• Capítulo 11 •

1834 Words
Ana Júlia Alencar ❦. Agradecia imensamente a Makyson por ter mandado criar este espaço para mim. Meu próprio laboratório, minha bancada de trabalho em mármore preto e completamente impecável. Exposta ao centro, rodeada por um canto de equipamentos necessários. Minha pequena centrífuga e, ao lado dela, meus tubos de ensaio e todas as vidrarias que precisava. Ao meu lado, próximo da porta, meu microscópio, além de mais uma bancada grudada à parede com algumas gavetas de itens essenciais. Ao fundo, uma porta que deveria ser o banheiro, mas optei por transformar em uma cabine de fluxos laminar. Aqui era meu mundo de verdade, a minha segunda parte da casa que mais amava. Prendi meus cabelos e logo lavei minhas mãos, lembrando-me de que não podia esquecer as injeções de Lotte. Ela quase não lutava, então dei um jeito de ajudar minha melhor amiga a se manter bem e segura. Eu matarįa André Zyuganov e precisava ver em meu estoque se havia algo para me ajudar nisso. Passamos o dia cada um em seu universo; eu só saí daqui para me arrumar e, assim, ir atrás do meu novo alvo. Não almocei, estava sem fome, e evitei andar pela casa; não queria vê-lo... não depois de ontem à noite. Peguei a dröga que precisava e a coloquei entre os s***s, depois as injeções de Lotte e saí do meu laboratório. Coloquei a senha antes de me afastar da porta pintada em vinho; estávamos no porão, como chamávamos. Aqui, além da área de treino, cada um tinha o seu próprio setor. Eu, meu laboratório; Lotte, uma sala enorme de equipamentos de espionagem; Lisa, a sala de facas; e Silas, uma sala escura, no final do corredor, na última porta preta; não precisava falar de quem pertencia. Bati na porta de Charlotte e logo a ouvi ser destrancada. — Aonde vamos? — revirei os olhos para seu exagero e logo entreguei suas injeções. — Tem estoque aí para três semanas, então vê se não me enche mais. — Ela colocou o isopor em algum lugar e logo pulou me abraçando. — Você é demais — ri, retribuindo o abraço. Sabia que estava de bom humor porque havia se resolvido com Kauan e ficava feliz por isso. — Aonde vai? — Quero terminar logo minha primeira missão para focar no que realmente interessa — e me referia a Alfred Klein. O problema todo neste roubo estava sendo a localização; por mais que Rubens tentasse, ainda não tinha descoberto nada sobre isso. O que me fazia pensar que a localização do arsenal de joias do holandês não estava na máquina de seus servidores. — Qual foi sua missão? — Tenho que me infiltrar na política — ela disse, fechando sua porta para sairmos do porão. — O que não vai ser muito difícil, afinal. — Kauan? — Ela fez careta enquanto meus saltos faziam barulho pelo piso. — Sabe que não gosto de envolver ele nisso... tenho que receber algum convite para esses comitês políticos. — Posso ajudar nisso — disse, sincera, enquanto esperávamos o elevador. — Pensei que matarįa o senador de primeira — era extremamente próprio compartilhar nossas missões com nossos colegas. Se não estava na mesma missão que Charlotte, ela não podia saber sobre a minha; evitava que possíveis dados fossem vazados caso alguma de nós fosse presa ou sequestrada. — Tenho coisas que preciso dele ainda, então quer minha ajuda ou não? — Ela largou um sorriso travesso e ali tive minha resposta. — Está usando qual identidade? — Mônica — ela respondeu assim que entramos no elevador — combina comigo. — Ok, me passe os dados dela. — Minha amiga apertou o andar dos quartos, e eu, o da garagem. A porta iria se fechar, mas logo uma mão masculina invadiu o espaço. Eu o evitei o dia inteiro, como se Rubens fosse uma doença contagiosa. Mas lá estava o malditō universo conspirando contra mim. Assim que ele entrou no elevador, me olhou de cima a baixo, sem nenhum descaramento. Não estava tão diferente do comum. Usava um vestido midi azul safira da Prada. Ele era colado ao corpo e desenhava bem minhas curvas; meus s***s ficavam expostos graças ao decote. A maquiagem era algo básico, pois estava começando a anoitecer e não estava indo a uma balada. Minhas sandálias de salto baixo me deixavam apenas um pouco mais alta. Soltei meus cabelos, que havia feito questão de finalizar para que a ondulação ficasse perfeita. Cobri o máximo de mim que pude, implorando a ajuda dos meus fios ruivos. Mas isso não pareceu dispersar seus olhos de mim; pelo contrário, no mesmo momento olhou nos meus. Seu olhar azul intenso parecia me devorar por completo. Depois de ontem à noite, descobri qual era esse olhar que ele me lançava às vezes. O mesmo olhar que mantinha sobre mim ontem enquanto seus dedos me tocavam com tanta precisão. Dei graças a Deus pelo som do elevador, que fez com que eu e ele parássemos de nos encontrar como dois malucos. — Vocês deveriam trånsar logo, assim esse clima passa ! — A voz de Charlotte me despertou e quase engasguei com a minha própria saliva. Queria måtar aquela cretina. — Licença — assim Erdoğan saiu da sua frente. — Qualquer coisa, me liga. Ela piscou para mim enquanto a porta se fechava novamente. Olhei o muro de músculos de costas para mim, usando uma blusa preta e uma calça de moletom, do mesmo jeito que havia chegado. — Estava pensando — eu disse com a minha voz saindo baixa demais. E logo forcei a garganta, e ele voltou a me olhar, sem tirar os olhos do meu. — Você não está conseguindo invadir o software dos Klein, talvez porque já tenha feito isso uma vez e, por isso, esteja difícil agora. — Pensei o mesmo — ele disse, voltando a encarar a porta do elevador. Sabia que não estava me ignorando, apenas pensando. — Eles modificaram a criptografia. — Mas também o que procuramos pode não estar lá — disse, e assim que o elevador abriu e ele saiu, segurou a porta para que eu passasse. Logo que saí da caixa de metal e passei por ele, sentindo meu corpo arrepiar. — Pensa comigo — mas ignorei enquanto andava até meu carro, um Volvo cinza, meu xodó. — Se sou um maníaco louco por colecionar itens valiosos, sabendo que me envolvo diariamente com criminosos, não deixaria minhas joias tão fáceis para serem encontradas. Assim que parei na frente do carro e me virei, quase bati contra o peitoral de Erdoğan. E, apesar de estar com salto, não chegava perto de sua altura; meu rosto ainda batia em seu pescoço e precisei levantar o pescoço para encarar seu rosto. — Pōrra — fiz uma careta, não entendendo muito bem o motivo por estar xingando. — Não estou conseguindo me concentrar. — Bom, precisamos começar de algum lugar — ignorei sua fala sem sentido. — Sei que vai dormir no seu apartamento; passo lá mais tarde com a solução para os seus problemas. — Vai aonde? — ele perguntou e eu ri, destrancando meu carro. — As férias acabaram, amor — disse antes de fechar a porta. Joguei minha pequena bolsa que carregava no banco do passageiro e coloquei meu cinto, dando partida para o meu destino. •$°$• Eu amava o meu trabalho; graças a ele conseguia ser a mulher que eu admirava. Não a frágil e insegura Ana, mas sim a poderosa e assassįna Julia. Gostava do calor que percorria minhas veias toda vez que avistava ou caçava um alvo. Gostava do gosto do poder que tinha em minhas mãos toda vez que estava em meu laboratório. Ser quem eu era me excitava; era a pura e mais gostosa adrenalina que me fazia querer mais. Nós, da elite, sempre recebíamos mais que todos da máfia. Com o tanto de dinheiro que ganhava, já podia ter largado esta vida. Mas largar algo que você cresce aprendendo e toma gosto por isso é igual a um ser humano parar de beber água: impossível viver sem. Por isso, agora, no restaurante Sabor de la Vida de Patrick, um lugar que eu particularmente adorava frequentar. Todas as vezes que vim aqui, era eu mesma. A identidade na minha bolsa dizia que me chamava Patrícia, estrangeira, nascida na Itália. O piano suave ao fundo fazia meu corpo inteiro relaxar. Estava na minha segunda taça de vinho, esperando pacientemente. Sabia que nesta noite de segunda-feira o senador estaria aqui, só não sabia a hora exata em que viria. Minhas fontes não foram tão precisas nessa parte. Já havia jantado e comido uma sobremesa maravilhosa; me levantei elegantemente enquanto caminhava até o banheiro, recebendo alguns olhares. E hoje estava me sentindo tão bem que não me importava se eram de aprovação ou rejeição. Assim que entrei no banheiro, suspirei, me olhando no espelho. Mexi na minha bolsa que havia trazido junto, tirando de lá um pequeno spray bucal, para remover o cheiro de qualquer coisa que pudesse ter ficado por conta da comida. Logo depois, mordi uma bala de menta e fui fazer meu xixi. Podia facilmente ir para casa agora, um jantar excelente e agradável. Sem tristeza ou problemas, apenas o final de uma noite tranquila. Mas, olhando meu pequeno e delicado relógio de pulso, lembrei-me de que não estava de férias. Não mais. Era onze e meia, o que significava que o restaurante em breve fecharia. Se aquele i*****l não chegasse logo, iria atrapalhar completamente meus planos. Assim que me limpei e lavei as mãos, olhei-me uma última vez no espelho, retocando o batom nude que usava. Assim que saí do corredor em que estava e voltei à minha mesa, deparei-me com André Zyuganov, e por muito pouco não dei um grito de alegria. Ele fecharia o restaurante, claro que fecharia. Revirei os olhos com meu pensamento e, antes de me sentar de volta à mesa, vi seu olhar em minha direção. Por isso nunca pintei meus cabelos; eles chamavam atenção e eu sabia muito bem disso. Fiz questão de sinalizar o garçom atrás dele e cruzar as pernas em sua direção, deixando à mostra um pouco da minha tatuagem. Não há nada mais curioso para um homem do que uma mulher segura de si, e nada mais fascinante do que tatuagens que não dão uma visão completa. Vi seu olhar subir pelas minhas pernas e, se descobrisse que minha cobra ia até minha virilha e cintura, com toda certeza o velho infartaria. Infarto, está aí; essa será a causa de sua mortę. Sorri após decidir como o matarįa, e ele claramente achou que eu estava sorrindo para ele, pois acenou em um movimento sutil com a cabeça para mim. O garçom logo quebrou seu contato visual comigo. — Por favor, quero mais uma taça de Clos Du Temple e a conta — o rapaz apenas concordou e saiu, me deixando livre para analisar meu alvo.
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