Alguns dias depois, a rotina parecia finalmente tentar voltar ao normal.
Letícia estava na faculdade, sentada no gramado entre um bloco e outro, rindo enquanto explicava uma matéria para um colega do curso. Era um menino simples, mochila jogada no chão, caderno aberto no colo. Nada demais. Um sorriso leve, daqueles que nascem sem intenção.
O que ela não sabia…
é que Juan estava ali.
Ele tinha ido buscá-la mais cedo naquele dia. Chegou antes do horário e ficou observando de longe. No instante em que viu o sorriso dela direcionado a outro homem, algo dentro dele queimou.
O maxilar se contraiu.
A mão fechou em punho.
Aquele sorriso…
era dele.
Sempre tinha sido.
Juan caminhou decidido até eles.
— Letícia.
A voz saiu baixa, mas carregada de autoridade.
Ela virou o rosto e congelou por meio segundo.
— Juan… amor? — levantou rápido. — Oi.
O garoto também se levantou, meio sem graça.
— Ah… oi — disse, estendendo a mão. — Eu sou—
Juan nem deixou terminar.
— Ela já vai — interrompeu, passando o braço pela cintura de Letícia de forma possessiva. — Não é, amor?
Ela sentiu o aperto, reconheceu o tom. Ciúmes. Daqueles perigosos.
— Juan… — tentou amenizar. — A gente só tava conversando sobre a prova.
— Conversando demais — ele respondeu, o olhar frio cravado no garoto.
O menino engoliu seco.
— Foi m*l, cara. Eu já tava indo — disse, pegando a mochila e saindo rápido.
Assim que ficaram sozinhos, Letícia se afastou um pouco.
— Qual é o seu problema? — perguntou, irritada. — Você não pode chegar assim.
Juan respirava pesado.
— Eu vi você sorrindo pra ele.
— E daí? — ela rebateu. — Eu posso sorrir. Eu tô numa faculdade, Juan, não numa prisão.
— Eu não gosto — ele respondeu seco. — Não gosto de ninguém te olhando.
— Isso é ciúmes doentio — ela disse, cruzando os braços. — Eu não te traí. Eu não fiz nada errado.
Ele passou a mão pelo rosto, claramente lutando contra algo interno.
Juan respirou fundo, mas o olhar continuava carregado.
— Olha, Letícia… eu sei que muita coisa mudou. Você não é mais só o meu ponto de fuga. Você é minha namorada de verdade. — Ele passou a mão pelos cabelos, nervoso. — Mas eu sempre fui claro com você. Eu não divido o que é meu. Nem toque, nem i********e… nem sorriso que não seja pra mim. Isso ainda vale. Você é minha.
Ela sentiu o peso das palavras, mas não abaixou a cabeça. Aproximou-se devagar, falando com calma, do jeito que sabia que era a única forma de alcançar ele naquele estado.
— Juan… respira, tá? — disse, tocando de leve no peito dele. — Eu só estava conversando. Só isso. Eu não abracei, não beijei, não dei a******a nenhuma. Não teve maldade. Não teve interesse.
Ele desviou o olhar por um instante.
— Eu vi você sorrindo…
— Eu sorrio quando converso, quando explico algo, quando sou educada — ela respondeu, firme, mas sem agressividade. — Isso não diminui o que eu sinto por você. Não ameaça o que a gente tem.
Juan fechou os olhos por alguns segundos. Quando abriu, a raiva já tinha dado lugar a algo mais cru: medo.
— Eu tenho pavor de te perder — confessou, a voz mais baixa. — E quando vejo outro homem perto de você… eu volto praquele galpão. Pra ideia de que alguém pode te tirar de mim.
Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, obrigando-o a olhar pra ela.
— Ninguém vai me tirar de você se você não me empurrar pra longe com esse controle. Eu escolhi ficar. Eu escolhi você. Mas eu preciso que você confie em mim.
O silêncio entre eles foi pesado, mas necessário.
Juan finalmente a puxou para um abraço, forte, protetor, o rosto enterrado no cabelo dela.
— Eu vou tentar — murmurou. — Não prometo ser perfeito… mas prometo lutar contra isso por você.
Ela fechou os olhos, correspondendo ao abraço.
— É só isso que eu preciso. Que você lute comigo, não contra mim.
Ele beijou o topo da cabeça dela, ainda possessivo, ainda intenso — mas, pela primeira vez, disposto a aprender onde terminava o medo… e começava o amor.