Elara
Eu nunca imaginei que uma única manhã pudesse doer tanto.
Quando abri os olhos, soube imediatamente que aquele era o dia.
O dia em que deixaria minha casa.
O dia em que deixaria meus pais.
O dia em que atravessaria as fronteiras do Reino da Luz para seguir o homem que aparecia em meus sonhos.
O homem que a profecia havia escolhido para mim.
Kael Draven.
O Rei das Sombras.
Meu coração apertou.
Permaneci deitada por alguns minutos, encarando o teto do quarto onde havia passado toda a minha vida.
Cada canto daquele lugar guardava uma lembrança.
As flores secas que eu costumava esconder dentro dos livros.
As pinturas nas paredes.
A poltrona próxima à janela onde passava horas lendo.
Tudo aquilo fazia parte de mim.
E eu estava prestes a perder tudo.
Uma batida suave interrompeu meus pensamentos.
— Entre.
A porta se abriu lentamente.
Minha mãe entrou.
Os olhos dela estavam vermelhos.
Ela havia chorado.
Novamente.
Meu coração se partiu.
— Mãe...
Ela sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Eu trouxe seu café da manhã.
Sentei-me na cama.
— Não precisava.
— Eu queria.
Minha voz falhou.
— Não faça isso.
— Fazer o quê?
— Agir como se tudo estivesse normal.
As lágrimas surgiram imediatamente nos olhos dela.
E, naquele instante, eu não consegui mais me controlar.
Corri para seus braços.
Minha mãe me abraçou com força.
Como fazia quando eu era criança.
Como fazia quando eu tinha medo.
E, naquele momento, eu tinha mais medo do que nunca.
— Eu não quero ir.
Ela começou a chorar.
— Eu sei.
— Tenho medo.
— Eu sei.
— E se eu não conseguir?
Ela segurou meu rosto.
— Você consegue qualquer coisa.
— Nem sempre.
— Sempre.
Sorri entre as lágrimas.
Porque ela estava mentindo.
Mas era uma mentira bonita.
Uma mentira de mãe.
O restante da manhã passou rápido demais.
Arrumei minhas coisas.
Separei alguns livros.
Algumas roupas.
O diário que mantinha escondido desde os quinze anos.
E o antigo livro de flores que havia pertencido à minha avó.
Algo me dizia que eu precisaria dele.
Quando terminei, observei o quarto uma última vez.
Meu peito apertou novamente.
Adeus.
Meu pai me encontrou no jardim.
É claro que encontrou.
Ele sempre sabia onde eu estava.
Passei os dedos pelas pétalas de uma rosa branca.
Tentando gravar sua textura na memória.
— Achei que estaria aqui.
Sorri sem olhar para ele.
— Eu também.
Ele se aproximou.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
Observando as flores.
Observando o vento.
Observando o mundo continuar girando como se nada estivesse acontecendo.
— Está com raiva de mim?
A pergunta me surpreendeu.
Virei-me imediatamente.
— O quê?
— Por não conseguir impedir isso.
Meu coração se partiu.
— Pai...
Ele desviou o olhar.
Aquilo era raro.
Muito raro.
Meu pai era o homem mais forte que eu conhecia.
Mas naquele momento ele parecia apenas um pai prestes a perder a filha.
— Eu deveria protegê-la.
Segurei suas mãos.
— Você sempre me protegeu.
— Não desta vez.
— Não é sua culpa.
Sua voz ficou rouca.
— Você ainda é minha menina.
As lágrimas voltaram.
— E sempre vou ser.
Ele me abraçou.
Forte.
Como se estivesse tentando memorizar aquele momento.
Como se estivesse tentando impedir o tempo de passar.
E talvez estivesse.
Porque eu também queria.
O sol começava a se pôr quando o céu mudou.
Primeiro veio o vento.
Depois o silêncio.
Os pássaros desapareceram.
As flores ficaram imóveis.
E uma estranha energia percorreu o ar.
Meu coração disparou.
Ele estava chegando.
Todos saíram da mansão.
Servos.
Guardas.
Meus pais.
Todos.
As sombras começaram a surgir no jardim.
Deslizando pelo chão.
Dançando entre as flores.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Então ele apareceu.
Kael.
Vestido inteiramente de n***o.
A coroa escura brilhava sob a luz do entardecer.
Mas não foi isso que chamou minha atenção.
Foi o olhar dele.
Porque estava procurando por mim.
E me encontrou imediatamente.
Como sempre.
Meu coração fez algo estranho dentro do peito.
Algo que eu preferi ignorar.
Kael caminhou até nós.
Meu pai deu um passo à frente.
Instintivamente.
Protetor.
O Rei das Sombras respeitou aquilo.
Percebi pela forma como inclinou levemente a cabeça.
— Lorde Ashbourne.
— Majestade.
O clima era tenso.
Mas respeitoso.
Então os olhos de Kael voltaram para mim.
E o resto do mundo desapareceu.
— Está pronta?
Não.
Absolutamente não.
Mas respondi:
— Sim.
Era mentira.
Uma mentira terrível.
Mas ele pareceu entender.
Porque seus olhos suavizaram.
Apenas um pouco.
Minha mãe começou a chorar novamente.
Meu pai a abraçou.
E eu senti meu coração quebrar.
Porque aquilo tornava tudo real.
Não havia mais volta.
Não havia mais tempo.
Aproximei-me dos dois.
Abraçando-os pela última vez.
— Eu amo vocês.
Minha mãe soluçou.
— Nós amamos você mais.
Meu pai beijou minha testa.
Como sempre fazia.
— Volte para nós.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto.
— Vou tentar.
— Não.
Ele sorriu através da própria dor.
— Apenas seja feliz.
Aquilo doeu mais do que qualquer outra coisa.
Porque percebi que ele estava me deixando partir.
De verdade.
Quando me afastei deles, minhas pernas tremiam.
Kael percebeu.
É claro que percebeu.
Sem dizer nada, estendeu a mão.
Olhei para ela.
Depois para ele.
Seu rosto estava sério.
Mas seus olhos...
Seus olhos estavam cheios de uma estranha gentileza.
Respirei fundo.
E coloquei minha mão na dele.
No instante em que nossas peles se tocaram, uma onda de energia percorreu meu corpo.
A marca n***a em meu pulso brilhou.
As sombras ao nosso redor responderam imediatamente.
Girando.
Dançando.
Como se comemorassem.
Kael apertou minha mão.
Não forte.
Não de forma possessiva.
Apenas o suficiente para me lembrar que eu não estava sozinha.
— Pronta?
Dessa vez fui sincera.
— Não.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Nem eu.
Pisquei.
Surpresa.
E, antes que pudesse responder, as sombras nos envolveram.
O jardim desapareceu.
A mansão desapareceu.
Meus pais desapareceram.
Tudo desapareceu.
Meu coração disparou.
Apertei a mão dele com força.
E, pela primeira vez, Kael apertou a minha de volta.
Quando a escuridão finalmente se dissipou, eu estava em outro lugar.
Um lugar impossível.
Um lugar lindo.
Um lugar que jamais existiria no Reino da Luz.
Flores negras brilhavam sob um céu estrelado.
Montanhas de cristal surgiam ao longe.
Rios prateados cortavam a paisagem.
E um castelo gigantesco dominava o horizonte.
Meu fôlego desapareceu.
— Bem-vinda ao Reino das Sombras, Elara.
Observei aquele mundo mágico.
Aquele mundo que agora também era meu.
E compreendi uma verdade assustadora.
O Reino das Sombras não era nada parecido com as histórias que me contaram.
Era muito mais perigoso.
Porque era bonito o suficiente para me fazer querer ficar.