❝ Todo recomeço carrega duas coisas:
O medo do desconhecido...
E a esperança de que, dessa vez, tudo seja diferente. ❞
Às vezes, Deus desenha recomeços em formas que a gente não espera.
E, pra mim, ele desenhou em forma de um e-mail.
Estava ali, na tela do meu computador.
Uma frase tão simples... tão pequena... e, ao mesmo tempo, tão grande.
"Parabéns, você foi selecionada. Bolsa integral para o curso de Fotografia na Universidade de Toronto."
Meu coração parou.
Ou bateu rápido demais pra que eu conseguisse perceber.
Por alguns segundos, eu só... olhei. Olhei aquelas palavras como quem olha pra uma porta entreaberta depois de passar anos trancada dentro de si mesma.
— Não... — sussurrei, quase sem voz. — Isso não é possível.
Meus olhos marejaram. Minha respiração falhou. Meu peito apertou de um jeito que só quem já passou tempo demais carregando mais dor do que deveria... entende.
Era real.
Pela primeira vez... algo bom era real.
Uma chance.
Uma fuga.
Um recomeço.
Mas junto com aquela euforia quase impossível de explicar... veio o medo.
O medo do desconhecido.
O medo de que, mesmo a quilômetros de distância, eu ainda não conseguisse me livrar das sombras que o passado deixou em mim.
Me sentei na cama, puxei os joelhos contra o peito e abracei meu próprio corpo, como se assim eu conseguisse segurar tudo: o choro, o sorriso, a confusão.
Era pra ser um dia comum.
Mais um daqueles dias cinzas, vazios, iguais a todos os outros desde... desde que tudo desabou.
Mas, de repente, parecia que o universo inteiro tinha decidido me dizer: "Levanta, garota. Você merece mais do que só sobreviver."
Peguei meu celular, tremendo.
A primeira pessoa que eu precisava contar era ele.
— Dani... — minha voz saiu baixa, rouca, trêmula.
Do outro lado da linha, meu irmão atendeu na mesma hora.
— Fala, minha pequena — respondeu no tom leve, aquele tom que sempre parecia querer disfarçar a preocupação que ele carregava comigo desde... desde que tudo aconteceu. — Tá tudo bem?
Pausa.
Respiração presa.
— Dani... eu... eu consegui. — E a voz falhou no meio da frase, engolida por um soluço inesperado. — Eu consegui... a bolsa. A bolsa, Dani. Eu... vou pro Canadá.
O silêncio dele não durou mais que dois segundos, mas pra mim, foi como uma eternidade.
— Você tá falando sério? — a voz dele agora soava incrédula, mas cheia... cheia de esperança.
— Eu tô... eu tô indo embora, Dani.
Fechei os olhos e deixei uma lágrima escorrer. Não era tristeza.
Não era dor.
Era... libertação.
Talvez.
Ou talvez fosse só aquele misto louco de quem tá entre o medo de ir e o medo de ficar.
Do outro lado da linha, ele respirou fundo.
— Então, meu amor... se é pra ser... que seja o começo do teu propósito.
E, naquele momento, eu percebi:
Talvez... só talvez... meu propósito não seja esquecer o que me feriu.
Mas aprender... que até a dor... também faz parte do caminho.
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O aeroporto parecia grande demais.
Barulhento demais.
Assustador demais.
E, por mais que eu soubesse que esse dia ia chegar... agora que ele chegou, meu coração parecia apertar mais do que eu achei que apertaria.
Meus olhos passeavam entre as malas, as pessoas andando apressadas, os avisos no alto-falante, o cheiro de café e aquele clima típico de despedidas.
Daniel estava do meu lado.
Sério. Mais sério do que eu já tinha visto na vida.
— Vai dar tudo certo, pequena. — Ele segurou meu rosto com as duas mãos, fazendo carinho com os polegares. — Você nasceu pra isso.
Meus olhos marejaram. E, mesmo tentando ser forte... não deu.
— Eu tô com medo, Dani. — Minha voz saiu baixa, trêmula. — E se eu não der conta? E se eu me perder? E se... e se eu não conseguir...?
Ele respirou fundo, segurou minhas mãos e apertou forte.
— Ei... — Seu olhar encontrou o meu. — Deus não te trouxe até aqui pra te abandonar no meio do caminho. Você não tá sozinha, Sophia. Nem aqui... nem lá.
As lágrimas desceram sem que eu pudesse segurar.
— Te amo, Dani... — sussurrei, abraçando ele com tanta força que parecia que meu corpo implorava pra não soltar nunca mais. — Obrigada... por tudo.
— E eu te amo mais, minha pequena. — A voz dele falhou. — Vai... vive. Vive o que Deus preparou pra você.
O aviso de embarque soou. E, junto com ele, o frio na barriga que me fez perceber que... não tinha mais volta.
Dei um último olhar, um último aceno... e segui.
O coração apertado.
As mãos tremendo.
Mas os pés... firmes.
"Se Deus me trouxe até aqui... Ele vai comigo até lá."
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O voo foi longo.
Longo o suficiente pra que eu pensasse em tudo.
Em cada memória.
Cada dor.
Cada cicatriz.
E, principalmente... em tudo que eu queria deixar pra trás.
Quando o piloto anunciou a chegada, meu peito pareceu explodir em um misto de medo, ansiedade e esperança.
O avião pousou.
As luzes acenderam.
As portas se abriram.
E, quando meus pés tocaram o chão frio daquele país desconhecido... eu respirei fundo.
"É aqui... é aqui que minha nova história começa."
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A primeira coisa que eu percebi foi o frio.
Um frio que parecia me abraçar, me dizer que aqui... tudo seria diferente.
As ruas, o cheiro, as pessoas, o céu... tudo.
Tudo tinha cara de recomeço.
Fui até o saguão de desembarque. Um senhor simpático segurava uma plaquinha com meu nome:
"Sophia Campbell"
— Bem-vinda, senhorita Campbell. — Ele sorriu. — Seja bem-vinda ao Canadá.
E, naquele exato momento... eu soube.
Talvez... só talvez... eu realmente tivesse encontrado o meu lugar.