Capítulo 1- A Voz
Eu aprendi cedo que algumas coisas era melhor não contar.
Não porque fossem mentiras.
Mas porque, quando você dizia a verdade e ninguém acreditava, começava a duvidar de si mesma.
Eu devia ter uns sete anos quando ouvi a voz pela primeira vez.
Estava sentada perto da janela, distraída com qualquer coisa que uma criança daquela idade pudesse considerar importante, quando alguém falou comigo.
— Olha.
Levantei a cabeça.
Não havia ninguém.
Olhei para minha mãe.
Ela continuava ocupada do outro lado da casa.
— Olha para a rua.
A voz veio novamente.
Era impossível dizer se era de homem ou de mulher. Não parecia vir de nenhum lugar específico. Era como se tivesse surgido dentro da minha cabeça, mas, ao mesmo tempo, soasse tão nítida quanto alguém falando ao meu lado.
Fiquei imóvel.
— Quem está aí?
Silêncio.
Então olhei pela janela.
Foi quando vi o cachorro.
Ele estava perto da estrada.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Eu não sabia por quê, mas alguma coisa dentro de mim dizia que havia algo errado.
— Ele vai ser atropelado.
A frase veio tão claramente que eu me levantei.
Corri até a porta.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
O cachorro continuou andando.
Eu quase voltei.
Então ouvi o barulho.
Um carro.
Tudo aconteceu rápido demais.
O cachorro correu.
O carro apareceu.
E, no instante seguinte, ouvi o som que até hoje não consigo esquecer.
Fiquei parada.
Não chorei.
Não gritei.
Só olhei para a rua sem entender o que tinha acabado de acontecer.
A voz tinha avisado.
Antes.
Eu não sabia o que aquilo significava.
Só sabia que alguém tinha me contado o que iria acontecer.
E ninguém mais tinha ouvido.
Naquela noite, não consegui dormir.
Fiquei olhando para o teto, esperando que a voz voltasse.
Mas ela não voltou.
Quem apareceu foi a mulher.
Ela estava parada no canto do quarto.
Eu não sabia dizer de onde tinha vindo.
Era apenas uma silhueta, quieta, observando.
Não parecia estar com raiva.
Também não parecia feliz.
Parecia estar esperando.
Eu puxei o cobertor até o queixo.
— Você estava comigo antes?
Ela não respondeu.
Esperei alguns segundos.
— Foi você que falou comigo?
Nada.
Fechei os olhos.
Quando abri novamente, ela ainda estava lá.
Foi então que percebi uma coisa que me deu mais medo do que a presença dela.
A mulher estava sorrindo.
E eu tive a estranha sensação de que ela sabia alguma coisa que eu ainda não sabia.
Na manhã seguinte, contei para minha família.
Ninguém acreditou.
Disseram que eu tinha imaginado.
Que crianças inventavam coisas.
Que eu devia ter percebido o cachorro antes e apenas previsto o que aconteceria.
Talvez fosse isso.
Talvez tudo tivesse uma explicação.
Eu queria acreditar.
Mas, antes de sair do quarto naquela manhã, ouvi a voz novamente.
Dessa vez, ela disse apenas quatro palavras:
— Ela ainda está com você.
Olhei para trás.
O quarto estava vazio.
Mas, no espelho, por apenas um segundo, vi o reflexo de uma mulher parada atrás de mim.
E ela estava sorrindo.