Capítulo 1 – Não foi amor que faltou
YASMIN
Sabe quando a vida te coloca num campo minado e tu tem que dançar em cima das bombas como se fosse desfile na Sapucaí?
Pois é... bem-vinda à minha rotina.
Me chamo Yasmin Oliveira, mas ninguém me chama assim. Aqui no morro é só Yá. Tenho 19 anos nas costas, uns sonhos engavetados e uma mãe que depende de mim pra tudo.
Ela tem uma doença que nem sei pronunciar direito, mas que tira as forças dela e o pouco de alegria que ainda tenta segurar. Quem segura a barra sou eu. Desde os 16 na correria pra manter os remédios em dia, comida no prato e dignidade no nome.
Estudo, trampo e sobrevivo. Trabalho num restaurante chique na Zona Sul, servindo champanhe pra madame que nem olha na minha cara. Mas eu sorrio. Faço meu corre calada, mesmo com o pé doendo e a alma cansada. No tempo livre, estudo informática e línguas. Falo inglês e espanhol fluente. Hacker do bem, como dizem os pivetes aqui.
Mas por trás dessa cara de mulher guerreira que todo mundo admira, tem um coração... que ainda apanha por causa de um maluco.
Alan.
Ele já foi o amor da minha vida. Hoje... é o motivo da minha insônia.
Namorei o Alan quando eu tinha 15 e ele 16. Na época, ele era só o Alan mesmo. Tímido, olhar triste, sempre calado no canto. Mas comigo, sorria. Me contava as dores, os medos, os sonhos. Me mostrou que até na quebrada nascia flor. Foi meu primeiro beijo, meu primeiro tudo. Me ensinou a amar e também a sangrar.
A vida já tinha judiado dele, mas o pior ainda estava por vir. Quando ele fez 17, o pai dele — um monstro de verdade — matou a mãe na frente deles. Esfaqueou sem piedade, sem alma. Alan tentou salvar, levou facada também, mas conseguiu fugir com os dois irmãos: Aline e André.
Eles nunca mais foram os mesmos.
Ele mudou demais depois disso. Entrou no crime por vingança. O plano, matar o pai que fugiu. Sumiu por uns tempos, meses e quando voltou… já era Rei do Pó.
E eu?
Continuei sendo a Yá certinha, que não pisa fora da linha nem pra atravessar a rua. Não dava mais. Eu não conseguia namorar um cara que vendia destruição. Mesmo com o coração se despedaçando, terminei.
Foi exatamente há dois anos. Dois anos que eu disse “chega” chorando, tremendo, com ele implorando pra eu não ir. Dois anos que ele não aceitou o fim. Dois anos que ele jura que ainda é meu e eu dele. E vive aparecendo do nada, me encarando com aqueles olhos que me desarmam, roubando beijo como se ainda fosse dono da minha boca.
O pior... é que uma parte de mim ainda deixa.
Mas não dá. Eu não posso ser mulher de bandido. Minha mãe me criou com o pouco que tinha pra eu ser alguém. E eu jurei que não ia decepcionar ela.
Mesmo que isso custe meu coração.
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O relógio já marcava quase meia-noite quando o ônibus parou no pé do morro. Desci com a bolsa atravessada no peito, os ombros doendo, a alma pedindo cama e silêncio. O salto apertando meu pé, o cansaço pesando mais que sacola de feira.
Subi o beco devagar, olhando pros lados, como toda cria sabe fazer. No morro a noite tem ouvidos, olhos e inimigos. Mas o silêncio daquele momento não era paz… era aviso.
Quando dobrei a última viela antes de casa, meu coração deu aquele pulo no peito.
Ele tava lá.
Encostado na moto, sem camisa, calça folgada caindo, braço cruzado e um fuzil pendurado no peito como se fosse mochila. A pele suada brilhando na luz fraca do poste.
Os olhos?
Aqueles malditos olhos escuros que me liam inteira, mesmo quando eu fingia estar ilesa.
— Tá tarde pra tu tá rodando sozinha, Yá — a voz rouca dele cortou o silêncio como navalha. — Já te falei que isso não me desce.
— Já te falei que minha vida não é da tua conta, Alan — respondi sem parar de andar. Se eu vacilasse um segundo naquele olhar, me perdia.
Mas ele foi mais rápido. Deu dois passos largos e ficou na minha frente. A arma balançava no peito dele como se fosse parte do corpo. O cheiro dele, do suor... tudo nele me invadia de novo.
— É da minha conta sim — ele disse baixo, colando o rosto no meu — tu é minha, Yasmin. Sempre foi.
— Não sou mais nada tua. Tu fez tua escolha, eu fiz a minha — tentei parecer firme, mas a voz entregou. — Deixa eu passar, tô cansada.
Ele não se moveu. Só levantou a mão e passou o dedo de leve no meu queixo, me obrigando a olhar nos olhos dele.
— Te vi servindo aquele playboy hoje no restaurante… ele riu pra tu, né?
— E se ele riu? Vai meter bala nele? — rebati, sentindo o sangue subir.
O sorriso torto dele apareceu. Aquele maldito sorriso que sempre me tirava do sério. Ele inclinou a cabeça, me analisando devagar.
— Só tô avisando… ninguém chega perto de tu. Ninguém. Quem tentar, eu apago. Tu pode me odiar, mas não vai amar outro.
Antes que eu respondesse, ele me puxou pela nuca e roubou um beijo. Descarado. Quente. Com gosto de raiva e saudade. Meu corpo gritou, minha mente xingou, mas por um segundo… só um… eu cedi.
E foi aí que me odiei mais um pouco.
Empurrei ele com força e limpei a boca com as costas da mão, mesmo sabendo que era tarde demais.
— Vai embora, Alan. Some da minha frente.
Ele respirou fundo, mas não insistiu. Só deu um passo pra trás, passou a mão no cabelo e me olhou como se eu fosse tudo que ele queria e não podia mais ter.
— Tu nunca foi só minha mulher, Yá… tu é minha fraqueza.
E então ele virou de costas, o fuzil balançando no ombro, sumindo na noite como um fantasma daquilo que um dia me fez sorrir.
Entrei em casa com o peito doendo mais que os pés. E desejei, com tudo que tinha dentro de mim, que amar um bandido fosse mais fácil de esquecer.
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