❝ E, às vezes, é assim que começa...
Não com flores, nem com sorrisos...Mas com farpas, olhares cruzados, provocações e aquele tipo de encontro que, à primeira vista, parece um erro...Mas que, no fundo, a vida já sabia que era só o começo. ❞
Quando a coordenadora disse que o presidente do comitê estudantil seria o responsável por me apresentar a universidade, eu imaginei alguém... simpático.
Educado.
Acolhedor, talvez.
O que eu não imaginei — e honestamente, se alguém me contasse, eu não teria acreditado — era que esse alguém seria... ele.
O garoto do estacionamento.
O garoto com o olhar mais a*******e e o sorriso mais insuportável que eu já tinha visto.
— Você? — minha voz saiu mais alta do que deveria, carregada de pura incredulidade.
Ele cruzou os braços, encostando na parede, aquele sorriso de canto estampado nos lábios — o tipo de sorriso que deveria ser ilegal em trinta países, de tão provocante e irritante ao mesmo tempo.
— Pois é, pirralha. — A palavra soou quase carinhosa, quase. — Parece que o universo gosta de brincar com a gente.
A coordenadora, claro, fingiu que não percebeu a tensão palpável entre nós.
— Caleb é o presidente do comitê estudantil. Vai te mostrar toda a universidade, te ajudar a se situar, entender as regras, os setores... essas coisas. — Sorriu, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
— Que sorte a minha... — murmurei, cruzando os braços.
— Nem começa — ele rebateu, ajeitando a gola da jaqueta. — Eu tô tão feliz com isso quanto você, pirralha.
Ele empurrou o corpo da parede, olhou pra mim de cima abaixo — com aquele olhar que parecia me medir, me escanear, me provocar, me testar — e fez um sinal com a cabeça.
— Anda. Vamos acabar logo com isso.
Resisti por dois segundos à v*****e de simplesmente fingir um desmaio, mas no fim, segui. "Deus, dai-me paciência... porque se me der força..."
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— Ali fica o prédio de Artes — apontou, seco, sem sequer olhar pra mim. — É onde ficam suas aulas de fotografia.
— Nossa... dá pra sentir sua animação em me ajudar — falei, cruzando os braços.
Ele parou, virou-se devagar e arqueou uma sobrancelha.
— Eu poderia simplesmente ignorar, sabe. Mas, infelizmente, a coordenadora me obrigou.
— Relaxa, eu também não escolhi estar aqui com você — rebati, respirando fundo.
— Ah, isso ficou bem claro desde o primeiro olhar torto que você me lançou, pirralha.
— Me chama de pirralha mais uma vez... — ameacei, apertando os olhos.
Ele segurou o riso, mordeu o lábio inferior, desviou o olhar e continuou andando.
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Ele me levou pelo campus inteiro, apontando os setores de forma rápida, sem emoção, como quem recita um roteiro que odeia.
Mas... não era só arrogância.
Havia algo no jeito dele que me deixava desconcertada.
Não era só a postura de quem se acha superior.
Era o olhar.
Aquele olhar carregava uma coisa que eu conhecia muito bem:
Dor disfarçada de frieza.
E, por mais que eu quisesse ignorar... eu sabia.
Eu reconhecia.
Porque quem carrega uma cicatriz... aprende a reconhecer outra.
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Quando chegamos ao pátio central, ele parou.
— Senta aí — apontou pra uma das mesas.
— Pra quê?
— Protocolo — respondeu, já indo pedir dois cafés. — Relacionamento institucional, sabe.
Me sentei, cruzando os braços.
Quando voltou, colocou meu copo na mesa, sem nem perguntar se eu queria.
— E se eu não gosto de café? — arqueei a sobrancelha.
— Então aprende. — Deu de ombros. — Isso aqui vai ser sua fonte de vida nos próximos semestres.
Segurei o copo, e o encarei.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Só se encarou.
E, por mais que eu quisesse odiar... tinha algo nele que me desconcertava.
Ele respirou fundo, ajeitou a jaqueta no corpo, e apoiou os cotovelos na mesa.
— Tá... — disse, olhando pra mim com mais seriedade dessa vez. — Caleb. Caleb Wood.
— Sei. — Cruzei os braços, fingindo indiferença. — Já tinha percebido.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Ah, é?
— Aham. O andar de dono do campus meio que entrega, sabe.
Ele segurou o sorriso.
— E você?
Pisquei, meio surpresa.
— Eu...?
— É. Você. Nome, idade, procedência. — Deu um gole no café. — Fala aí, pirralha.
Revirei os olhos, mas estendi a mão, com mais firmeza do que eu mesma esperava.
— Sophia. Sophia Campbell. Brasileira. Estudante de fotografia. E oficialmente... seu problema até o fim do semestre.
Ele apertou minha mão. Firme. Forte.
Por alguns segundos... só aquilo.
Só nossas mãos ali, no meio daquele cabo de guerra invisível que, no fundo, ambos sabiam que tava começando.
Quando soltei, ele se recostou na cadeira e sorriu, daquele jeito que parecia carregar todos os segredos do universo.
— Ótimo. — Disse, ajeitando os braços atrás da cabeça. — Então tá oficialmente apresentada... pirralha.
— Eu juro... — comecei, mas ele levantou, com aquele sorriso torto que parecia ter sido criado só pra me provocar.
— Relaxa, Campbell. A gente ainda tem muito tempo pra se odiar.
E saiu.
Mãos nos bolsos.
Andando como quem carrega o mundo nas costas... mas não quer que ninguém perceba.
Fiquei sentada, segurando o copo de café, olhando ele se afastar...
E, por algum motivo que eu não queria nem começar a entender...
Uma voz dentro de mim sussurrou:
"Talvez... esse seja só o começo."