Elara
O Reino das Sombras
Restava apenas um dia.
Um único dia.
Quando acordei naquela manhã, fiquei alguns segundos encarando o teto do meu quarto, tentando convencer a mim mesma de que tudo não passava de um pesadelo.
Mas a marca n***a em meu pulso continuava lá.
Mais escura.
Mais viva.
Mais real.
Suspirei.
Não havia como fugir da verdade.
A profecia me encontrara.
E o Rei das Sombras voltaria em poucas horas.
Passei a manhã inteira evitando meus pais.
Não porque não os amasse.
Mas porque cada vez que olhava para eles sentia vontade de chorar.
Minha mãe tentava ser forte.
Meu pai tentava parecer confiante.
Mas eu conhecia os dois bem demais.
Eles estavam sofrendo.
Assim como eu.
Acabei me refugiando no jardim novamente.
Meu lugar favorito.
Meu lar.
O vento balançava as flores enquanto eu caminhava entre os canteiros.
Passei os dedos pelas rosas.
Pelos lírios.
Pelas margaridas.
Memorizando tudo.
Cada cor.
Cada perfume.
Cada detalhe.
— Vou sentir saudades de vocês.
Era ridículo falar com flores.
Mas elas sempre me ouviram melhor do que muita gente.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
Logo depois outra.
E outra.
Até que comecei a chorar de verdade.
Pela primeira vez desde o festival.
Porque finalmente estava acontecendo.
Eu realmente iria embora.
Quando voltei para a mansão, encontrei meus pais me esperando na biblioteca.
Meu coração apertou imediatamente.
Minha mãe segurava algo nas mãos.
Um pequeno livro.
Antigo.
Muito antigo.
— O que é isso?
Ela sorriu tristemente.
— Pertencia à sua avó.
Recebi o livro.
A capa era feita de couro gasto pelo tempo.
Folheei algumas páginas.
E encontrei desenhos de flores.
Centenas delas.
Flores raras.
Flores mágicas.
Flores que eu jamais havia visto.
— Ela era uma estudiosa?
Meu pai assentiu.
— Mais do que isso.
— O que quer dizer?
Os dois trocaram um olhar.
Um daqueles olhares que os pais usam quando estão decidindo se devem contar um segredo.
— Sua avó acreditava na profecia.
Meu estômago afundou.
— A da Rainha das Sombras?
— Sim.
Fechei o livro lentamente.
— Então ela era louca.
Meu pai riu.
Minha mãe não.
— Ela acreditava que a escolhida nasceria em nossa família.
Meu coração falhou uma batida.
— O quê?
— Ela dizia que um dia uma flor n***a floresceria novamente.
O silêncio tomou conta da sala.
— Vocês sabiam?
— Não — respondeu meu pai imediatamente.
— Mas ela acreditava.
Olhei para o livro em minhas mãos.
De repente, tudo pareceu ainda mais complicado.
Como se minha vida estivesse sendo conduzida para aquele momento desde muito antes do meu nascimento.
Naquela noite, eu não consegui jantar.
A ansiedade havia tomado conta de mim.
Cada minuto parecia durar uma eternidade.
O relógio avançava.
E meu tempo diminuía.
Quando finalmente me deitei, não consegui dormir.
Fiquei olhando pela janela.
Observando as estrelas.
Pensando no reino que me aguardava.
O Reino das Sombras.
Como seria?
Era realmente um lugar sombrio?
Existiam monstros?
Espíritos?
Ou tudo aquilo eram apenas histórias criadas para assustar crianças?
Pensei em Kael.
E imediatamente me arrependi.
Porque meu coração começou a bater mais rápido.
Aquilo estava se tornando um problema.
Um grande problema.
Eu m*l o conhecia.
Mesmo assim, não conseguia parar de pensar nele.
Nos olhos dele.
Na voz dele.
Na forma como me observava.
Como se eu fosse a única pessoa presente em qualquer lugar.
Fechei os olhos.
E tentei dormir.
Mas o sonho voltou.
Ou talvez não fosse um sonho.
Desta vez, eu estava em um enorme salão.
As paredes eram feitas de obsidiana n***a.
Candelabros prateados iluminavam o ambiente.
E flores.
Flores por toda parte.
Flores negras.
Flores azuis.
Flores douradas.
Era estranho.
Porque aquele lugar deveria parecer assustador.
Mas não parecia.
Parecia bonito.
Misterioso.
Quase acolhedor.
— Você está vendo.
A voz de Kael surgiu atrás de mim.
Virei-me imediatamente.
Ele estava ali.
Vestido de n***o.
Mais bonito do que eu me lembrava.
O que era injusto.
Muito injusto.
— Onde estamos?
— No meu castelo.
Meu coração disparou.
Observei tudo novamente.
— Isso existe de verdade?
— Sim.
— Então vocês realmente têm flores no Reino das Sombras.
Um sorriso surgiu nos lábios dele.
— Ficou decepcionada?
— Um pouco.
— Porque?
— Eu esperava mais esqueletos.
A gargalhada dele ecoou pelo salão.
Uma gargalhada verdadeira.
Profunda.
E eu simplesmente fiquei olhando.
Surpresa.
Porque nunca imaginei que o temido Rei das Sombras pudesse rir daquela forma.
Quando percebeu meu olhar, ele arqueou uma sobrancelha.
— O quê?
— Nada.
— Está mentindo.
— Talvez.
O sorriso dele permaneceu.
E, por algum motivo, aquilo fez meu estômago dar um pequeno salto.
Perigoso.
Muito perigoso.
— Está com medo? — ele perguntou.
A pergunta era simples.
Mas a resposta não.
Porque eu não tinha medo apenas do Reino das Sombras.
Eu tinha medo do que estava acontecendo entre nós.
Medo da forma como me sentia perto dele.
Medo da facilidade com que ele atravessava minhas defesas.
— Sim.
A honestidade saiu antes que eu pudesse impedir.
A expressão dele suavizou.
— Eu sei.
— E isso não incomoda você?
— Incomoda.
Pisquei.
— Incomoda?
— Sim.
— Por quê?
Os olhos dele encontraram os meus.
E algo intenso passou entre nós.
Algo que fez meu coração acelerar.
— Porque eu não quero que tenha medo de mim, Elara.
Minha respiração falhou.
Por um instante.
Apenas um instante.
Esqueci completamente como respirar.
E foi exatamente nesse momento que acordei.
O sol ainda não havia nascido.
Mas eu já sabia.
Ele estava vindo.
Hoje.
O Rei das Sombras voltaria.
E quando isso acontecesse...
Minha vida no Reino da Luz chegaria ao fim.
E uma nova começaria.
No Reino das Sombras.