❝ Às vezes, as pessoas constroem muros tão altos pra se proteger...
Que nem percebem quando alguém começa a escalar. ❞
Se alguém me dissesse que meu primeiro dia oficial aqui seria marcado por um choque — físico, verbal e, talvez, emocional — com o ser humano mais insuportável que Deus colocou na Terra... eu teria rido.
Mas lá estava eu.
Diante dele.
De novo.
E por mais que uma parte de mim quisesse ignorar, a outra...
Bom, a outra parecia não conseguir parar de prestar atenção.
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Depois do nosso embate no pátio, eu tentei seguir meu dia.
De verdade, eu tentei.
Me joguei nas burocracias, fui atrás da papelada na administração, organizei meus horários, explorei um pouco mais do campus, me forcei a pensar em qualquer coisa que não tivesse olhos claros, sorriso torto e aquele andar de dono do mundo.
Mas sabe aquele tipo de pessoa que parece estar em todos os lugares?
Pois é.
Caleb cruzava meu caminho no mínimo três vezes em menos de uma hora.
E não, não era coincidência.
Era provocação do universo.
Ou karma.
Provavelmente karma.
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Encontrei Mikaela na saída do prédio de Artes, e, graças a Deus, a presença dela foi como um respiro no meio daquele turbilhão.
— Sophiiiii! — Ela correu até mim, praticamente me esmagando num abraço. — E aí, sobreviveu?
— Mais ou menos... — respondi, rindo fraco. — Digamos que... algumas pessoas tornam a sobrevivência um pouco mais desafiadora.
Ela arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Ah, não me diga... — fez uma pausa dramática. — Você esbarrou no Caleb?
— Esbarrei... tropecei... quase enfiei um livro na cara dele. Serve?
Mika colocou a mão na boca, segurando uma risada.
— Ai, meu Deus, vocês dois vão se m***r. Ou se amar. — Piscou. — Ainda não decidi.
— Que horror, Mika! — falei, rindo, mas ao mesmo tempo... sentindo aquele arrepio esquisito na espinha. — Amor tá looonge disso, tá?
Ela apenas sorriu, daquele jeito que quem sabe mais do que devia costuma sorrir.
— Ah, querida... quem viver, verá.
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O problema... é que, por mais que eu quisesse ignorar...
Toda vez que eu cruzava com aquele par de olhos, alguma coisa dentro de mim estremecia.
Não era só raiva.
Não era só desconforto.
Era...
Era aquela sensação de que tinha mais ali.
Porque, às vezes, quando ele achava que ninguém tava olhando... o olhar dele mudava.
Deixava de ser a*******e.
Deixava de ser prepotente.
E se tornava... vazio.
Quebrado.
Quase... triste.
Mas, assim que percebia, ele voltava a vestir a máscara.
Frio.
Afastado.
Intocável.
E eu percebi, cedo demais, que as paredes que ele ergueu...
Não foram pra manter os outros longe.
Foram pra manter ele... inteiro.
O problema das paredes altas demais...
É que, cedo ou tarde... alguém sempre acaba escalando.