❝ A vida tem dessas...
Às vezes, você acorda pra um novo dia sem saber que ele tá prestes a virar sua vida de cabeça pra baixo. ❞
O som do despertador ecoou no quarto, me arrancando do pouco sono que consegui ter.
Por alguns segundos, fiquei olhando o teto branco, tentando entender se aquilo tudo era real.
Se era verdade que eu estava... aqui.
No Canadá.
A quilômetros de distância de tudo que eu conhecia.
Respirei fundo, dobrei os joelhos ao lado da cama, fechei os olhos e sussurrei:
— Senhor... eu coloco esse dia nas Tuas mãos. Me guia, me guarda, abre portas, me fortalece. Que, mesmo perdida no meio do novo, eu me lembre... que nunca estive sozinha. Em nome de Jesus, amém.
Levantei, encarei o reflexo no espelho e, pela primeira vez em muito tempo... eu não sabia quem eu era.
Uma menina? Uma sobrevivente? Uma estrangeira?
Talvez um pouco de tudo.
O frio parecia atravessar minha pele, me lembrando que eu realmente estava longe de casa.
Depois do banho e da guerra contra o guarda-roupa — tentando combinar "bonito, quente e confortável" — finalmente me olhei no espelho e sussurrei:
— Você consegue. Você não chegou até aqui pra desistir.
Peguei meus documentos, a bolsa, os óculos, travei a porta do dormitório e desci as escadas respirando fundo.
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O campus parecia maior do que eu lembrava nas fotos.
Pessoas andando apressadas, algumas com cara de sono, outras de tédio, grupos rindo, outros só no celular...
E eu.
A garota nova.
Perdida.
Sozinha.
Respirei fundo, segui as placas até o setor da administração. Meus olhos tentavam absorver cada detalhe, cada prédio, cada som.
Cheguei na recepção, peguei a senha e esperei.
O cheiro de café misturado com cheiro de papel novo, carpetes e madeira me trouxe uma estranha sensação de conforto.
— Próxima — chamou uma voz feminina.
Me aproximei do balcão.
— Bom dia. Sou Sophia Campbell, aluna nova... do Brasil.
A mulher sorriu, digitando algo no computador.
— Ah, sim! Bem-vinda. Você está na lista dos alunos internacionais. Aqui estão seus documentos de matrícula, seu mapa do campus e seu horário de aulas.
— Obrigada — sorri, tentando disfarçar o nervoso.
— E... espera um minutinho — ela olhou pra um papel — o responsável do comitê estudantil vai te acompanhar no tour pela universidade.
— Ah... — engoli seco. — Certo.
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Minutos depois, ouvi uma voz doce, leve e absurdamente empolgada.
— Ai, meu Deus... você deve ser a Sophia, né?! — uma garota apareceu na minha frente, quase saltando. — Eu sou Mikaela! Mas pode me chamar de Mika, todo mundo chama. E você... nossa, você é tão fofa!
Pisquei, meio sem reação.
— Oi... sim, sou eu — respondi, sorrindo, meio tímida, meio perdida.
— Seja bem-vinda, garota! — ela segurou minha mão, me puxando como se já fossemos melhores amigas há anos. — Bora, eu vou te mostrar tudo.
E, naquele momento... eu não sabia se queria rir, chorar ou abraçar Deus por ter colocado uma Mika no meu caminho.
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Enquanto ela falava — muito — apontava prédios, contava curiosidades, fazia piadas, e praticamente me dava um mapa vivo do campus, percebi um garoto alto, moreno, de olhos muito marcantes, andando na nossa direção.
— Ah, esse é meu irmão. — Mika sorriu, meio debochada. — Alexander, essa é a Sophia.
Ele levantou o olhar, me encarou por uns dois segundos a mais do que o necessário.
— Bem-vinda — disse, com a voz baixa, calma, mas que carregava mais mistério do que qualquer outro som naquele campus.
Sorri, apertando a alça da bolsa.
— Obrigada...
Mika revirou os olhos, divertida.
— Não liga pra cara de serial killer dele, tá? Ele é gente boa... eu juro.
Ri. De verdade.
Daqueles risos que você nem lembra mais que existiam dentro de você.
E, naquele momento, pela primeira vez desde que cheguei... eu percebi que talvez... só talvez... eu não precisasse carregar tudo isso sozinha.