8. Obssessão

2984 Words
— Hanna, para de ser debochada! Você bateu a cabeça? — Maya pergunta horrorizada. E olha que de nós três ela é a mais corajosa em quesito descaramento. — Só pode ter ficado louca. Não conhece ele para saber que está falando sério. — Não está. — meu afronte parece ter o deixado ainda mais furioso, com seu lindo maxilar trincado e sua carótida pulsando a poucos centímetros do meu rosto. — Se ele tá querendo me impressionar, desculpa informar, mas não conseguiu. Ele solta os braços da cadeira e toma distância, como se precisasse de ar para respirar e esse ar não fosse o mesmo que o meu. — Por favor, Heron. Solta ela. — Ivy pede quase chorando. Heron? — Slowan. — ele a corrigi, sério. Mostrando que aquele nome era o nomo no qual queria ser chamado. Mostrando poder. — Pode não parecer, mas tô tentando ajudar ela, é só ela começar a colaborar comigo. Seu corpo alto parece já ter pegado o ar que precisava para continuar me peitando, me mostrando que meu lugar é abaixo do seu. Por mais que eu sinta raiva, no fundo eu entendo. Já fui gestora dessa merda e as vezes precisamos nos impor, da pior forma, nos mostrando filhas da p**a cheios de maldade o suficiente para que pessoas como eu, possam nos respeitar. Seus olhos azuis quase cinzas, se curvam de volta para mim, meus coturnos de salto não são capazes de me fazer ter a mesma altura que ele. Heron recobra a distância que tinha tomado, e me fita, perto demais, perigoso demais, atrativo demais. Seu hálito mentolado, invade minhas narinas, esse cheiro me faz engolir minha saliva com dificuldades, eu não sei se é porque minha boca imaginou o gosto que a sua tinha, ou se é apenas pelo nojo que sinto toda vez que ele me olha como se tentasse desvendar meus pensamentos. Pois bem, estamos quites, pois tento fazer a mesma coisa com os dele. — O que quer dela? Fala! Qualquer coisa, a gente te ajuda. — Ivy fala esbaforida. Em quase uma vida de amizade com ela, tive que aprender a lidar com seus nervos sempre a flor da pele. Minha amiga faz de um pequeno problema, grandioso, mas eu não a culpo. Sua ansiedade já foi catastrófica quando ela passou por coisas difíceis na infância, vez ou outra, isso ainda a assombra. — Ela me deve trinta mil. — Slowan é duro nas palavras mas não tanto quanto estava sendo comigo minutos atrás. Tenho uma ligeira impressão que ele sabe como lidar com o nervosismo dela. — é bom que ela comece falando com o que trabalhava para a Donna, e daí eu penso se vale a pena mantê-la por perto até me pagar essa grana. — Você tem algum tipo de obsessão por mim? — pergunto com tédio. Maya me repreende por ter falado nesse tom com ele, rolo os olhos por isso. Não tenho medo desse cara, na verdade, não tenho nada por ele, além de repulsa. — Só pode ser isso, porque quem foi que falou que quero trabalhar contigo? Eu não suporto nem ficar perto de você. — Sério, princesa? — um sorriso malicioso na mesma medida que ameaçador, toma conta da sua boca próxima a minha. — Não cuspa para cima, sabe o que pode acontecer depois. Por um segundo, por um milésimo de segundo, meus olhos caem sobre seus lábios. Odeio a forma como ele se diverte tentando me impor coisas que são difíceis de tragar, também odeio a forma como não consigo achar traços feios no seu maldito rosto angelical que não tem nada de santo. — Vamos acabar logo com isso. — Maya decreta impaciente, me fazendo desviar os olhos para ela, que nesse momento encontra-se estressada. Ao contrário da Ivy, Maya sabia controlar sua ansia, porém até certo ponto. Quando a sua paciência era perdida, ela se tornava uma bomba. — Hanna era o braço direito da Donna. Não é, Hanna? Explica para ele! — Não. — digo com desdém. — Hanna? — minha amiga me repreende novamente, pela a forma na qual me porto igual uma criança de cinco anos. Não me importo. — Não tenho todo tempo do mundo. — Heron avisa, revirando seus olhos como se toda essa cena fosse patética para seus lindos olhinhos azúis. — Hanna, por favor. — Ivy se aproxima do meu rosto, ela toca meu queixo e me força a olhar no fundo dos seus olhos lacrimejados, falando baixo para que apenas eu ouvisse. — Você deve dinheiro para Heron, você sabe como funciona, perdeu a mercadoria dele, precisa pagar. Não haja sendo imprudente, haja como a mulher inteligente que sempre foi! — Eu não pedi para pegar um tablete de cocaína Ivy, se tô nessa é por causa de vocês duas. — os olhos da morena não conseguem mais segurar as lagrimas. Ela sente o impacto duro das minhas palavras. — Então não venha falar comigo, tentando controlar minhas ações perante à um i*****l como ele. Heron leva uma mão ao peito, se mostrando falsamente ofendido pelo o que chamei, depois solta um riso curto, apreciando o dialogo entre três amigas com a amizade abalada. — Então é isso? — Maya me olha fria. — Vai nos odiar para sempre? — Possivelmente. É a vez de Ivy perder a paciência, saindo de perto de mim e se virando na direção daquele cara, como um furacão, decidida sobre o que destruir. — Eu trabalho o dobro para pagar, Slowan. Maya se junta a ela depois de alguns instantes me encarando com seus olhos de desaprovação. — Eu também. O maldito Heron, parece ponderar essa negociação, mas depois leva os olhos para mim, sem falar nada, esperando que eu tomasse uma posição perante a isso. Por mais que eu queria relutar, não vejo muitas alternativas, se não a de ceder. Estou p**a com a Maya e a Ivy, é verdade, mas eu não quero vê-las continuando a trabalhar nesse ramo que parece mais um suicídio. Afinal, era um informação simples. O que eu fazia para Donnatela. Só não queria dar meu braço a torcer pra aquele cara que deixa meu ego abalado, estando no lugar que era meu por direito. — Me solte e eu falo. — ele me olha desconfiado, reviro os olhos na mesma hora. — Falo tudo, dou a minha palavra. — A palavra é tudo que você tem. — ele se aproxima ainda mais, me fazendo prender a respiração pelo impacto da sua voz rouca tocando o lóbulo da minha orelha, ao mesmo tempo que suas mãos passam em volta da lateral do meu corpo e alcançam o nó da corda que prende meus pulsos. Balanço as mãos no ar, sentindo a mobilidade de movimentar novamente. Elas não estavam fortes, mas ter algo me prendendo me deixou um tanto quanto traumatizada depois de quase um ano nessa situação. Sinto os olhares de expectativa e curiosidade sobre minha feição sínica, enquanto cruzo as pernas na mesma cadeira, alinho minha postura e ergo meu queixo, decidindo que não vou ficar por baixo, descendo o degrau do fracasso. Por isso começo a falar tudo de uma só vez, da maneira sublime que consigo. — Eu trabalhava para ela, sendo sua linha de frente. — explico com calma. — Ficava com a parte burocrática, dos números, das planilhas, compras e mercadoria. Ficava com a parte que mais gosto, a financeira. Comandava o que saia e entrava. Eu era a cabeça pensante. — Cuidava do dinheiro? — parece que essa é a única coisa que ele pensa, afinal, é por isso que estou aqui. — Hanna é uma calculadora humana. — Maya pontua, respondendo por mim, com a sua carranca e seus braços cruzados. — Ela lidava com o dinheiro bruto. Se Donna lucrava, o mérito era dela. Na verdade era de todas nós, mas vou deixar a Maya encher minha bola só para que eu não fique por baixo. — E o que mais? Olho para ela e depois para Ivy, principalmente para Ivy e sua a boca grande, em um pedido silencioso que ela mantivesse a língua atrás dos dentes. — Apenas isso. — respondo. — Boa tentativa. — ele volta a se escorar na mesa, pegando de novo seu copo de uísque, displicente — Mas não sou i****a de te deixar cuidar do meu dinheiro. Eu mesmo faço isso. — Não é a toa que os negócios não saíram do canto. — alfineto. Seu olhar se cerra na minha direção, especificamente no sorrisinho no canto da minha boca. Cruzo os braços e não quebro esse contato visual, que parece querer me queimar viva de raiva. — Como é que é? — O clube está do mesmo jeito que eu deixei há quase um ano atrás. — Tá dizendo que eu não trabalho? — realmente ele pareceu estar ofendido pelas minhas palavras. Estou me sentindo adorável por isso. — Não. Estou dizendo que você não tem um olhar crítico para investir na p***a do negócio que agora é seu. Quer uma prova? — ele não responde, encaro como um sim. — Olha essa sala... — todos olham ao redor. — Era aqui onde eu ficava, trabalhando dia e noite. Se abrir a última gaveta do móvel em que seu lindo corpinho de chefe está escorado, verá que tem um fundo falso, e dentro desse fundo falso existe notas de euro. — o garoto de cabelo platinado parece curioso com a informação, por isso decide ir até lá e se certificar, puxando três notas. — Era ai onde eu guardava muito mais delas. As que sobraram, pois as outras foram pegues junto comigo, quando fui presa, eu quis dizer, mas não tinha relevância. — Não me conveceu. — ele insistiu na própria opinião. — Eu só não tinha reparado nesse detalhe. — É claro que não. — solto um risada com deboche. — Se quer que eu trabalhe para você, me deixe ao menos cuidar da sua mercadoria. Me deixe te mostrar e eu te dou a minha palavra mais uma vez, que você irá faturar três vezes mais daqui a um ano. Quando um cérebro feminino organiza seu negócio, o seu esquemas de vendas voa. Heron me encara duvidoso, seus olhos demoram mais tempo do que o normal nos meus, o silêncio se torna ensurdecedor na sala, principalmente entre nós dois, ao ponto de escutarmos a respiração de cada um presente aqui. Ouço até as engrenagens da sua cabeça rodar, ele parece pensar, pensar de fato se isso que eu acabei de dizer era verdade ou não, e se valeria a pena tentar. — Sem essa. — o garoto dos fios loiros se aproxima do amigo. Ele gesticula suas mãos, ansioso, nervoso, como se tudo que ele acabou de escutar fosse uma loucura, parecendo perceber que o Heron estava realmente seduzido, muito seduzido, em topar. — Essa função é minha, Heron. Você sabe disso. Não vai fazer isso comigo, não é? Heron ainda tinha seus olhos de gelo presos aos meus. Quando se dirige calmamente ao amigo, sem quebrar o nosso contato visual. — Ela tem razão, Lion. Nossos negócios deveriam estar maiores do que estão. — sorrio vitoriosa na direção do garoto, que me olha querendo me matar. — Mas não precisa se desesperar, sou louco mas não ao ponto de entregar toda a nossa mercadoria para quem não conseguiu proteger nem treze quilos. Engulo a frustração a seco, junto com a raiva, tentando não mostrar que fiquei minimamente abalada por ele ter razão. Apesar de que, não pedi para ter aquilo em mãos. — A Hanna é boa em várias coisas — Maya instiga — Tenho certeza que ela pode ajudar em outra área. — No que? Vendendo drogas na esquina? — riu sem emoção. — Não, obrigada. — É muito arriscado para uma mulher. — Heron fala com seu semblante sério. — Não me subestime. Meus olhos começam a doer de tanto que os reviro a cada vez que ele abre a boca. Machismo hoje em dia é antiquado. Tenho certeza que sou boa em tudo que me propor a fazer. — Não subestimo princesa. — diz displicente, porém seu semblante tem um fio de preocupação — É por acreditar que você pode enfiar uma faca no saco do primeiro babaca que aparecer na sua frente que prefiro me resguardar e te deixar em um lugar seguro. — O cara que me ameaçou de morte se preocupa com a minha vida? — falo divertida, encarando minhas unhas, mostrando tédio. — Curioso. Ele também respira profundamente, acho que a sua paciência não é tão infinita assim. Todos ali presentes voltam a ficar calados, como se juntos estivessem procurando uma solução pro meu problema, enquanto não dou a mínima pra isso. Sinceramente? Trabalhar para aquele cara era uma das últimas coisas que eu planejava fazer na vida. Ainda mais depois de ter saído da prisão pelos mesmos erros cometidos no passado com a Donnatela. — Na verdade tem uma coisa que a Hanna é muito boa. Na verdade, muito boa! A melhor. — Ivy começa, olho para ela, pedindo desesperadamente sem falar, que ela cale a p***a da boca. — Não. — me prontifico. — Já falaram tudo que eu sabia fazer. Minha amiga parece não escutar o que eu digo, ela não dá a mínima, a única coisa na qual se preocupa é livrar sua mente da culpa por ter me colocado nesse julgamento perante aquele cara. — Ela sabe dançar. Puta merda. Solto uma grande corrente de ar, sem acreditar que ela estava fazendo aquilo. — Sabe é? — ele me olha intrigado dos pés a cabeça, lentamente. — Sim. — Ivy não me encara, acho bom, pois com o ódio que sinto no peito por ela ter confessado isso por mim, seria capaz de a matar só com o poder da mente. — Tirando a roupa também? — pergunta quando seus olhos saltam do meu decote para meu rosto vermelho de raiva e vergonha. — Porque aqui é um clube de strippers, e só ficam comigo, garotas experientes que sabem o que fazem. — Sou péssima nisso. — minto. — Tenho zero coordenação motora, um belo desastre. Não funcionaria. — Como previ. — ele ergue uma sobrancelha, em desafio. — Não é tão boa quanto diz ser, em muitas coisas, princesa. Suas alternativas estão acabando. Em outro momento eu odiaria ter meu ego colocado à prova dessa forma, mas agora, agradeço por ele está dizendo isso. Lembro-me de todas as vezes que subi no palco, fechei meus olhos e me deixei ser levada para outro mundo quando a música começava a tocar. Lembro-me bem, perfeitamente, de como eu imaginava estar em outro palco, em outra plateia, como em um show da Broadway, com pessoas realmente interessadas em ver minha arte. E não me esfregando em um poledance prestes a ficar com os s***s na mão e depois de quatro para catar a p***a do dinheiro no chão. Não quero voltar ao passado. Não quero ter que tirar a roupa na frente de homens desconhecidos. Não quero ser novamente um objeto s****l tendo que me humilhar à alguém mostrando que sei muito mais do que tirar a roupa para poder chegar ao trono, assim como fiz com a Donna. Não mais. Eu e a Maya nos entreolhamos, entendo ela me dizer com as suas orbes castanhas que vai dar um jeito nisso, mas ao contrário do que eu espero que ela faça, ela termina de f***r com tudo. — A Hanna me ensinou a dançar, Heron. — explica ganhando a atenção dele. — Sou a melhor dançarina da sua boate, mas tudo o que eu sei, foi a Hanna que me ensinou quando ainda éramos duas adolescentes na puberdade, então o cargo de melhor é dela. Ela sabe fazer isso como ninguém. Apenas a deixe mostrar. — Sei não, cara. — Lion se pronuncia, espalhando seus cabelos. — Não tô com um pressentimento bom. Essa garota só tá trazendo problema. Libera ela e deixa ela se virar sozinha pra te pagar, e se não pagar, a gente dar um jeito de acabar com a raça da garota. Já disse que nunca fui com a cara dele? — Você sabe ou não dançar? — Heron não da ouvidos para o amigo. — Sei. — admito, sem emoção. — Sei muito. E eu nem era tão boa assim com os números, vez ou outra eu errava alguma conta e mandava alguma mercadoria para rota errada. — começo a tagarelar ficando nervosa, porque é isso que eu faço quando meu coração se atropela no peito. — Dançar é minha vida. É tudo pra mim. É a única coisa que sei fazer. É a única coisa que faço por amar fazer. — Ótimo... — ele decreta como se tivesse achado uma fórmula para a paz. — Resolvemos o nosso problema. Está contratada. Vai trabalhar para mim como stripper até pagar o que me deve. Começa amanhã. — Mas tem uma coisa... — me levanto da cadeira. — O quê? Um sorriso diabólico cresce nos meus lábios. Noto quando seu olhar é atraído para ele, conforme dou passadas até seu corpo encostado na mesa de madeira. Encaixo minhas pernas no meio das suas, ao mesmo tempo que cruzo meus braços, que é a única coisa que impede do meu corpo tocar no seu. Sinto o calor do seu corpo invadir o meu, isso faz uma corrente de adrenalina crescer em mim, porém também percebo que essa mesma corrente percorre por ele também, quando sua pupila se dilata no meio do azul cristalino. Então, escorrego minha boca até o seu ouvido, conforme ele fez comigo, pouco tempo atrás, e digo, decidida em ser o maior problema que vai precisar lidar na sua vida: — Eu não disse que ia trabalhar para você.
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