Capítulo 6 - Caterina

669 Words
Corri. Não foi bonito. Não foi elegante. Foi necessário. O primeiro salto saiu ainda na calçada iluminada, abandonado como um erro caro demais para carregar. O segundo veio logo depois, arremessado para trás sem cerimônia. Meus pés tocaram o chão frio e irregular, e eu agradeci. Dor é honesta. Dor mantém acordada. O vestido vermelho pesava menos agora que o salão ficara para trás. As luzes douradas morreram rápido demais. As vozes também. Restou só o som da minha respiração e o bater do sangue nos ouvidos. Dois quarteirões nunca pareceram tão longos. Virei a esquina errada por reflexo e corrigi na seguinte, xingando baixo. A máscara já estava na minha mão, depois no bolso. Não precisava mais esconder o rosto. Precisava desaparecer. Vi o carro velho de Giulia parado na rua lateral, discreto demais para quem não sabe procurar. O alívio veio forte, quase me fez tropeçar. Abri a porta antes mesmo de ela destravar direito. — Anda — falei, jogando-me no banco. — Anda, anda, anda. Giulia girou a chave. Nada. — Giulia. — Eu sei, eu sei — ela respondeu, girando de novo. O motor tossiu. Engasgou. Silêncio. — Giulia. — Não me apressa — ela disse, dentes cerrados. — Isso só deixa ele nervoso. — Ele não é um ser vivo. — Discordo. Girei o corpo para olhar para trás. A rua ainda estava vazia, mas isso não significava nada. Nada nunca significa nada até significar tudo. — Anda — repeti, mais baixo agora. Ela girou a chave outra vez. O motor ligou com um estrondo alto demais para qualquer plano sensato. Um barulho obsceno, metálico, que ecoou pela rua como um tiro m*l dado. Por um segundo inteiro, congelamos. Depois, começamos a rir. Rir de nervoso. Rir de alívio. Rir porque ainda estávamos respirando. — Viu? — Giulia disse, arrancando com o carro. — Ele só precisava de incentivo. — Incentivo quase nos matou — respondi, ainda rindo. O carro avançou aos solavancos, ganhando velocidade como quem não tem nada a perder. As luzes do baile ficaram para trás. O mundo voltou a ser rua comum, prédios comuns, gente comum que não fazia ideia do que quase aconteceu. Encostei a cabeça no banco. Fechei os olhos por um instante. Meus pés doíam. Minhas mãos tremiam. Meu coração ainda corria como se estivesse sendo perseguido. — Então — Giulia disse depois de alguns minutos. — Como foi? Abri os olhos devagar. — Eu joguei uma informação no colo de Lorenzo Bianchi. Ela me olhou rápido, surpresa. — Você fez o quê? — O suficiente para ele não dormir hoje — respondi. — Nem amanhã. — Caterina… — Calma — interrompi. — Não dei tudo. Nunca se dá tudo. Ela soltou um riso curto. — Claro que não. Olhei pela janela. A cidade parecia outra quando não se está escondendo. — Ele vai me procurar — continuei. — Não porque confia em mim. Mas porque agora sabe que eu sei. — E você quer o quê dele? Pensei na pergunta por alguns segundos. A resposta já estava ali havia anos. Só nunca tinha sido dita em voz alta. — Proteção — falei. — Um nome que não seja o meu. Um lugar onde ninguém saiba quem eu limpei, o que eu ouvi, ou de quem eu sou filha. Giulia assentiu, séria agora. — E se ele disser não? Sorri, cansada, mas inteira. — Então eu procuro outro. Ela riu de novo, balançando a cabeça. — Você é louca. — Não — corrigi. — Só cansei de sobreviver de joelhos. O carro seguiu pela rua escura, motor reclamando, mas obediente. Apoiei os pés descalços no painel por um instante, sentindo o frio subir pela pele. Dentro da minha cabeça, a imagem dele ainda estava ali. O homem de ombros largos. O olhar atento. A pulseira escorregando do meu pulso. Mas eu empurrei isso para longe. Romance é luxo. Sobrevivência é prioridade. E naquela noite, eu tinha feito a coisa mais perigosa de todas: Eu tinha sido vista.
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