A rotina de Letícia na faculdade continuava pesada. Provas, relatórios, laboratório, horas intermináveis em pé, a cabeça cheia de fórmulas — tudo isso ajudava a mantê-la focada.
Ou pelo menos ajudava a tentar.
Nos últimos dias, porém, algo parecia fora do lugar.
Ela sentia.
Olhares demorados demais.
Um carro parado na mesma esquina em horários diferentes.
Um homem que parecia sempre estar no corredor quando ela saía da aula.
No início, Letícia tentou ignorar.
Paranoia, pensou. Coisa da minha cabeça.
Mas o aperto no peito não ia embora.
No laboratório, enquanto mexia em um experimento, uma colega comentou casualmente:
— Letícia… você percebeu aquele cara ali fora? Ele tá desde cedo olhando pra dentro.
Ela disfarçou, mas o coração acelerou.
— Deve ser alguém esperando — respondeu, tentando soar normal.
Mas não era.
Na saída da aula, no fim do dia, ela apertou o celular na mão e ligou para Juan antes mesmo de pensar duas vezes.
— Amor… — a voz saiu mais baixa do que ela queria — você tá ocupado?
Ele percebeu na hora.
Juan sempre percebia.
— Onde você tá? — perguntou direto.
— Na faculdade. Tô saindo agora… mas tem alguém estranho aqui desde cedo. Eu não sei explicar, só… não parece certo.
Do outro lado da linha, o silêncio durou menos de um segundo.
— Letícia, escuta com atenção — disse ele, controlado demais — entra no prédio de novo agora. Fica perto da portaria. Não sai sozinha.
— Juan, eu não quero chamar atenção—
— Agora, amor — interrompeu, firme, sem gritar. — Confia em mim.
Ela obedeceu.
Enquanto esperava, sentada perto da entrada, sentiu o mundo de Juan bater à porta do dela de uma forma que nunca tinha sentido antes. Até então, o perigo era distante, abstrato. Agora, estava ali. A poucos metros.
Quinze minutos depois, dois homens que ela nunca tinha visto antes entraram no campus. Não usavam terno, nem arma visível. Pareciam comuns demais.
Um deles se aproximou.
— Senhorita Letícia? — perguntou educado.
Ela engoliu em seco.
— Sou eu.
— O Juan pediu pra gente te acompanhar até em casa.
Naquele momento, tudo fez sentido.
O carro estranho.
Os olhares.
O aviso.
No trajeto, Letícia não falou nada. Observava a rua pela janela, sentindo o peso da realidade.
Ela estava tentando ser apenas uma estudante.
Mas o homem que amava não vivia em um mundo onde isso era simples.
Quando chegou em casa, Juan já a esperava. Assim que a viu, caminhou até ela e a abraçou forte, como se precisasse confirmar que ela estava inteira.
— Eu sinto muito — disse baixo. — Eu juro que estou tentando manter você fora disso.
Letícia respirou fundo, o rosto enterrado no peito dele.
— Eu só… não quero perder minha vida, Juan. A faculdade, meus sonhos… eu lutei muito pra estar ali.
Ele segurou o rosto dela, olhando nos olhos.
— E você não vai perder. Eu não vou deixar.
Mas preciso que você entenda uma coisa — completou, sério. — Enquanto estiver comigo, eu vou te proteger. Mesmo que o meu mundo tente invadir o seu.
Ela assentiu lentamente.
Naquela noite, Letícia entendeu que amar Juan não era apenas paixão ou conforto.
Era conviver com o perigo… sem deixar que ele a engolisse.
E essa seria a luta mais difícil de todas.