. Não entro mais naquele antro_teimei _Já disso isso e é o que vou fazer.
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