3. Pacto

3017 Words
— Tem como dar um sorriso? — Ivy me cutuca assim que adentramos no grande ginásio da UCL. Maya estava organizando uma festa, não era um simples festa, era uma grandiosa, esplendorosa, exagerada, e desnecessária festa de Halloween. E de aniversário. É, acho que o universo decidiu tirar uma com a minha cara. Essa perseguição começou no útero da minha mãe, quando a data prevista para meu nascimento cairia só em novembro, mas sendo a escorpiana inquieta que sou, decidi nascer bem no dia das bruxas. Talvez isso explique minha paixão pela lua cheia e jogos de tarô. Há quinhentos anos atrás, com toda certeza eu seria queimada viva por isso. Eu não estava nem um pouco afim de sorrir. Primeiro, que odeio aniversários. Segundo, que odeio o meu aniversário. Terceiro, que Halloween nada mais é que uma desculpa para as pessoas pecarem em festas que simulavam o inferno, não que eu fosse a boa samaritana, mas pecar vestida com fantasias sexuais na mesma intensidade que ridículas, era o fim para mim. Sai há menos de um dia do verdadeiro inferno. E sinceramente? Não estou afim de fingir que me divirto em lugar que simula o terror das bruxas que de longe se compararia com o terror real da cadeia. Lá não era tão legal assim, o que me faz entrar no modo "Não estou em clima de festa." — Eu odeio o Halloween. Você sabe. E se tiver um bolo me esperando lá dentro, Ivy. Juro que volto pra prisão por ter que matar você e a Maya. Aperto a minha bolsa contra o corpo, me sentindo um peixinho fora da água. Meu lugar não é aqui, eu não sei porque vim. Na verdade, eu sei. Eu não tinha para onde ir depois do que aconteceu nessa noite. Drogas. Uma grande quantidade, eu carrego comigo. E seria uma sacana ironia do destino se essa desgraça pesasse exatamente treze quilos. A tatuagem. O cara misterioso que se chamava Slowan. Uma arma apontada na minha cabeça. Uma escolha que nem sequer tive tempo de fazer. Eu prometi a mim mesma que não pensaria mais em trabalhar com isso e agora, olha só o que aconteceu. Só pode ser um karma. Um maldito karma, que voltou. Ivy revira os olhos, checando a última vez o seu batom rosa, quase neon no espelho do — que um dia foi um — carro. Minha amiga estava vestida de Penélope, não me admira sua paixão por corridas, obviamente ela escolheria essa personagem para lhe representar. Não havia nenhuma peça no seu corpo que não tivesse essa cor. A não ser o sangue falso que ela fez escorrer no decote dos seus s***s, de forma proposital. — Isso explica porque você veio vestida de você mesma? Olho para as minhas roupas, e me sinto pior. Não por não estar fantasiada, mas sim porque estranhamente essa roupa me acompanha desde que fui parar na prisão. Preciso comprar roupas novas, se eu me manter viva pelo menos até amanhã. Algo no meu interior, tinha uma sensação r**m desde de que coloquei meus pés além das grades que prendiam. Eu deveria ter me escutado. — Estou de preto, isso já é alguma coisa. Ivy me olha com tédio, mas não me rebate. Ao contrário disso, ela esboça um sorrisinho, típico de quem escolhe travessuras, e me carrega, praticamente arrastada até onde o som explode nossos tímpanos. Chase Atlantic toca, o frenesi dos jovens dançando sem se importar com quem passa ao lado deles me incomoda. Me faz lembrar do quanto eu amava isso. Amava a liberdade que o corpo tem quando se deixa levar pelas batidas. Liberdade... Por que não consigo aproveitá-la? Eu já sei a resposta. Ela está dentro da minha bolsa, que por sinal, faz doer meus ombros de tão pesada. Serve como lembrete, também, para que a minha atenção fique concentrada nisso, consequentemente, não consigo relaxar, eu não posso relaxar. Não quando se tem uma mercadoria que vale a sua vida, para ser entregue no dia seguinte. Os olhos negros de Maya, que agora, dançava no meio da pista com a sua fantasia de lago dos cisnes esfaqueada até a morte, me atingem. Ela me encara, de maneira incerta, na dúvida se estou brava, com raiva ou com ódio. Talvez as três coisas. Contudo, ela sabe, que em poucos minutos, eu a perdoaria por não ter ido me buscar na cadeia, porque é isso que as amigas fazem; se matam e se amam. A dança fazia parte da sua vida, por minha causa, e talvez, conhecendo um pouco seu jeito meio torto de mostrar amor, sua roupa seria uma singela homenagem a mim, por ter ensinado todos os macetes da dança. Ela rebolava como se não houvesse amanhã, com direito a uma roda aberta de pessoas admirando seu corpo cheio de curvas. Em outros tempos, eu estaria com ela, fazendo a mesma coisa. Céu. Inferno. Purgatório. A morena que me trouxe, contra a minha vontade, até aqui, com toda certeza seria o céu. Ivy, simplesmente, ela é a pessoa mais inocente que eu conheço. Sempre ver além do que se pode ver com os olhos, porventura deve ser porque a maldade sempre estava presente no nosso ser. É a bondade na qual ela enxerga as coisas, que a tornava extraordinária. Já Maya por sua vez, disputava o título de inferno comigo. Ela é a pessoa mais ranzinza, m*l humorada, e ríspida que conheço, mas tudo isso são coisas que camuflam a sua sinceridade, lealdade e justiça. Maya não mede esforços para falar algo que a incomoda. Não existe meio termo quando o assunto é seus sentimentos. Ela ama demais e odeia mais ainda. Somos as almas iguais que nasceram de mães diferentes. — Céus, Liza. — ela para depois de caminhar até a mim, sem se importar de acabar com seu show. — Senti sua falta! Muito, muito, muito mesmo. Enfim seus braços me apertam. Me apertam como se não quisessem mais me soltar. Sinto seu cheiro cítrico com vodka de longe, seus cabelos loiros se misturam aos meus com volume rebelde. No meu ombro, tenho a ligeira impressão de algo molhar. Seria lágrimas, se Maya não escondesse tanto o que sente. Mas hoje, ela não fez questão de esconder. Hoje, ela permitiu que eu visse seu delineado borrado com os olhos marejados, relutantes. — Você é uma v***a, sabia? — dou um pequeno empurrão forte no seu ombro. — Mas não consigo não te amar. — Que lindo. — Ivy funga ao nosso lado. Esse simples gesto, cheio de melosidade, soado com tanto afeto e emoção, faz com que eu me recomponha no mesmo instante e vista minha fantasia de "f**a-se o mundo" novamente. — Uma festa digna de uma saída da cadeia e você me aparece vestida assim? — Maya me olha dos pés a cabeça. — Era melhor ter vindo com a roupa de presidiária. Faríamos um r***o nos seus p****s e você ficaria muito mais atraente. Rolo os olhos, e lhe dou mais um abraço. — Feliz aniversário para a bruxa escorpiana tarada, mais problemática de todos os tempos. — Ivy me deseja, apertando nos duas, tornando o nosso toque, triplo. — Feliz aniversário, pequena Liza. — Maya sorrir. Ela quase nunca faz isso. — Eu nem ia vir. — estalo, desabafando e tentando colocar pra fora a lembrança que me atormentava. — O dia hoje foi péssimo, tenho tanta coisa pra contar. Meu cansaço é evidente. Queria mesmo, sair correndo daqui, antes que as duas fizessem todas as pessoas presentes nesse ginásio cantar a música i****a de parabéns quando o ponteiro atingisse meia noite. Como duas velhas fofoqueiras, elas me levam até o bar, onde o barulho não é tão incomodativo assim. Nos sentamos juntas nas banquetas altas. Maya se encarrega de pedir os drinks, eles tem teias de aranha e canudos em formato de p***s. O que se passava na cabeça dela quanto tentou mesclar dia das bruxas com p*****a? — Beba tudo, Hanna. — minha amiga ordena, quase que enfiando o líquido pela minha goela. — Realmente, temos muito o que conversar. — Então, comece me dizendo como se tornou a rainha dessa faculdade. — olho ao redor e vejo como ela conseguiu fazer uma p**a de uma festa. Não é à toa que, de nós três, dentro do nosso passado assombroso, era Maya a responsável por cuidar dessa parte. Todos aqui a cumprimentam. Fazem questão de chamar a atenção da bailarina gótica. Acenam, assobiam e a lembram que ela é uma v***a linda, e é mesmo. — Ah... Tenho o meu charme. — ela solta uma pequena risada convencida. — E você tem o seu. Deveria está comigo lá na pista de dança. — Não mesmo. Hoje quando vi o encarte falando sobre a final do campeonato de dança nacional, lembrei do quão vivo era o meu grande sonho em vencer aquela competição e ir embora da suburra maldita dessa cidade medíocre. Quando eu me via vestindo aquele tutu pequeno, ridiculamente rosa, juro que me sentia a pessoa com o maior potencial nesse planeta e por um instante, eu acreditava que era boa em algo. Era meu momento. Meu êxtase. Minha válvula de escape. — Somos o GG novamente. — Ivy cantarola, como se isso fosse a coisa mais pacífica do mundo. Eu queria que fosse, mas infelizmente, não é e está longe de ser. Good Girl era como um pacto. Nós três fizemos isso quando ainda éramos três meninas abandonadas e esquecidas no velho orfanato da cidade, e esse pacto perdurava até hoje, ele falava basicamente em; nunca nos separarmos uma da outra e que no futuro próximo, tipo agora, ganharíamos muito dinheiro, ficando ricas, juntas. O destino nos escutou. Hoje em dia, falando isso em voz alta, pode soar patético, mas por um bom tempo, quase metade das nossas vidas, fizemos isso funcionar e tudo conspirou a favor enquanto dávamos a nossa vida, literalmente para acontecer. A loira era responsável por trazer clientes com seu alto poder de persuasão. Ela era muito boa no que fazia, e ainda é, não é atoa que estou em uma das maiores festas que já tive o privilégio de frequentar. Já Ivy, mesmo com seu excesso de bondade, ela sabia bem separar isso do profissional, sendo a responsável que sempre foi, cuidando das pessoas que trabalhavam para gente. Um cargo perfeito pra ela. Dinheiro. Esquemas. Poder. Tudo estava nas nossas mãos. Até ser colocado abaixo, como Lúcifer enxotado do céu, por aquela velha infeliz. Donatella, destruiu tudo que tínhamos de mais valioso nessa vida, só não foi capaz de destruir a nossa amizade. — Bons tempos. — suspiro nostálgica. Lembrar de como somos boas e não podemos mais funcionar juntas, me faz virar o meu drink e o delas quase que ao mesmo tempo, tudo de uma só vez. Apesar de sempre ter sido a mais movida a adrenalina. Eu ficava com o que mais gostava de fazer, além de dançar. Eu tinha o controle. Controle de tudo. Eu era a famosa galinha dos ovos de ouro, no bom e no mau sentido. Literalmente. O poder é viciante, e depois que você deixa de prová-lo, ele te faz entrar em abstinência. Te deixa frustrada e inútil. Essa é uma das piores sensações que sou obrigada a engolir e nenhuma vodka com canudo de p***s, vai me ajudar a descer essa merda pela goela. Cada uma de nós tinha seus motivos para estar nisso, Ivy sonhava sair do país, Maya é uma nerd que precisava de grana para estudar, e eu, precisava ter uma vida financeira estável para poder cuidar da Hope da melhor forma. — Como a Hope reagiu quanto te viu? — Maya joga a pergunta no ar, sugando gloriosamente seu canudo peculiar, parecendo ler exatamente meus pensamentos na minha pequena. Ivy fingiu uma tosse, vejo ela sentir a necessidade de se afundar na vodka do nosso drink. Essa era uma pergunta muito delicada para ser respondida sem chateação. — Não fui vê-la. — Como assim? — Como assim que eu não fui. — jogo os ombros para cima, e troco meu olhar para a multidão de pessoas que estavam cada vez mais fora de si. O lugar lotou consideravelmente em poucos minutos. O Halloween é extremamente ridículo, e se torna pior, quando vejo vampiros beijando lobas, e vice versa, como se não soubéssemos que essa relação é tóxica e impossível. Deve ser a droga que rola desenfreadamente nessas raves de faculdade. Não preciso ter experiência nessa área para saber que tem um sósia do Edward Cullen se mordendo a poucos passos de mim, e não é sangue que ele quer, e sim qualquer coisa que o deixe mais louco. — Hanna, faz mais de dez meses que a Hope não te ver. c*****o! Ela é a sua irmã. — E? — não escondo o sarcasmo na minha fala. Só queria enterrar esse assunto, sendo grossa era uma alternativa para isso acontecer. — E que você saiu da cadeia e nem se deu ao trabalho de ir ver a menina. — Tem como parar de me lembrar a cada cinco minutos que fui presa? — cerro os pulsos na madeira do balcão, prestes a deixar meus nervos explodirem por a minha pele. — Além do mais, o que quer que eu faça? Que apareça naquele lugar e finja que sou a irmã perfeita? A pessoa que vai consertar o mundo e transformá-lo em um conto de fadas? — Poderia tentar. — Maya rebate, cravando seus olhos nos meus de maneira dura. — Princesas não existem, Maya! — mantenho os olhos firmes. — Não sei que mundinho você está tentando se enquadrar. Mas lembre-se de que não vivemos a história que contam nos filmes e a realidade é bem c***l. Você deveria saber disso! Maya abre sua boca um par de vezes para retrucar as verdades difíceis de engolir que acabei de lhe jogar, mas antes que fosse capaz, Ivy joga seu celular no nosso meio como uma granada que vai explodir a qualquer minuto. Meus olhos voam até seu rosto, me deparando com uma expressão de horror. A morena tampa a sua boca com as duas mãos, enquanto encara a tela do aparelho. — Que p***a é essa? — A voz da Maya finalmente sai da garganta, agora ela também tem seus olhos presos na imagem no telefone. Imagem essa, que eu não queria ter visto. E muito menos ter ficado sabendo do que se tratava. — Beatriz. Ela está morta. Morta. Beatriz. — Quem é essa Beatriz? A pergunta vem de mim, infelizmente, vem sem que eu consiga esconder meu egoísmo por um feminicídio, sem demonstrar o horror pelo quão feio é a cena da sua garganta totalmente aberta com um corte de faca profundo. A pergunta vem, vem de alguém que tem um medo exacerbado de que tal ato se repita, comigo. Porque eu sabia que o que eu carrego nessa bolsa, me faria parar no mesmo lugar que a Beatriz vai estar daqui a pouco. Sete palmos abaixo do chão. — Beatriz Crossford. — Ivy fala ruidosamente. O pânico é evidente em cada letra que ela solta. Engulo a saliva com dificuldades. Não podia ser a Beatriz que sumiu da loja do Sr. Godoy. Não seria possível que tal tragédia fosse tanta coincidência. Me recuso acreditar que o destino esteja me fazendo de palhaça tão cruelmente. — Ela por um acaso trabalhava na loja onde você me indicou, Ivy? — a morena finalmente tira seu olhar triste da tela e leva até os meus. Ela está paralisada de medo, e mesmo que toda a sua feição covarde a lhe entregue, quero uma resposta. — Em? Me diz que ela não é a garota que um tal de Slowan chegou procurando lá? — Slowan? — Ivy repete o nome daquele cara em forma de pergunta, o receio de ter feito besteira é palpável. — Ele foi lá? Você teve contato com ele? Ele te fez alguma coisa? Não entendo o porque de tantas perguntas, mas odeio perceber como Ivy já parecia saber de tudo e não me dizer nada. — O quê você fez, Ivy? — Maya questiona, com preocupação. Eu não sabia que tinha tanto poder de pressentir coisas, mas algo em mim, diz que eu estava certa o tempo todo. Tanto Ivy, quanto Maya, me escondiam algo. Eu sabia, eu tinha certeza. Eu só precisava saber do que se tratava. — Não tive a intenção. — sua fala sai com dificuldades em meio ao choro entalado. — Beatriz me disse ontem que o senhor Godoy estava precisando de pessoas, não imaginei que ela tivesse metida em problema com o Slowan. — Da onde você conhece ele? As duas ficam caladas. Caladas por muito tempo. Segundos quase que eternos. — Me respondam, p***a! — exijo. — O que escondem de mim? Vocês ainda estão metidas na merda pela qual eu fui presa, é isso? Ele era da gangue rival, isso ficou evidente com a p***a daquela tatuagem na virilha dele. Cogitar a ideia de que elas ainda estavam metidas nos negócios sujos, correndo risco de serem presas e lutando contra aquele grupo de criminosos, me apavora de uma forma que não consigo mensurar, pois depois de provar o gosto amargo que a prisão tem, jamais iria querer que elas duas provassem também. São as minhas amigas, minhas irmãs, são tudo que me sobrou depois do caos que cruzou minha vida. Vejo que Ivy quer falar algo quando sua boca pintada de rosa se abre, mas ela não tem mais tempo de me responder, pois somos atrapalhadas por disparos. Muitos por sinal. Incontáveis tiros se dissipam no ar. Tudo aconteceu como um flashe. Olho ao redor. Pessoas correm para todos os lados. Pulam mesas. Estraçalham copos e garrafas de vidros no chão. O lugar se tornou um caos. A polícia havia chegado para acabar com o Halloween pederástico que minha amiga tinha planejado. E eu não consigo evitar em não pensar que: tenho um tablete de cocaína guardado na bolsa presa ao meu corpo.
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