_Pare com isso! _ela bufou na voz hostil de sempre _Você está exagerando e sabe disso. Afinal de contas, amanhã ainda é sexta feira, e ainda tem a festa de Halowheen antes de sábado, então de qualquer modo...
_Festa de Halowheen? _a interrompi surpresa novamente.
_Por favor, Pegam. Será que você não sabe que o Halowheen é comemorado no dia 31º de outubro? Ou será que vou ter de explicar sobre isso também?
_Eu sei quando é o dia das bruxas... só achei que, não sei... que a festa não fosse amanhã, já. _gaguejei. Entre comparecer na festa e ficar parada na entrada da porta de casa distribuindo os supostos biscoitos horríveis de vovó Stela, eu ainda não sabia qual era a pior opção.
_Oh, claro. Porque você está sempre pensando as coisas erradas.
Helena abriu a boca novamente, e eu soube que ela ia falar alguma coisa, mas um som metálico a interrompeu no começo da frase não dita, e depois de um estouro estranho, o Neon pulou na estrada, me fazendo agarrar o assento com ainda mais força.
Um som horrível de borracha queimada perfurou o ar até minhas narinas, e fiz uma careta quando, com um palavrão baixinho, Helena girou o volante de couro do carro, o estacionando no acostamento da estrada. Ela desligou o motor, e o chio prosseguiu-se até nós, nos fazendo olhar instintivamente uma para a outra.
_Raios! Era só o que me faltava!
Helena desatou o cinto e pulou para fora do carro. E logo em seguida, eu a imitei, saindo para a brisa calma do fim de tarde, e ignorando o fato de que éramos as únicas criaturas vivas naquele pedaço de asfalto. A cidade ainda ficava a uns três minutos de carro. Ou seja; a uns cinco a pé.
Helena se agachou a frente de um dos pneus, com uma careta de desgosto. A segui, flexionando os joelhos para olhar.
Um pedaço de metal pontudo semelhante a uma pedra em forma de chapa havia perfurado a borracha resistente do pneu murcho, onde uma fina lasca de fumaça evaporava, com um chiado baixo e um cheiro ardente.
_Podemos ligar para uma oficina? _perguntei, lembrando-me de que era isso que papai fazia em momentos como este.
Helena sibilou. Estava concentrada demais no que via para responder de imediato.
_Eles não podem dar conta disso...
_Você sabe trocar pneus? _perguntei com as sobrancelhas arqueadas, a mirando de alto a baixo.
_É claro que não, Pegan. Tenho cara disso?
Mirei a estrada. Dali já era possível ver os arranha céus do Rio e a transição caótica da cidade misturada a fumaça de poluição dentre outras coisas que toda cidade possuí.
Considerei nossas opções.
_Podemos ir a pé...
_Não vou deixar meu carro aqui.
_Então o que vamos fazer? _cruzei os braços. Não me agradava ficar ali parada a espera de ajuda ou de qualquer assassino em série disfarçado de bom camarada.
_Vou... ligar para alguém... _ela parecia perdida _Vá até o banco de trás e pegue minha bolsa.
Fiz o que ela pediu. Arrebatei sua bolsa marrom e cheia de pregas do banco de trás e fechei a porta atrás de mim logo em seguida. Mas antes mesmo que pudesse fechar a porta, com um vislumbre rápido de olhar, vi o dedo indicador longo e esguio de Helena rabiscar alguma coisa no pneu. Alguma coisa que fez um clarão tomar minha mente por um segundo, me deixando tonta. Minhas veias e músculos tremeram, e cambaleei alguns centímetros, quase deixando que sua bolsa caísse.
Quando passou, caminhei tonta até ela, e lhe passei a bolsa.
_Aqui está.
Ela a pegou no colo, abriu e vasculhou por dentro, me olhando logo em seguida.
_Viu, não trouxe meu celular... _ela se levantou graciosamente, dando a volta no Neon em direção a porta novamente _Ei, vamos Pegam, não temos o dia todo.
_Mas, _sibilei atônita _E o pneu do...
Mas meus protestos se silenciaram quando meus olhos se viraram para o pneu danificado. Por que ele não estava danificado. A borracha preta estava lisa, uniforme e firme, ou de qualquer jeito que deveria ser o material da borracha de um pneu.
Enruguei a testa, arqueando as sobrancelhas.
_Mas... o pneu... _gaguejei _Ele... _olhei confusa para Helena.
Com sua porta já aberta, ela me observou por cima do teto prateado do Neon, levantando uma sobrancelha e genuinamente confusa.
_Pegan? Está maluca?
Por um momento, me perguntei se eu havia realmente visto o que vira antes, ou se minha mente me confundira, me pregando uma peça mais uma vez. Mas depois, a realidade tomou forma em meu estômago, manchando minha visão de vermelho incandescente.
Você é uma aberração, Perséphone. E tem visto coisas ultimamente que nem mesmo existem. Não faça sua prima a achar ainda mais esquisita do que você já é...
Voltei para o carro em silêncio, sob o olhar de estranheza de Helena. Enquanto seguíamos estrada à frente, eu já nem sabia mais o que em minha vida havia realmente acontecido.