Corri.
Não foi bonito. Não foi elegante. Foi necessário.
O primeiro salto saiu ainda na calçada iluminada, abandonado como um erro caro demais para carregar. O segundo veio logo depois, arremessado para trás sem cerimônia. Meus pés tocaram o chão frio e irregular, e eu agradeci. Dor é honesta. Dor mantém acordada.
O vestido vermelho pesava menos agora que o salão ficara para trás. As luzes douradas morreram rápido demais. As vozes também. Restou só o som da minha respiração e o bater do sangue nos ouvidos.
Dois quarteirões nunca pareceram tão longos.
Virei a esquina errada por reflexo e corrigi na seguinte, xingando baixo. A máscara já estava na minha mão, depois no bolso. Não precisava mais esconder o rosto. Precisava desaparecer.
Vi o carro velho de Giulia parado na rua lateral, discreto demais para quem não sabe procurar. O alívio veio forte, quase me fez tropeçar. Abri a porta antes mesmo de ela destravar direito.
— Anda — falei, jogando-me no banco. — Anda, anda, anda.
Giulia girou a chave.
Nada.
— Giulia.
— Eu sei, eu sei — ela respondeu, girando de novo.
O motor tossiu. Engasgou. Silêncio.
— Giulia.
— Não me apressa — ela disse, dentes cerrados. — Isso só deixa ele nervoso.
— Ele não é um ser vivo.
— Discordo.
Girei o corpo para olhar para trás. A rua ainda estava vazia, mas isso não significava nada. Nada nunca significa nada até significar tudo.
— Anda — repeti, mais baixo agora.
Ela girou a chave outra vez.
O motor ligou com um estrondo alto demais para qualquer plano sensato. Um barulho obsceno, metálico, que ecoou pela rua como um tiro m*l dado.
Por um segundo inteiro, congelamos.
Depois, começamos a rir.
Rir de nervoso. Rir de alívio. Rir porque ainda estávamos respirando.
— Viu? — Giulia disse, arrancando com o carro. — Ele só precisava de incentivo.
— Incentivo quase nos matou — respondi, ainda rindo.
O carro avançou aos solavancos, ganhando velocidade como quem não tem nada a perder. As luzes do baile ficaram para trás. O mundo voltou a ser rua comum, prédios comuns, gente comum que não fazia ideia do que quase aconteceu.
Encostei a cabeça no banco. Fechei os olhos por um instante. Meus pés doíam. Minhas mãos tremiam. Meu coração ainda corria como se estivesse sendo perseguido.
— Então — Giulia disse depois de alguns minutos. — Como foi?
Abri os olhos devagar.
— Eu joguei uma informação no colo de Lorenzo Bianchi.
Ela me olhou rápido, surpresa.
— Você fez o quê?
— O suficiente para ele não dormir hoje — respondi. — Nem amanhã.
— Caterina…
— Calma — interrompi. — Não dei tudo. Nunca se dá tudo.
Ela soltou um riso curto.
— Claro que não.
Olhei pela janela. A cidade parecia outra quando não se está escondendo.
— Ele vai me procurar — continuei. — Não porque confia em mim. Mas porque agora sabe que eu sei.
— E você quer o quê dele?
Pensei na pergunta por alguns segundos. A resposta já estava ali havia anos. Só nunca tinha sido dita em voz alta.
— Proteção — falei. — Um nome que não seja o meu. Um lugar onde ninguém saiba quem eu limpei, o que eu ouvi, ou de quem eu sou filha.
Giulia assentiu, séria agora.
— E se ele disser não?
Sorri, cansada, mas inteira.
— Então eu procuro outro.
Ela riu de novo, balançando a cabeça.
— Você é louca.
— Não — corrigi. — Só cansei de sobreviver de joelhos.
O carro seguiu pela rua escura, motor reclamando, mas obediente. Apoiei os pés descalços no painel por um instante, sentindo o frio subir pela pele.
Dentro da minha cabeça, a imagem dele ainda estava ali. O homem de ombros largos. O olhar atento. A pulseira escorregando do meu pulso.
Mas eu empurrei isso para longe.
Romance é luxo.
Sobrevivência é prioridade.
E naquela noite, eu tinha feito a coisa mais perigosa de todas:
Eu tinha sido vista.