Juan sentiu o chão sumir por um segundo.
— Como assim… ela saiu ontem de manhã? — ele perguntou, controlando a voz.
A mãe de Letícia franziu a testa.
— Ué, meu filho… ela disse que tinha aula cedo, depois ia direto pra sua casa. Achei que estivesse com você desde ontem.
O silêncio pesou.
Juan forçou um sorriso rápido, daqueles que não chegam aos olhos.
— Deve ter acontecido algum atraso, sogra. A faculdade anda puxada.
Mas por dentro, tudo nele já estava em alerta máximo.
Ele se despediu, entrou no carro e, assim que fechou a porta, pegou o telefone de novo. Ligou. Caixa postal. Mandou mensagem. Nada. Tentou localizar o celular dela — desligado.
O volante rangeu sob a força dos dedos dele.
— Não… — murmurou. — Isso não tá certo.
Juan respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. Letícia nunca sumia. Nunca. Mesmo nos dias mais exaustivos, mandava ao menos um “cheguei” ou um coração.
Ele fez uma ligação curta.
— Quero saber tudo. Agora.
— Sobre quem? — perguntaram do outro lado.
— Letícia. Faculdade, hospital, trajeto, câmeras, tudo. Desde ontem de manhã.
Desligou e ligou para o segurança da casa.
— Tranca tudo. Ninguém entra, ninguém sai. Se a Letícia aparecer, me liga na mesma hora.
O coração batia pesado no peito, aquela sensação antiga que ele conhecia bem: perigo real.
Minutos depois, o telefone vibrou.
— Juan… — a voz do outro lado era tensa. — Tem coisa errada. Ela não deu entrada hoje na faculdade. Nem ontem à tarde.
Os olhos dele escureceram.
— E o hospital?
— Saiu do laboratório no horário normal. Depois disso… sumiu.
Juan encostou a testa no volante, fechando os olhos por um segundo. Quando abriu, já não havia dúvida, nem hesitação.
— Mexeram com a pessoa errada — disse, frio. — E agora vão entender exatamente o porquê.
Ele deu partida no carro, enquanto outra ligação já entrava.
A noite tinha acabado de começar — e Juan não ia parar até encontrar Letícia.
A escuridão do galpão parecia mais fria do que realmente era. Letícia estava sentada numa cadeira de metal, as mãos presas à frente, o coração batendo tão alto que ela tinha certeza de que dava para ouvir.
— Não… não me faz m*l, por favor… — a voz saiu fraca, quase um sussurro.
O homem à frente dela riu baixo, um riso que não tinha humor algum.
— Calma. — Ele caminhou em volta dela, observando com atenção demais. — Você é linda mesmo. Agora eu entendo por que o Juan te ama tanto. — Parou atrás dela. — Mas agora… você é minha moeda.
Letícia fechou os olhos, uma lágrima escorrendo silenciosa.
— Ele vai vir — disse, mais para si mesma do que para ele. — Ele sempre vem.
— É exatamente isso que eu espero — respondeu o mafioso rival, satisfeito. — Juan é impulsivo quando se trata de você. E homens assim… cometem erros.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Juan estava em movimento.
Carros cruzavam avenidas, homens falavam ao mesmo tempo, telas com imagens de câmeras surgiam e desapareciam. Ele não estava gritando, não estava quebrando nada. O silêncio dele era pior.
— Última localização confirmada? — perguntou.
— Posto desativado na saída da cidade. Depois disso, trocaram de veículo — respondeu um dos homens.
Juan assentiu lentamente.
— Então foi planejado. — Ele respirou fundo. — E foi pessoal.
O telefone vibrou. Uma mensagem sem número.
“Ela está viva.
Se quiser que continue assim, venha sozinho.”
Juan fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, não havia medo ali. Só decisão.
— Prepara tudo. — A voz saiu firme. — Mas eu vou entrar sozinho.
— Juan, isso é armadilha —
— Eu sei. — Ele interrompeu. — E mesmo assim, eu vou.
Porque para ele, naquele momento, não existia negócio, território ou poder.
Só existia Letícia.
O galpão cheirava a ferrugem e gasolina. Letícia tremia, mas mantinha a cabeça erguida do jeito que conseguia. O medo estava ali, rasgando por dentro, mas havia algo mais forte: ela conhecia Juan. Sabia que ele não parava. Nunca.
O mafioso rival se sentou numa cadeira à frente dela, cruzando as pernas com calma provocadora.
— Fica tranquila — disse ele, acendendo um cigarro. — Você não é meu alvo. É só… o caminho até ele.
— Você não precisa fazer isso — Letícia respondeu, a voz falhando, mas firme. — Se quer guerra com Juan, resolva com ele. Me deixa fora disso.
Ele sorriu de canto.
— Já está resolvendo. Você é o ponto fraco dele. — Aproximou-se e segurou o queixo dela com dois dedos, sem força excessiva. — Mas fica calma. Enquanto ele obedecer, nada acontece com você.
Ela engoliu em seco, fechando os olhos por um instante.
— Ele não vai obedecer — murmurou. — Ele vai acabar com você.
O sorriso do homem vacilou por um segundo… quase imperceptível.
---
Juan chegou ao local indicado pouco antes da meia-noite. Um galpão isolado, longe da cidade. Ele desligou o carro, respirou fundo e saiu. Estava desarmado, como haviam exigido, mas cada passo dele era calculado.
— Eu vim — disse alto, a voz ecoando. — Solta ela.
As luzes se acenderam de uma vez.
Letícia levantou o rosto no mesmo instante. Os olhos se encontraram. O mundo pareceu parar por um segundo.
— Juan… — ela sussurrou, chorando.
O coração dele se partiu e se fortaleceu ao mesmo tempo.
— Tá tudo bem, linda. Eu tô aqui — disse, sem tirar os olhos dela.
O rival surgiu ao lado dela, a mão pousada no ombro de Letícia como um aviso.
— Impressionante — ele comentou. — Você realmente veio sozinho.
— Ela não é parte do seu jogo — Juan respondeu, frio. — Se quer algo, fala comigo.
— Eu quero território. Quero respeito. — O homem deu um passo à frente. — E quero ver você sangrar um pouco.
Juan sorriu. Um sorriso perigoso.
— Você já perdeu no momento em que tocou nela.
Num segundo seguinte, o som de carros cercando o galpão rompeu o silêncio. Faróis, portas batendo, passos rápidos.
O rival arregalou os olhos.
— Você mentiu.
— Não — Juan respondeu. — Eu só pensei à frente.
O caos se instalou. Gritos, ordens, armas sendo apontadas. Juan avançou direto até Letícia, puxando-a para os braços dele no primeiro instante possível.
— Você tá bem? — perguntou, segurando o rosto dela com cuidado.
Ela chorava, agarrada à camisa dele.
— Agora eu tô.
Juan a envolveu num abraço protetor, o corpo dele inteiro servindo de escudo.
— Ninguém nunca mais toca em você — murmurou no ouvido dela. — Eu prometo.
Enquanto os homens dele dominavam a situação, Juan não soltou Letícia nem por um segundo. Porque aquela noite tinha deixado claro algo que ele já sabia, mas agora ardia como verdade absoluta:
Ela não era só o ponto de paz dele.
Ela era a única coisa que ele jamais perderia.