7. Você gostaria de nunca ter a conhecido

2199 Words
— Feliz aniversário para a minha princesa. Seus olhos dourados brilhavam como ouro quando eu abri a caixa onde tinha uma sapatilha de ballet dentro. Era uma sapatilha bege, um bege mais escuro do que estamos habituados a ver nos pés das bailarinas, um bege que combinava direitinho com o meu tom de pele. — Eu não sou uma princesa. — sorri empolgada, calçando elas nos pés, eram novas, eu nunca tive sapatilhas como essa de primeira mão. Para falar a verdade, eu não gostava muito de princesas, achava elas um tanto quanto dependentes, sempre se preocupando com a beleza e um príncipe encantado en um mundo ilusório. Não que eu não fosse sonhadora e não gostasse de garotos, mas eu sempre ia preferir assistir Scooby Doo com a realidade da enganação do que reprisar a Branca de Neve sendo salva pelo homem perfeito. — Claro que é, minha querida. — Ela tocou na minha mão e me estimulou a dar uma volta completa com o calçado nos pés, fazendo com que o tecido do meu vestido rosa esvoaçasse no vento, seguido de um plié que ensaiei durante a semana toda. — É a princesa mais linda e única que eu já vi. Agora sobe naquele palco e dança, dança sentindo a música, dança com os sentimentos dentro do seu coração. Sorri ao escutar esse singelo elogio da minha mãe, me fazendo eu me sentir de fato uma princesa, uma linda princesa que sentia capaz e era independente, escutar sua voz me lembrando que eu era alguém, me fazia realmente ser alguém importante, com um sonho gigantesco no coração. Seu perfume de rosas flutuou no ar, seus braços passaram em volta do meu corpo, seus cabelos curtos tocaram meus ombros, o seu calor me transmitia paz. Depois ela depositou um demorado beijo na minha testa e me mandou ir mais uma vez, me assegurando que daria tudo certo. Como gosto disso, como é bom senti-la, toca-la, aprecia-la. Como é tranquilizante escutar isso da pessoa mais importante do planeta para mim. Então eu lembrei. Ela não está mais aqui. — O que aconteceu com ela? — Não sei, ela desmaiou do nada. Aquela voz masculina entrou pelos meus tímpanos, me fazendo despertar atordoada do pânico recém vivido, na dúvida do que era sonho ou realidade. Abro os olhos sentindo o ar voltar aos poucos para os meus pulmões, sinto minha roupa úmida de suor e a cabeça ainda latejar de dor. Reparo em minha volta, conheço esse lugar, a sala minúscula na qual era guardado arquivos, dinheiro e mercadorias em pequenas quantidades. Ainda de visão turva devido uma claridade absurdamente irritante é impossível não reconhecer a familiaridade, a nostalgia me atinge de novo, até que vejo dois caras na minha frente. Malditos dois caras. — Ela acordou. — o garoto de cabelos platinados disse em um tom aliviado com uma mão no coração. — Pensei que tinha apagado a garota, Slowan. — Claro que não. Longe de mim querer essa princesinha morta. — ele se aproxima de mim, me analisando com seu olhar crítico e a ironia irritante na fala, se certificando que eu estava realmente lúcida. — Tá tudo bem? Em um ato repetindo tomado somente pela raiva, avanço contra o seu corpo como um cachorro enfurecido, com o ódio voltando a tona, como uma bomba que explode sem aviso, e somente quando faço isso, percebo que estou com os movimentos limitados, sendo segurada por uma cadeira com os pulsos amarrados nas costas. Que porra...? — Me solta, c*****o! — rosno, sentindo meus músculos tremerem com a ira, logo a dor de cabeça aumenta, gradativamente, conforme me lembro do tanto de problemas que me assombram. Como eu queria voltar ao meu sonho e abraçar novamente a minha mãe. Parecia realmente que ela era a única pessoa, mesmo morta, que se importava em me desejar feliz aniversário e fazer de fato o meu dia mais feliz. Queria escutar ela me dizer com tanta convicção que realmente, tudo ia dar certo a cada segundo da minha vida. Porque me vendo do lado de fora do meu corpo, duvido muito que algo vá ficar bem. — Para você avançar em mim dessa forma? — aquele cara cheio de petulância se encosta no birô de madeira na minha frente, que antes era meu. Ele continua me fitando com aquele olhar impassível, de quem pouco se importa com a carga pesada que trago nas costas. — Melhor não. E por mais que seu semblante mostrasse que ele estava pouco se fodendo para mim ou para o que ele estava causando na minha vida, por breves segundos, eu consegui ver o interesse nas suas íris azuladas. Consegui ler através da sua postura displicente, a forma como ele esquadrinhava meu rosto e algumas vezes o meu corpo, a vontade que ele tinha em me decifrar, na importância que ele estava dando a minha pessoa com colapsos de surtos, na maneira de como eu me rebelava contra ele, em como eu não me mostrava abalada perante suas ameaças e a sua beleza estonteante. Filho da p**a. Apesar de estar com raiva, com muita raiva, que isso fique claro. Talvez ele tivesse certo em não me soltar, pois com toda a raiva que sinto, eu seria capaz de matá-lo usando somente as mãos. E já que não posso usar elas, usarei outras formas de o atingir. Jogo minha cabeça para o lado, deixando alguns fios dos meus cabelos cheio de rebeldia caírem sob meu rosto, ergo um pouco meu queixo, umedecendo vagarosamente meus lábios. Como quem não queria nada, deslizo uma perna na outra, depois as abro, não muito, não ao ponto de parecer desesperada, só o suficiente para que seu olhar gélido saísse dos meus e descessem até um certo ponto. — Gosta de brincar com amarras, Slowan? — pergunto em tom provocativo, deixando subliminar o duplo sentido. Ele desvia sua atenção de volta ao meu rosto. — Não muito, princesa. Prefiro algo mais violento. — ele não demonstra ter ficado atingido, pelo contrário, existe uma sombra de um sorriso libidinoso no seu rosto. — Tipo tapas, enforcamento, puxão de cabelo, essas coisas. Você tem cara de quem sabe como é. Minha vibe dominatrix não enganava, assim como esse seu jeitinho mandão também não. Pena que estamos nessas circunstâncias de ódio e rivalidade, se não, eu mostraria a ele que quando a mulher tem o controle, tudo fica mais interessante, e dessa vez, não estou falando no duplo sentido. — Dá para brincar com as amarras e usar a violência, também. — Ele suspende as sobrancelhas, um tanto quanto surpreso pela minha continuidade na provocação. — Na verdade, essa é a graça da coisa. Submissão. — Curto isso. — O vejo pegar tranquilamente uma garrafa de uísque ao lado do seu quadril e depositar o líquido marrom no seu copo, depois levando até seus lábios, sem pressa, sem medo, sem limites para me irritar. — Mas quando sou eu que domino. Reviro os olhos, segurando o sorriso malicioso que queria tomar de conta dos meus lábios. — Com as mãos soltas eu sou mais útil. — estalo, erguendo as sobrancelhas em desafio, jogando meu cabelo para o outro lado. — Me solta! — Eu acredito... — ele se desencosta da mesa e caminha até a mim. O dono dos olhos verdes hipnotizantes para na minha frente e cruza os braços, me encarado de cima para baixo. — Mas vou deixar para ver isso, depois que me disser qual é a tua ligação com a Donnatela. Soltei um riso nasalado. Era isso, então? — Coincidência, é a mesma pergunta que tenho pra você. — Então uma resposta por uma pergunta. — propõe, erguendo seu copo como um brinde. Balanço minha cabeça, ponderando e achando justo. Tenho muitas perguntas para fazer, além dessa. O outro cara se senta na poltrona mais próxima, escuto sua risada abafada, como se ele estivesse assistindo uma novela mexicana ao vivo. Pelo visto, ele é alguma espécie de sombra desse tal de Slowan, pois onde um está o outro tá também. Seria assim na cama? És a dúvida. — Primeiro as damas. — Slowan diz, se agachando na minha altura alinhando seu olhar ao meu. Engulo sua esperteza a seco, revirando minimamente meus olhos, novamente. Isso virou um hábito quando ele está próximo, até demais. — Porque quer saber disso? — Porque se você veio até meu clube atrás daquela mulher, é porque tem algo muito importante pra resolver com ela. Ele era esperto e não sei se gosto muito disso. — Seu soubesse que o clube era seu, agora, teria passado do outro lado da rua. — É meio rancorosa, sabia? — pergunta com deboche. — Mas a grande questão aqui não é essa, princesa Hanna e sim o quê você tem pra resolver com ela? Princesa. Céus... Tem outra palavra que descreva o sentimento de ódio ao extremo? — Donna é uma filha da p**a. Ela tramou para mim, e como uma boa rancorosa faria, só vim cobrar vingança — jogo a verdade no ar, incerta se deveria fazer isso, desviando os olhos para outro lugar daquela sala que parece ter ficado menor do que já era. — Deve saber disso, já que é o poderoso chefão dos Treze. — É, eu sei. — diz simplesmente. — E o que ela fez para você? — Uma pergunta por uma resposta. — volto a olhá-lo com um brilho de divertimento. — Minha vez. — ele se levanta, tomando mais um gole da bebida. — Sabe meu nome. — a confissão parece o pegar de novo de surpresa, quando ele quase se engasga com o líquido na garganta. — Como sabia? — Acha que eu não pesquisaria sobre a garota que sumiu com as minhas drogas? Tenho que está um passo à frente dos meus inimigos. — Não sou sua inimiga, pequeno Slowan. — alfineto, sabendo que nenhum homem com o ego inflado gosta de ser chamado de pequeno. — E só pra constar, aquilo foi um acidente. — Quem me garante? — Ele trava o maxilar, notoriamente afetado, mas sem paciência para rebater. — Já entendi. — sorrio com escárnio, tentando ganhar essa disputa tola pelo cansaço dele. — Essa rivalidade sempre existiu entre ela e seu clubinho de mafiosos. Daí a Donna sumiu e você tomou o clube dela, e agora acha que eu tenho alguma ligação com aquela c****a e quero te f***r? — Querer me f***r eu sei que quer. — a sua petulância se camuflava bem com a sua malícia. — agora sua ligação com a Donna é o que me intriga. Trabalhava para ela? — O que você acha príncipe dos olhos azuis? Ele estava prestes a me responder no mesmo nível de ironia, quando um furacão chamado: Maya e Ivy, se esbarram na porta, entrando no ambiente. As duas estão esbaforidas, descabeladas e agora, Maya está vestida. Ambas têm o semblante preocupado, parecem se perguntar como eu vim parar naquela situação e o que rolou por trás dos olhos delas. Nesse momento não procuro culpa-las. Apenas minha sede de vingança pela Donna e a minha raiva por Slowan, está causando esse caos. — Hanna, você ta bem? — Está ótima. — ele diz por mim, fitando as meninas de maneira amigável, depois voltando os olhos furiosos aos meus. — Estamos batendo um papo sobre como ela perdeu treze quilos de cocaína. — Merda. — Ivy pragueja, nervosa. — Vamos resolver isso pacificamente. — Então mande a sua amiguinha colaborar, porque não vou perguntar de novo. — Slowan se recompõe e volta a falar duro. — Qual é a p***a da tua ligação com aquela cretina? — Odeio admitir isso, mas concordo contigo na parte do cretina. E sobre a sua pergunta, — estalo, mantendo o nível de deboche. — me solta dessa merda e ai penso se falo mais alguma coisa. — Resposta errada. — ele segura firme os braços da cadeira, suas mãos se cerram em volta daquilo ressaltando suas veias e a sua impaciência em saber — se não responder o que te pergunto, vai ficar aí por mais tempo, e aí podemos partir para aquela outra parte da violência. Que tal? Eu sabia a conotação s****l da sua ameaça, que prefiro encarar como blefe. O que nós dava mesma e e conhecida vantagem, que sempre tivemos em se manter à frente dos Treze. Era simples, no mundo do crime existia uma lei que respeitávamos rigorosamente: é proibido tocar em mulheres. Quando algum i*****l faz isso, mesmo sendo essa cópia barata do poderoso chefão, as consequências vêm de alguém de cima, porque sempre existe um tubarão maior no tráfico. Logo me lembro da droga do diálogo que tivemos na loja do Sr. Godoy, sobre quão sonsos somos e da forma pejorativa que faço piadas sobre a morte. Realmente, não sei quando isso se tornou uma habilidade minha, só sei que brincar com o perigo é mais atrativo do que posso medir. Eu faria ele desejar nunca ter cruzado meu caminho e pior, nunca ter me feito a promessa de me levar ao inferno. Por isso o desafio sem medo: — Me mate se for capaz.
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