WASHINGTON D.C.
Subúrbio.
01:30 AM.
POV’s Giulia Bieber.
Pisca os olhos, continuando a ficar paralisado igual a uma estátua próximo a porta de entrada. Seu comportamento é reagir incrédulo, achando que está vendo uma alma penada, porque jurei que nunca mais pisaria os meus pés nesse chiqueiro.
— Tô encrencada!— solto a frase, com a mão na cabeça e sem saída.
Movimento-me de um lado pro outro, pensando numa solução. Até ignoro o fator de está dentro de um quartinho caindo os pedaços. Não costumo frequentar lugares como este. Mas dados à circustância, o proprietário do imóvel, é o único que pode me socorrer no momento.
Brian é hacker, o melhor depois de mim. Ele tem uma facilidade de quebrar os códigos dos softwares e passar despercebido sem que ninguém note que seus dados estão sendo roubados. Como o FBI está na minha cola, não posso chamar atenção hackeando o sistema deles. Caso o contrário, a CIA ficará sabendo dos meus rastros e do jeito que a minha chefe está com raiva de mim, não facilitará pro meu lado.
—Ô mina, não quero bagulho pro meu lado não.— seu tom emite seco. — Você já me causou problema demais e é melhor ir embora.— aponta-se para porta, irredutível, contendo um olhar ressentido, como se a minha presença o deixasse bastante nervoso.
Eu deveria mesmo partir a segunda vez, mas como não tenho vergonha na cara…
— É caso de vida ou morte.— uso a tentativa, na base do desespero.— Você acha que eu te procuraria, se não tivesse com sérios problemas? Eu posso ser presa, sabia?
— Isso não é problema meu.
— Brian e o nosso pacto? Um de proteger o outro sempre. — lhe relembro, recorrendo para uma chantagem emocional pra conseguir vantagem.— Não está mais de pé? Salvei a sua pele inúmeras vezes, quero que faça o mesmo por mim. É o mínimo!— seus olhos escuros erguem-se, me encarando pela primeira vez. Ignoro a frieza que demonstra ter por tudo que lhe causei, porque a minha única preocupação no momento é não ser pega pela polícia.
— Você quer me enfiar em B.O, mas o pretinho aqui é inteligente. Você fodeu com a minha vida, ô patricinha.
—Pô, mano, você é muito rancoroso.
— Rancoroso por não dar mole para uma burguesa que nasceu em berço de ouro?— bufo, revirando os olhos, pelo mesmo se rebaixar.— Sou tratado igual um marginal e você acha pouco? Não sabe de nada da minha luta e fica tentando menosprezar a minha história, só por ser uma loirinha de olhos azuis. Preto da periferia não é tratado como gente, não temos privilégios e ainda levamos nome de ladrão todo santo dia.— abaixo a guarda e me comovo, ouvindo-o contar o preconceito que sofre. Embora eu não seja a garota mais sensível do mundo, meu coração se parte em pedacinhos em enxergar uma dor lá no fundo de seus olhos.
Me sento no sofá, ele se achega. Pouso a mão em seu ombro, com um bico esmorecido nos lábios. Sussurro baixinho “sinto muito”. Depois o abraço de lado, encostando a minha cabeça na sua.
Como eu senti falta de abraçar o meu melhor amigo.
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POV’s Mabel Bieber.
Cena do crime.
02:00 AM.
Impaciente e há alguns metros de distância, reparo como Annabelle age. Está inquieta, não para de mexer os braços, esfregando os dedos das mãos. Uma vez e outra olha para os lados como se esperasse alguém. É o tipo de linguagem corporal que indica medo. Vou indo de mansinho e passando pelo meio das pessoas, num ato de impulso, aproveito que os nossos pais não estão presentes e a pego desprevenida, a arrastando pelo braço até um local mais privado.
— O que pensa que está fazendo, Annabelle?— olho-a horrorizada por vê-lá irreconhecível. Usa um batom tão vermelho, é até um pouco incomum, já que eu nunca a vi de maquiagem e vestida dessa maneira.— O que você fez com Boris?
— Boris? Quem é Boris?— se faz de desentendida, soando confusa.
— Não se faça de sonsa!— dou um grito.— Matou o meu segurança, ainda roubou isso.— tomo o anel que está brilhando em seu dedo, arrancando.— Achou o quê, que ia se divertir em um hotel de luxo as minhas custas? —elevo um olhar superior, diminuindo-a. — Deve ter dormido com alguém, né?— sorrio insinuativa em ver as marcas avermelhadas em seu pescoço. — Quem te viu, quem te ver, se faz de santinha, mas na verdade não passa de uma…— não término a frase, pois, minha irmã levanta a mão para dar na minha cara.— Se você encostar um dedo em mim, irá se arrepender caro.— a seguro pelo braço, ameaçando revidar.
— Eu não tenho medo de você, Mabel.— ainda tem a coragem de me enfrentar.
Caio na risada, rindo do quanto é petulante!
— Deveria ter. Sabe o que faço com pessoas como tu, Annabelle?— aproximo-me, a intimidando, como se quisesse matá-la.
A mesma engole em seco, se borrando de medo.
— Mabel, sai da minh-a frente!—vacila, gaguejando como uma covarde. Vejo a tensão visível em suas íris lacrimejadas, por querer me empurrar para longe.
— Calma, mana.— dou alguns passos para trás, irônica, erguendo os braços em sinal de rendição.— Jamais encostaria um dedo em você. Por mais chata que seja, temos o mesmo sangue.
Meu celular vibra – há só 2% de bateria e logo irá descarregar de novo– Quem será que está me perturbando uma hora dessas? Checo no visor.
— Sim?— abafo o tom.
— Oi, americana.
— É tá bom ouvir a sua verdadeira voz.— capto, entre risos, constando que estamos progredindo. Me surpreendo, de boquiaberta, por não ser uma tradução robótica de computador como costuma usar. Enquanto encho o seu ego, olho pra Annabelle que permanece apreensiva.
— Por que não me elogiou pessoalmente?— há uma sedução em seu tom rouco, como se tivesse também sorrindo do outro lado da linha.
— Do que você está falando, Nameless?
— Nossa noite foi tão especial!
— Noite?— um sussurro perdido escapa dos meus lábios.
Fito a i****a, montando as peças do quebra-cabeça, avistando o quanto dá uma de coitada na minha frente, com lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
— Não gostou?
— Claro que gostei.— saio do transe, virando para o outro lado para fugir dos olhos da minha irmã. Não sei em que ponto o gringo está se referindo, mas prefiro me poupar dos detalhes.— Foi maravilhoso!
— Você ficou muito tímida.— ri.
— Mas fui boa na cama?
Escuto-o confirmar que sim. O trouxa do chefão aparenta está nas nuvens.
—Selvagem.
— Se não for selvagem, eu nem faço, baby.
— Gostei da sua ousadia.—elogia, de um modo sexy.
Gargalho nasalmente, querendo provocar Annabelle.
— Preciso desligar agora, meu daddy boy. — o apelido, com uma pintada de ironia.— Estou caindo de sono. — bocejo.— É sério, juro que tenho que ir, mas amanhã conversamos mais cara a cara. Um beijo. — encho a boca para alfinetar a que está ouvindo toda conversa.
Abro o zíper da bolsa, sacando a arma e apontando para ela.
— Mabel, o que você está fazendo?—falha, trêmula, vendo-me pôr o dedo no gatilho.
— Lindo da sua parte se passar por mim.— a coloca contra parede.— O que você achou que ia ganhar com isso?— lhe reprimo, sentindo uma espécie de nojo.— Sempre desconfiei que tu tinha inveja de mim, Annabelle, mas não imaginaria que chegaria ao ponto de usar a minha identidade para se deitar com o meu homem.— cuspo as palavras, soltando tudo que está engasgado.
— A culpa não foi minha.— choraminga, com os ombros encolhidos. — Foi Giulia!— acusa a outra desmiolada.
— Eu deveria m***r você, sabia? Mas eu tenho uma proposta melhor. Há duas opções...— ando pela sua frente, para fazê-la ficar mais amedrontada.— Caso eu me apresente pra ele como Mabel, sabe o que vai acontecer contigo? Amanhã mesmo te acharão morta e não será pelas minhas mãos. Porque ele é um homem muito poderoso e não irá deixar barato ter sido enganado. A segunda opção é…— pauso, amando poder ditar as regras —Caso você continue fingindo ser eu… continuará respirando, a Mel não ficará órfã de mãe, terá muito dinheiro e sua vida mudará para sempre.
— O que você está fazendo comigo se chama chantagem!— aos berros, esbraveja indignada— Eu não vou me passar por você, sem chances, Mabel!— altera a voz, querendo me enfrentar.
— Você não tem escolha, Annabelle. — balança a cabeça como se negasse aceitar a realidade. — Ou então terei que ligar para Nameless e contar que uma policial disfarçada o seduziu para arrancar informações. Vou tirar o meu corpo de cena e vai sobrar tudo para ti. E olha irmãzinha, tenho pena de tu.
— Vou contar tudo para mami o tipo de bandida mau-caráter que você é, Mabel!
Dou um t**a forte em seu rosto, perdendo a cabeça.
Ela me encara com tanto ódio.
— Tô protegendo a nossa família, sua i*****l. Eles são uns urubus, eles matam qualquer um sem nenhuma parcela de culpa. Quer ver a nossa mãe morta? Tá bom, vai lá, conta tudo, depois não se arrependa quando o estrago tiver maior.
— O que sugere então?
Aos poucos cede.
— Terá que se passar por mim, querendo ou não— seus olhos marejados estão desesperados, quase como se a ideia fosse uma tortura.— Só enquanto esse gringo insuportável estiver nos Estados Unidos. Ele prende ficar só mais 1 mês, depois volta para Moscou. Daí você sai da personagem e volta para sua vidinha miserável. — a humilho, pois parece gostar mesmo é da pobreza. Estou lhe dando uma vida de rainha, o mínimo que deveria ficar era feliz.
— Não sei agir como você. — sussurra baixinho, totalmente insegura.
— Eu sei que sou insubstituível e ninguém é pairo para mim. — me gabo, risonha, dando de ombros. A própria revira os olhos, ficando incomodada do quanto sou convencida.— Mas saberá quebrar o galho. E primeira dica, Mabel não é tímida, terá que trabalhar isso ou então irá ferrar com tudo. Está ouvindo, Annabelle?— ergo o seu queixo, para enxergar melhor o seu rosto. Aos prantos de choro, assente a contragosto.
Deixo as diferenças de lado, assim como o orgulho, abraçando-a enquanto a ouço chorar.
— Só 1 mês. — a prometo.— Aguente só 1 mês.
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Giulia Bieber.
03:00 AM.
— Consegui!— pulo em seus braços, enchendo-o de beijos em agradecimento.
— Valeu, mestre. — dou um toque mão, o puxando..— Te devo uma.
— Posso pedir?
— Claro! Estou a todos ouvidos.
— Não tô na condição de cuidar da pivete, é melhor que você leve ela pra morar contigo. Apenas por um tempo, até eu arrumar um emprego.
— Oi? Ficou louco? Eu sou menor de idade, não tenho onde cair morta, sou sustentada pela minha irmã. Você acha que vou levar mais uma boca para ela dar comida?
— Minha mãe não está dando para sustentar, tá pesado demais as despesas.— alega, confidenciando que tem dia que passa fome, porque a comida falta.
— Pelo menos a sua segura a barra sozinha, já a minha que não dá nada.
— A sua trabalha no FBI. Já a minha trabalha como empregada doméstica.— as compara, transparecendo uma tristeza.
— Todo trabalho é digno, Brian. Você pelo menos tem o amor e atenção da sua mãe, já eu que nunca tive da minha. — suspiro frustrada, por nunca ter escutado dela um “ eu te amo”.
— É por isso que você trata a pivete, como se ela não existisse. Você não consegue dar a ela, aquilo que você nunca teve.
— Não é somente isso. Tenho ambições maiores. Quero chegar no topo. Quero viajar o mundo. Quero ser independente. — abordo os meus planos pro futuro.— Rica. Morar na Europa, de preferência em Paris.— exponho a minha obsessão pela França, com entusiasmo.— A “pivete”, não tem espaço na minha vida. — faço aspas com os dedos, a mencionando.
— Para você é fácil descartar a criança como se fosse uma boneca.— murmura, inconformado.— Mas para mim não. Por mais que eu tenha 17 anos, não sou imaturo, como você. É complicado sair com ela nas ruas, porque eles pensam que estou sequestrando uma criança branca. Já fui parado uma vez pela polícia, porque denunciaram que um homem n***o estava com uma bebê. Quase apanhei no dia, porque achavam que eu estava mentindo.
— Poxa…. que h******l!
— É pior, porque ninguém acredita que sou o pai dela. Pela cor, pelo cabelo, pela cor dos olhos. Meus amigos até zoam mandando eu fazer um teste de DNA, mas eu confio na sua palavra.
Escuto, péssima.
— Lamento que tenha que passar por tudo isso.
Fico m*l.
— Você ia me fazer um favor, se cuidasse dela.
O pedido inesperado me choca.
Tô fodida!
— Por mais que eu queira, eu não posso, Brian. Como é que vou explicar para minha família insana essa situação? Minha irmã vai querer me m***r!— cito Anna no meio da conversa, já imaginando o sermão que vou levar em ter engravidado na adolescência. — Ela vai querer puxar tanto as minhas orelhas que tenho até dó de mim! Se ela também não quiser cortar o meu pescoço. Nessas alturas, ela está doida atrás de mim. Eu sei que com certeza vou apanhar dela, ou da Mabel, ou da minha mama ou do meu papy quando eu chegar em casa. Se eu aparecer com uma criança, eles vão me m***r. Eles são todos psicopatas! Serial killers dos mais procurados do FBI. É esse o tipo de lar que você vai querer para Laurel?