capítulo 2 Beatriz

1023 Words
BEATRIZ Como muitos, sempre acreditei que um dia encontraria um príncipe encantado e que viveríamos felizes para sempre. No entanto, me pergunto se esse felizes para sempre realmente existe, ou se a felicidade é uma palavra que não é destinada a mim. A verdade é que a felicidade parece ter desaparecido da minha vida. Minha crença na felicidade começou a desmoronar no momento em que fui abusada por quem deveria me proteger. Meu nome é Beatriz Martinez, tenho 28 anos e carrego um trauma do passado que nunca poderei esquecer. Contudo, não posso afirmar que deixei de viver por causa desse trauma – claro que não, pois a vida continua, mesmo diante de todos os desafios que enfrentei para estar onde estou hoje. Perdi meu pai em um acidente de carro quando tinha apenas 8 anos. A partir desse momento, minha mãe e eu nos tornamos as únicas sobreviventes de nossa pequena família. Ela jurou que nunca mais se casaria, mas, um ano após a morte de meu pai, conheceu um rapaz. Eles se apaixonaram e decidiram morar juntos. Embora eu fosse ainda muito jovem, algo no novo marido da minha mãe não me agradava. Ele prometeu que seria como um pai para mim, demonstrava carinho, me mimava e frequentemente se oferecia para ajudar com as lições de casa – mesmo quando eu hesitava, ele insistia em apoiar-me. Por incrível que pareça, ele estava mais presente na minha vida do que minha própria mãe, que, após o novo casamento, se afastou de mim. Conforme fui crescendo, aos 15 anos, notei que meu padrasto e minha mãe começaram a discutir com frequência. Eu presenciava as agressões e, para evitar aquelas cenas terríveis, frequentemente me trancava no quarto. Minha mãe havia escolhido o marido, e apesar da dor que sentia ao vê-la sofrer, não me sentia à vontade para intervir, pois ela sempre dizia para eu não me intrometer, alegando que ele era seu marido. Os dias se passavam e as brigas tornavam-se cada vez mais frequentes. Além disso, comecei a notar que meu padrasto estava me olhando de maneira diferente. Essa mudança me incomodou bastante, e comecei a me afastar dele, não desejando ser alvo daqueles olhares que me causavam tanto medo. Uma noite, enquanto estava em meu quarto, minha mãe chegou agitada, me entregou dinheiro e pediu que eu fugisse para longe. Tentei questioná-la sobre o motivo daquela exigência, mas ela apenas mandou que eu calasse a boca e confiasse nela. O que eu não sabia era que, naquele dia, sofreria dois traumas que mudariam minha vida para sempre. Antes que minha mãe pudesse me ajudar a escapar daquela casa, meu padrasto, Lucas, chegou sob efeito de drogas e invadiu meu quarto, arrastando minha mãe para fora. Aquela situação foi insuportável, e eu não podia permitir que ele a tratasse assim. Implorei para que ele soltasse minha mãe, mas ele ignorou meu pedido. Começou a ofendê-la, chamando-a de traidora, afirmando que ela o havia traído. Fiquei atônita ao ouvir aquilo, percebendo que minha mãe queria se afastar dele. Sem ouvir as explicações dela, em um ato covarde, ele disparou contra ela. Desesperada, corri até minha mãe, mas já era tarde; ela estava morta. Não sabia como agir, se o enfrentava ou se chamava a polícia. Quando tentei me defender, ele me agarrou e me arrastou para o quarto, começando a tirar minhas roupas. Tentei resistir, chutá-lo, mas sua força era esmagadora. Ele me agrediu, desferindo um tapa em meu rosto e um soco em minha barriga, rasgando minhas roupas e me deixando nua, enquanto me xingava com palavras horríveis. Tentei fugir, mas ele puxou meu cabelo e começou a se despir. Gritei por socorro,mas quanto mais eu gritava mais ele me batia, ele abusou de mim, e eu me sentia sem forças para lutar após a agressão. Depois daquele ato horrível, ele gozou dentro de mim e deixou o quarto. Permaneci em estado de choque naquela cama, sentindo dor por todo o corpo, mas consegui encontrar a força necessária para me levantar e me vestir. Peguei minha mochila com algumas roupas, fui até a minha mãe e, sentindo uma dor imensa dentro de mim, dei um último beijo nela antes de deixar aquela casa insuportável. Não sabia para onde ir ou a quem recorrer. Denunciar meu padrasto seria uma opção, mas o que eu poderia dizer? Uma adolescente de 15 anos, tinha acabado de ser vítima de abuso e minha mãe havia falecido. O que fariam comigo, então? A ideia de ir para um orfanato era algo que eu não aceitava; não queria ficar presa em um lugar que não me faria bem. Passei a noite em um parque, longe daquela maldita casa, apenas com meu cachorro Lucas, sem comer ou beber. Estava fraca e sem saber como proceder. Finalmente, eu me levantei e comecei a andar até que cheguei a uma igreja cristã, onde havia um culto em andamento. Ouvir as palavras de uma mulher que parecia ser pastora fez meu coração se partir ainda mais: Bem-aventurados os que choram, pois eles serão consolados. O Senhor está próximo dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido. Em um momento de desespero, entrei na igreja em estado deplorável, dirigindo-me à frente e ajoelhando-me diante do altar. Buscava entregar-me de corpo e alma a Deus, almejando aliviar a dor que carregava. As palavras bem-aventurados os que choram, pois serão consolados refletiam exatamente o que eu desejava naquele instante: ser confortada por Deus. Naquele dia, encontrei abrigo em um casal de pastores que se compadeceu da minha história. Além de denunciar meu padrasto, eles cuidaram do sepultamento da minha mãe e me acolheram, pelos quais sou eternamente grata a Deus. Após 12 anos, mesmo diante de todas as adversidades que enfrentei, encontrei um motivo para lutar. No início, relutava em aceitar essa realidade, mas meus pais adotivos me ensinaram que um filho é uma bênção, independentemente das circunstâncias em que veio ao mundo. Hoje, vivo por meu filho. Transformei-me em uma mãe leoa, e, apesar de ser fruto de uma experiência dolorosa, ele é meu, e somente meu: meu filho, Brian.
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