4. Amante da escuridão

2589 Words
Eu nunca fui um exemplo a seguir. Eu nunca fui boa. Nunca. Fiz escolhas erradas a minha vida toda. E foram essas malditas escolhas que me colocaram onde fui parar. Não me vanglorio por isso. É vergonhoso. Uma jovem que está fazendo dezenove anos, depois de praticamente comemorar os seus dezoito dentro da prisão. O que me conforta, ou me ilude, é que foi tentando acertar que errei tanto. Mas a vida, ela não te perdoa pelas suas boas intenções atrás das más. O karma volta. Volta sem aviso. Volta sem piedade. Volta quando você menos espera. Volta como uma maldição, como um furacão avassalador, que junto traz uma enorme avalanche, que desce a mil quilômetros por hora e se choca bem em cima da sua cabeça, te levando junto com os escombros, diretamente ao precipício. Sou um imã. Daqueles fortes e bem potentes, que só atrai problemas, todos os possíveis. Só pode ser essa a explicação, quando eu vejo uma tropa de homens fardados e com distintivos brilhantes da polícia na capela da camisa azulada, caminharem na minha direção. — Não fizemos nada. Vamos ficar aqui, paradinhas, como três anjinhos. — Maya segura a minha mão e a da Ivy, transmitindo segurança. Olho incerta para as minhas amigas. O medo me atinge. Me maltrata. E só consigo pensar no quão estou fodida, de novo, mais uma vez. Não posso ser presa. Não posso me deixar afundar. Não posso deixar que eu sofra as consequências por uma escolha, que dessa vez, eu não fiz. Eu prometi a mim. A mim mesma que nunca mais voltaria naquele lugar. E eu não vou voltar. Solto a mão de Maya na velocidade que um avião que rasga o céu. Toco minha bolsa, retiro ela dos ombros e a coloco em cima do balcão, abro o zíper com calma, tentando não atrair a atenção de ninguém para os meus dedos que tiram com cuidado os meus documentos de dentro do bolso lateral. — O que está fazendo? — Ivy me pergunta, com o seu olhar desconfiado, analisando cada gesto meu. Me faço de surda. Concentrada apenas no silêncio da música, nos gritos das pessoas que ainda se espalham, e no som das botas dos homens que continuam caminhando ao nosso encontro. — Hanna, o que tem nessa bolsa? — Maya reforça a pergunta. As duas são espertas o suficiente para saber que o fio de luz que circulava o meu olhar de pânico, me entregava totalmente, apesar de que meu corpo estava quase que imóvel sentado naquela banqueta, controlando somente o ar rarefeito que saía e entrava com dificuldades no meu pulmão. Rastejo meus dedos sob a madeira, empurrando aquilo que não me pertencia para trás do bar, o pacote pesado se colidi com o chão e se mantém escondido atrás dali. Minha mente parece voltar a funcionar quando me desfaço daquilo. Está tudo bem, vai ficar tudo bem, preciso repetir esse mantra mentalmente, até se tornar realidade. — As senhoritas são maiores de ida... — Sim. — Ivy nem espera o cara terminar de fazer a pergunta de tão nervosa que está, quando finalmente ele chega até nós três. — E por que não correram? — Não temos motivos para fazer isso. — Maya dá de ombros sem se mostrar abalada. Tento replicar sua postura, apesar de estar mais neutra do que descontraída. — Deveriam. — o policial que parece coordenar aquela ação, diz sem nem um pingo de simpatia na voz. — Tem muita droga rolando aqui, preciso saber de onde veio. — Não veio da gente, senhor. — Ivy choraminga, colocando o cavalo na frente da carroça, sem necessidade. Ainda não é tempo de se desesperar. Não por enquanto. Não quando o policial não se atenta que existe uma pequena barreira entre a gente o bar na nossa frente. Um plano de fuga passa a ser desenhado, eu poderia muito bem correr pela porta lateral que dava acesso a rua, que logo fariam eles me perderem de vista no meio de tanta gente ou poderia dizer que o cara que vi mais cedo fantasiado de vampiro era dono dessa mercadoria, sem me importar de ser escrota à esse nível, ou então, apenas colocar o sorriso mais ingênuo no rosto e dizer que nunca vi aquela maldita bolsa na minha frente. Eu faria qualquer coisa, qualquer coisa, que me fizesse ser inocente. Uma mulher igualmente fardada aquele homem, se aproxima de mim, ela escaneia cada traço do meu rosto, depois ela passa seus olhos espertos sob por meus ombros, exalando sua experiência de quem trabalha com a lei a muito tempo, reparando que existe um balcão ali, onde facilmente algo poderia ser escondido. Suas botas rodeiam o espaço, chegando perto do esconderijo improvisado. Meu sangue pulsa mais forte nas minhas veias quando a vejo fazer isso, meu estômago quase para de funcionar e meu coração vem parar na língua quando um sorriso vitorioso brota nos seus lábios vermelhos e seus olhos âmbar são atraídos para a bolsa. Estou perdida. Nós estamos perdidas. Tudo está perdido. — Olha só... — ela fala com escárnio puxando de dentro do saco de pano, o que eu tanto tentei esconder. — De quem é isso, então? Um bloco de saliva se forma na minha garganta, minhas mãos suam demais e minha cabeça dói, e todas as alternativas que planejei, parece não ser mais o suficiente para fugir dessa armadilha que é criada traiçoeiramente pelo destino. Não tenho problema em negar até a morte que aquilo é o meu para salvar a pele da Maya e da Ivy, o problema viria se eu sobrevivesse aquilo e o dono viesse buscar o que lhe pertencia. Não dava para simplesmente perder aquele material para a polícia. Me pego pensando se fui burra, medrosa ou covarde por tê-lo jogado do outro lado do bar, e agora estou nessa situação onde não posso assumir que é meu e também tenho que tentar planejar algo mirabolante para salvar isso. É impossível. — Não fazemos ideia, senhora policial. — a voz de Maya sai baixa, como quem está tão surpresa quanto aquela mulher e o outro cara que administrava essa abordagem. Tão falsa como o loiro do seu cabelo. — Só estávamos bebendo, como três adultas comportadas que comemoram o Halloween. Ele nos fita, seus olhos percorrem cada sombra de insegurança que se instala no nosso semblante. Isso é o suficiente para que ele sinta que entre a gente existe algo muito errado. — As três, de pé e com as mãos na cabeça! — a ordem vem, vem de uma forma nada apaziguada. Existe sede nos olhos daquele homem, ele fareja o que está errado de longe, e como um porco ansiando por lavagem, ele vai fazer de tudo para nos desmascarar. — Reviste-as! Ivy solta um suspiro de medo, de soslaio vejo minha amiga segurar as lágrimas no rosto, sendo a pessimista que sempre foi. Já Maya, tem o sorriso de um coringa estampado no seu rosto, isso só me confirma que ela ainda está ativa nos negócios sujos do passado, ela sabe como se portar nessas situações. E eu, bem, eu fico com o meu semblante de poucos amigos, me fecho em meu mundo e me perco nos meus pensamentos que insistem em me levar de volta a toda a cena de eu sendo pegue quando a Donna me entregou daquela forma tão desalmada. De novo, de novo, e de novo. Levo as mãos para trás dos meus cabelos, tendo a visão periférica do caos que se tornou aquela festa de aniversário barra Halloween. Tudo que antes era uma tentativa frustrada de aterrorizar, agora de fato aterroriza, vários jovens estão sendo levados para a fora do ginásio, tem tantos policiais verificando se são maiores de idade para estarem bebendo ou usando algum tipo de entorpecente, que inclusive, esse é o real motivo por terem acabado isso. Eles estão em busca de drogas, como se a vida deles dependesse de achar um pacote de cocaína na bolsa de um certo alguém. — Liza, — Maya sussurra meu nome, quando reproduz a mesma posição que estou, a diferença é que ela faz questão de empinar seus quadris com aquele tutu preto, minúsculo, tentando fazer com que essa abordagem soe tão sensual quanto desnecessária. — Tente mostrar que isso não te abala. Seja a minha Hanna de sempre. A Hanna de sempre estaria fazendo a mesma coisa que ela, ainda pior, modéstia parte. Mas não dá. Dessa vez, não dá. Não dava para fingir que não estou traumatizada pelo o que me aconteceu, pela forma como a Donna me enganou, pelo jeito em que eu fui pegue e presa da outra vez. De como a minha inteligência em sobreviver, não foi capaz de me salvar. E pior do que tudo isso que me atormenta, silenciosamente, dentro do caos dos meus pensamentos, é pensar que eu acabei de assinar minha sentença de morte, porque eu lembro da clareza das palavras daquele cara: se sumir uma grama, você é uma mulher morta. Pois bem, não sumiu só uma grama, como toda a mercadoria. Engulo a seco quando mãos femininas com unhas pintadas de vermelho escorregam pela minha cintura, me apalpam de maneira grosseira, quase que brutal, elas buscam por qualquer coisa que se resumisse em uma arma ou mais drogas. A mesma coisa acontece com as minhas amigas. Elas não têm sucesso, porque não tem nada aqui. Aqui não, mas em outro lugar tem. Antes da Ivy me buscar na loja do sr. Godoy, me certifiquei que o que aquele cara estranho me deu era coca, e parece que adivinhando o futuro sombrio que o destino guardava para mim, retirei um pouco da mercadoria e guardei dentro da caixa de bombons que eu comi mais cedo, escondendo-a em um lugar onde ninguém mais acharia. Aquilo iria me servir de alguma coisa, eu só preciso descobrir como usar ao meu favor, ainda mais depois de perder todo o resto. — Não tem nada aqui, senhor. — a policial informa ao seu mandante. Ele não parece satisfeito, e nem confiante a respeito das palavras que escutou, mas acinte, e caminha ao nosso redor, praticamente desfilando como se a minha bolsa fosse um troféu nas suas mãos. — Isso fica comigo. Gravarei o rostinho de cada uma de vocês e caso fiquem sabendo de algo, não pensem em esconder de mim. — recebo isso como uma ameaça oculta. — Agora fora daqui! Meus pés criam vida própria e caminham para fora daquele lugar, olhando para a mercadoria perdida como uma criança que perdeu seu brinquedo favorito. Estou fodida em um nível estratosférico. No meu encalço vem Maya e Ivy, quero fugir delas também, pois sei que uma sessão de sermão vai começar em breve. Quando alcanço o ar arejado, sem cheiro de maconha e alcool, volto a respirar normal, fechando os olhos quando escuto, minha amiga sibilar: — O que um tablete de cocaína fazia nas suas coisas, Hanna Elizabete? Me viro de frente para as duas, meus pulsos estão fechados e meu coração ainda não se acalmou da adrenalina recém vivida. Isso significa que qualquer coisa que sair da minha boca, saíra de forma ferina. — Não sei, pergunte ao Slowan. — me aproximo das duas, alinhando meus olhos aos delas. — Ou melhor, perguntem a Beatriz... — levo meu indicador até a boca, como quem lembra de algo, fazendo questão de ressaltar o que aconteceu com essa garota. — Ah, esqueci que não podem fazer isso, porque ela está morta! Morta, c*****o! Mais silêncio e isso é o suficiente para me irritar mais ainda. — Não se meta com ele, Hanna. — Ivy fala em tom preocupado se referindo aquele i*****l, depois de um tempo calada processando o remorso. — Ele é perigoso, faz parte... — Do Os Treze? — Finjo estar falsamente surpresa. Quando pego elas desprevenidas. — É, fiquei sabendo! E parece que vocês também sabiam, não é? Me sento na calçada mais próxima, enterrando meus dedos no meu cabelo que à essa altura, tá mais do que bagunçado, assim como a minha vida. Tudo deu errado, aconteceu o que não poderia acontecer e agora me encontro com data marcada para morrer, assim como a Beatriz teve. — Você fez merda, Ivy. Sabe disso, né? Não deveria ter indicado a Hanna para trabalhar naquele lugar. Você sabe o que acontece às escondidas por lá! —Maya começa a falar com o seu tom de voz alterado, é isso que fazemos quando perdemos o controle, procuramos culpados antes de olharmos para nós mesmos. — Não foi por m*l, Maya! — Ivy grita, peitando a loira. — Já disse, eu só queria ajudá-la. Ela saiu da cadeia sem nenhum centavo no bolso e depois de tudo que aconteceu, é o mínimo que poderíamos fazer por ela. Ao contrário de você, que só se preocupou com uma droga de festa, que só beneficiou apenas o seu bolso. — Cala a boca! — Vejo ela lançar um olhar de repreensão para Ivy. — Você fala mais do que devia falar. Foi então que eu entendi tudo, foi com as palavras da Ivy mais a junção da reação constrangida da Maya que eu entendi o que estava acontecendo e juro que não queria ter entendido. Maya e Ivy ainda estão metidas nos negócios sujos, os mesmo negócios que me colocaram na cadeia, elas ainda fazem o GG funcionar com a venda de drogas e a p***a da rivalidade com Os Treze, como se nada tivesse acontecido com uma das integrantes, que inclusive, foi a idealizadora do motivo no qual ainda nos fazem se suportar. Eu criei o Good Girls, depois que a Donna nos tirou daquela merda de orfanato. Eu coloquei elas nisso. Foi eu que fez tudo funcionar, elas só me ajudaram e agora simplesmente me escondem as coisas? — Não acredito que ainda vendem essa merda! Ainda tem a coragem de jogar uma lição de moral na minha cara, como se vocês duas fossem duas santas e não estivessem agindo pelas minhas costas? — Não podemos falar sobre esse esquema, Hanna! É algo confidencial, quem se envolve nisso, tem a vida colocada em risco. Não é como quando a gente trabalhava para a Donna, é algo mais grandioso e não queremos seu envolvimento nisso. — Não querem? — pergunto incrédula, segurando a grande vontade que tenho de chorar. Chorar de raiva. — Estão me deixando de fora do Good Girls? — Não é exatamente isso. — Ivy troca o peso dos pés, e gesticula para que Maya explique melhor. — As coisas continuam como antes, Lize. Você só precisa entender que quem manda não é mais a Donna e administrar o Good Girls não está mais nas nossas mãos. — E na de quem está? — Não vem ao caso. — Maya engole seco e desvia seus olhos do meu, como quem foge de uma mentira. — Já te falei que não podemos falar sobre isso. — Inacreditável. — solto uma risada amarga. Minhas amigas estão me traindo bem na minha frente. Coloco os fios de cabelo rebelde atrás da orelha, ajeito minha jaqueta no meu corpo, e caminho para longe dali, tendo a certeza do que fazer, para sobreviver mais um dia. — Aonde vai? — Ivy grita quando já estou consideravelmente distante do Ginásio onde deveria acontecer uma festa épica de Halloween e meu aniversário. — Pro inferno, v***a. — respondo só para mim, tendo a certeza que estarei lá quando o dia amanhecer.
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